Caso Queiroz

Frederick Wasseff, o “anjo” da família Bolsonaro que sabia onde estava Queiroz

Advogado criminalista íntimo do clã presidencial negava saber o paradeiro do ex-assessor de Flávio Bolsonaro e deve ser investigado pela OAB-SP por ter lhe dado abrigo

Frederick Wassef comparece a uma cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em 17 de junho de 2020.
Frederick Wassef comparece a uma cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em 17 de junho de 2020.ADRIANO MACHADO / Reuters

Discreto. Ótimo advogado (mas de bastidores). Temente a Deus. É assim que o criminalista do clã Bolsonaro, Frederick Wasseff, é definido por diversos de seus pares, que conversaram com o EL PAÍS na condição de manterem o anonimato. Wasseff já tinha um histórico de controvérsias antes mesmo de ganhar os holofotes por ter dado abrigo a Fabrício Queiroz, suspeito de ser o responsável por um suposto esquema de “rachadinha” do gabinete do então deputado estadual, Flávio Bolsonaro.

Queiroz foi preso na manhã desta quinta-feira na Operação Anjo, em um imóvel de Wasseff em Atibaia, do interior de São Paulo —curiosamente, cidade também famosa pelo caso do sítio que condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão no âmbito da Lava Jato. A operação teria sido batizada de “Anjo” em referência ao apelido do advogado dos Bolsonaro. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPF-RJ), no entanto, não confirma a informação, pois o inquérito está em sigilo.

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Sabe-se que Wasseff é admirador dos Bolsonaro, mas as informações de como ele conheceu a família são nebulosas. Há quem defenda que o criminalista tomou a iniciativa de se aproximar dos políticos antes mesmo das eleições de 2018, motivado por valores comuns com o então candidato, como a defesa da família, dos armamentos e da religião. Outros afirmam que a relação é mais antiga, e começou como uma amizade entre famílias em 2014, que passou a uma oportunidade de negócios. Conforme reportagem do jornal O Globo, em 2016, ele teria participado, juntamente com sua então mulher, a empresária Maria Cristina Boner Leo, da elaboração do projeto assinado por Jair e Eduardo Bolsonaro para liberar a chamada “pílula do câncer” (fosfoetanolamina).

Maria Cristina Boner Leo é um capítulo à parte na trajetória de Wasseff. Em 2009, ela foi denunciada no âmbito da Operação Caixa de Pandora ― que investigou políticos de Brasília incluindo o então governador José Roberto Arruda ―, pela prática dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Antes disso, ela viveu uma separação conturbada com seu ex-marido, o empresário Antonio Bruno Di Giovani Basso, na disputa por patrimônio. Wasseff é um inimigo declarado de Basso, que chegou a ser preso e acusado de fazer ameaças à ex-mulher, o que o empresário sempre negou. Maria Cristina e Wasseff estão separados há cerca de três anos.

Paralelamente aos conflitos familiares, Wasseff foi galgando os degraus do poder em Brasília, ora como conselheiro ora como advogado do clã. Representou o presidente no caso Adélio Bispo, responsável pelo atentado a faca contra Bolsonaro, às vésperas das eleições presidenciais de 2018. Também representa o senador Flávio Bolsonaro na investigação do suposto esquema de “rachadinha” no caso Queiroz. “Estou no dia a dia aqui com o presidente e com a família Bolsonaro. Eu conheço tudo que tramita na família Bolsonaro”, afirmou Wassaf à rádio GaúchaZH.

Chegou a dizer, ainda, durante um programa da Globonews, em setembro de 2019, que não sabia do paradeiro de Queiroz. “Não sei. Não sou advogado dele”, disse. No entanto, ele não só sabia do paradeiro ― já que caseiros revelaram à polícia que Queiroz estaria há cerca de um ano na casa do advogado ―, como também sabia do interesse da polícia em encontrar o ex-policial. Em dezembro do ano passado, durante investigação de que Flávio Bolsonaro teria adquirido uma franquia da rede Kopenhagen na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, com alguma fração do dinheiro desviado pela “rachadinha”, a Justiça autorizou buscas e apreensões em endereços relacionados a Queiroz e sua esposa. Eles não foram encontrados. E como não havia mandado de prisão contra o ex-policial à época, tecnicamente, Queiroz não estava foragido, apenas em endereço desconhecido.

A Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB SP), que acompanhou a diligência realizada na madrugada a um imóvel onde seria o escritório de Wasseff em Atibaia, informou em comunicado que “eventual falta ética ou infrações, se existente” por parte do advogado proprietário do imóvel onde estava Queiroz será apreciada pelo Tribunal de Ética e Disciplina da entidade. No local da busca, até havia placas indicando que seria um escritório de advocacia, mas era apenas fachada. Outros detalhes também chamaram atenção na casa de Wasseff: em cima de uma lareira, havia um cartaz com a inscrição AI-5, decreto que institucionalizou a repressão política e o terror promovido pelo Estado durante a ditadura militar (1964-1985), e estátuas de Scarface, o famoso chefão da droga interpretado por Al Pacino no filme de Brian de Palma.

Wasseff também foi procurado pela reportagem, sem sucesso. Também tentamos falar com o novo advogado de Queiroz, Paulo Emílio Catta Pretta —que também era advogado de Adriano Nóbrega, apontado como chefe do braço armado da milícia Escritório do Crime, que foi morto em fevereiro na Bahia. Ele também não retornou nossa solicitação.

Essa não é a primeira vez que o nome de Wasseff ganha destaque em um escândalo midiático. Em 1992, uma reportagem do Jornal do Brasil afirmava que um pedido de prisão do advogado havia sido feito por sua suposta ligação com uma seita considerada satanista, o Lineamento Universal Superior (Lus), no episódio conhecido como as “bruxas de Guaratuba” ou “caso Evandro”. Wasseff, no entanto, nunca foi acusado. Fontes ligadas ao advogado dizem apenas que ele conhecia a líder da suposta seita, Valentina de Andrade, e que gostou de seu livro Deus, a grande farsa. Ela foi uma das acusadas do desaparecimento de dois meninos da região, mas foi absolvida por falta de provas.

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