Governo Bolsonaro

Prisão de Queiroz deixa militares reticentes sobre Bolsonaro enquanto Centrão aumenta preço de apoio

Acossado por investigações contra filho e vínculos com milícia, presidente avalia estratégia para se manter no cargo. “Enquanto houver dinheiro a ser liberado, estaremos com o presidente”, diz deputado

O presidente Jair Bolsonaro, no dia 17, no Planalto.
O presidente Jair Bolsonaro, no dia 17, no Planalto.ADRIANO MACHADO / Reuters

A pior semana para o Governo Jair Bolsonaro em quase 18 meses de mandato termina com dois alertas para o presidente. O primeiro, o alto oficialato das Forças Armadas não tem mais tanta segurança em apoiá-lo e espera as próximas movimentações para saber que rumo tomar. Por enquanto, joga parado. O segundo, o Centrão cobrará uma fatura cada vez mais alta para barrar eventuais processos de impeachment. Isso significa que ministérios que estão vagos, como Saúde e Educação —dois dos que têm maiores orçamentos na Esplanada—, tornam-se potenciais moedas de troca, que renderiam cerca de 200 votos na Câmara. Para impedir uma eventual destituição são necessários 171.

Desde a última segunda-feira, a gestão Bolsonaro está sob franco ataque. Viu apoiadores serem presos por participação em atos antidemocráticos que pediam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Encarou o Judiciário autorizando a quebra de sigilo bancário de onze parlamentares governistas suspeitos de financiarem esses atos. E teve de acompanhar calado o STF decretar a legalidade do inquérito das fake news, que tem como alvos principais bolsonaristas que difamam opositores políticos. Para coroar a semana, testemunhou a detenção de Fabrício Queiroz na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederick Wasseff. Queiroz era assessor do senador Flávio Bolsonaro e é investigado sob a suspeita de comandar um esquema de desvio de salário de servidores do gabinete dele enquanto foi deputado estadual no Rio de Janeiro, a rachadinha. Pior ainda, a investigação deixou claro o vínculo de Queiroz com a milícia, o que atinge em cheio o presidente. Foi o advogado da sua família, Frederick Wassef, quem escondeu o ex-assessor de Flávio.

Nesta mesma semana, o presidente ainda demitiu Abraham Weintraub do Ministério da Educação, o que para sua claque soou mal. Nas redes dos militantes mais extremados era comum ver pessoas chamando o agora ex-ministro de herói e dizendo que o presidente errou no caso, ao ceder à pressão do Judiciário. Ferino e desbocado, Weintraub era da ala ideológica da gestão e, em mais de uma ocasião, defendeu a prisão dos “vagabundos” ministros do STF.

Diante desse cenário, a articulação comandada por Bolsonaro para se segurar no cargo só fez aumentar o apetite do Centrão. Desde quarta-feira, o grupo fisiológico ocupa o recriado Ministério das Comunicações, com o deputado Fábio Faria (PSD-RN). Antes já estava em ao menos uma dezena de cargos de segundo e terceiro escalões com orçamentos que passam dos 73 bilhões de reais. Agora, além da Educação e da Saúde, miram as pastas de Infraestrutura e Agricultura. Nessas, contudo, a chance de obterem êxito é menor porque os dois titulares delas gozam de alto prestígio junto ao presidente. Independentemente de quais novos cargos ocuparão, os políticos profissionais do centrão já deram o sinal: “Enquanto houver dinheiro para ser liberado para as nossas bases eleitorais, estaremos com o presidente”. A declaração foi feita por um dos representantes do grupo ao EL PAÍS.

Jogo parado

Entre os militares, a avaliação é de que ainda é preciso esperar qual será a reação prática do mandatário à prisão de Fabrício Queiroz. “Já foi pedido para o presidente não radicalizar mais. Vamos ver como ele vai se mexer”, afirmou um dos militares com acesso ao Palácio do Planalto. A principal preocupação de Bolsonaro é que Queiroz faça um acordo de delação premiada no qual aponte eventuais elos entre sua família e milicianos do Rio de Janeiro com os quais o ex-assessor possui vínculos.

Dois especialistas consultados pela reportagem se dividiram quanto ao apoio do generalato ao Governo. “Na minha percepção, os militares estão esperando um golpe de misericórdia. A base da árvore está apodrecendo e basta um empurrãozinho para ela cair”, disse o doutor em relações internacionais David Almstadter Magalhães, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC) em São Paulo.

“A não ser que ocorra algo, extremamente catastrófico com algum escândalo relacionado às Forças Armadas, acho muito difícil que os militares mudem de opinião sobre o apoio ao Governo”, afirmou o doutor em ciência política Lucas Rezende, professor na Universidade Federal de Santa Catarina. Rezende ressalta, porém, que a movimentação dos militares também é calculada porque em uma eventual destituição o ocupante do Palácio do Planalto será outro militar, o general da reserva do Exército Hamilton Mourão (PRTB).

O que tanto Rezende quanto Magalhães coincidem é que Bolsonaro nunca foi uma unanimidade entre os militares. Desde o início de sua gestão, ele tem se dividido entre os fardados mais pragmáticos e legalistas e os que aceitaram se aproximar do braço ideológico influenciado pelo escritor Olavo de Carvalho. A estratégia para comprar esse apoio é parecida com a usada junto aos políticos do centrão: ceder espaços. Dos 23 ministérios, 10 são ocupados por militares ou ex-militares. Levantamento do site Poder 360 publicado nesta semana mostra que há 2.930 militares cedidas ao Poder Público. É o maior número desde a ditadura militar.

O que parece ter arrefecido, por enquanto, é uma espécie de autogolpe que o presidente vinha estimulando nas últimas semanas. “O prestígio social do presidente entra em processo de decomposição. Daqui pra frente, qualquer tentativa dele se valer dos militares para fazer chantagem golpista é blefe”, avaliou Magalhães. Na avaliação de Rezende, no entanto, ainda não estaria descartada um confronto civil armado entre apoiadores e opositores do presidente. Tudo a depender dos próximos movimentos das peças nesse tabuleiro político-jurídico-militar.

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