Bolsonaro discursa na TV pelo 7 de Setembro e reativa panelaços

Mais cedo, mandatário estrelou comemoração enxuta em Brasília, por causa da pandemia, mas descumpriu recomendações de autoridade sanitárias. Lula divulga vídeo nas redes

Jair Bolsonaro com crianças no Rolls Royce presidencial, durante o 7 de setembro, em Brasília
Jair Bolsonaro com crianças no Rolls Royce presidencial, durante o 7 de setembro, em BrasíliaAndre Borges (AP)
Brasília -

O presidente da República, Jair Bolsonaro, mais uma vez descumpriu as recomendações das autoridades sanitárias durante a pandemia de coronavírus e caminhou entre as pessoas sem o uso de máscara. Durante a cerimônia em comemoração ao 198º ano de independência do Brasil, Bolsonaro esteve no Rolls Royce conversível da presidência com oito crianças ―todas brancas―, a maioria delas sem máscaras também. Já à noite, o presidente fez um breve discurso, de pouco mais de três minutos, com verve anticomunista e tendo a “miscigenação” e a “assimilação” como tônica da identidade nacional. “A identidade nacional começou a ser desenhada com a miscigenação entre índios, brancos e negros”, afirmou o presidente. “Religiões, crenças, comportamentos e visões eram assimilados e respeitados”.

Os breves minutos de pronunciamento foram suficientes para reativar a onda de panelaços. Ao menos em São Paulo e Brasília, alguns bairros registraram a manifestação de opositores, enquanto Bolsonaro falava em defender a Constituição, mas, ao mesmo tempo, exaltava o golpe que segundo ele salvou o Brasil “da sombra do comunismo”. “Nos anos 60, quando a sombra do comunismo nos ameaçou, milhões de brasileiros, identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, foram às ruas contra um país tomado pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”, disse o presidente.

Depois de percorrer os 400 metros entre o Palácio da Alvorada e a praça das Bandeiras, localizada na entrada da residência oficial, o mandatário cumprimentou dezenas de apoiadores que o aguardavam para o evento. Repetiu o ato após o hasteamento da bandeira e uma apresentação das aeronaves da esquadrilha da fumaça. Ainda tirou selfies com seus apoiadores. Em alguns momentos de interação com a população, esteve acompanhado de ministros como o general Auguto Heleno (GSI) e Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura), que também não estavam com o equipamento de proteção individual.

Por causa da pandemia de covid-19, neste ano não ocorreu o tradicional desfile de 7 de Setembro na Esplanada dos Ministérios. Ainda assim, centenas de pessoas participaram do evento na frente do Palácio da Alvorada. Em certo momento, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, foi aclamada pelos apoiadores aos gritos de “mita”. A mulher do presidente voltou aos holofotes recentemente quando Jair Bolsonaro ameaçou bater num repórter que o perguntou porque Michelle havia recebido 89.000 reais de Fabrício Queiroz, ex-assessor da família pivô no escândalo da rachadinha, que investiga a suposta apropriação por Flavio Bolsonaro de parte dos salários de servidores lotados em seu gabinete. Após a reação do presidente, a pergunta viralizou nas redes sociais.

O ato foi acompanhado por ministros, parlamentares, pelo vice-presidente Hamilton Mourão e pelos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e do Supremo Tribunal Federal, José Antônio Dias Toffoli. Rodrigo Maia, em rota de colisão com o ministro da Economia, Paulo Guedes, não compareceu. Durante o ato, o presidente não fez nenhum discurso ou concedeu entrevistas. Um vídeo editado, com música grandiloquente, foi divulgado por meio das redes sociais do mandatário.

Bolsonaro não foi o único a usar a data pátria para falar aos brasileiros. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também divulgou um vídeo nas redes sociais. Embalado por uma música sóbria e por vezes sombria, o petista fez um discurso de 23 minutos no qual culpou Bolsonaro pelas quase 130.000 mortes na pandemia, que ele classificou de “evitáveis”. Lula acusou o Planalto de atentar contra a soberania nacional ao se subordinar aos EUA. “Bolsonaro aproveita o sofrimento coletivo para cometer um crime de lesa pátria”, disse o ex-presidente. Embora diga que não pretende, necessariamente, concorrer às eleições presidenciais de 2022, o discurso longo e com temas de Estado e de combate à desigualdade e em defesa as minorias ―“Quantos George Floyd já morreram no Brasil?”― foi lido como um relançamento de Lula no debate público. Em vários momentos disse que “pelo voto” é que se refundará o contrato social brasileiro.


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