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São Paulo anuncia reabertura do comércio e pesquisador compara relaxamento a “abatedouro”

Capital se aproxima dos 5.000 óbitos em decorrência da covid-19. Prefeitura garante que sistema de saúde não colapsará com reabertura de imobiliárias, lojas e shoppings a partir desta quarta

Durante a quarentena, poucos setores do comércio puderam permanecer abertos, como farmácias e mercados.
Durante a quarentena, poucos setores do comércio puderam permanecer abertos, como farmácias e mercados.Rovena Rosa/ Agência Brasil
Marina Rossi

Depois das concessionárias e escritórios, agora é a vez de imobiliárias e do comércio em geral retomarem suas atividades no município de São Paulo. O prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciou a reabertura de lojas de rua a partir de quarta-feira, e de todos os 57 shoppings da capital a partir de quinta-feira. O anúncio, feito às vésperas do Dia dos Namorados, uma das datas mais importantes para o comércio, ocorre em um momento em que a cidade passa dos 80.000 infectados pelo coronavírus e se aproxima dos 5.000 óbitos notificados em decorrência da doença —a cidade ainda investiga outras 4.588 mortes suspeitas de terem sido provocadas pela pandemia. Para o professor de medicina Domingos Alves, responsável pelo Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, o passo dado em direção ao relaxamento da quarentena acendeu um alerta vermelho. “Estamos mandando a população para o abatedouro”, afirmou.

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João Doria: “Se houver um aumento de contágios, nós vamos recuar”

A reabertura do comércio já era uma etapa da retomada prevista desde o final do mês passado, quando o Governador João Doria (PSDB) anunciou o Plano São Paulo de reabertura da economia. Na programação do Governo, o Estado fora subdividido em regiões, cujas etapas de retomada – cinco, no total – seriam seguidas em momentos diferentes, dependendo da evolução da pandemia. Naquele momento, um grupo de 66 pesquisadores reunidos em duas plataformas de pesquisa, a Covid-19 Brasil e a Ação Covid-19 emitiu uma nota técnica questionando as medidas anunciadas e os dados nas quais elas se embasavam. O documento destrincha o Plano São Paulo rebatendo as ações com argumentos científicos e alertava, já naquele momento, que “o esforço de três meses de isolamento pode retroceder em apenas uma semana, gerando caos no sistema de saúde, que já se encontra atualmente próximo do seu limite”.

O Governo, tanto estadual como municipal, sustenta por sua vez que as taxas de ocupação dos leitos de UTI estão caindo. Nesta terça-feira, a taxa de ocupação dos leitos de UTI eram de 66% no Estado e de 67% na capital —onde as autoridades afirmam que o sistema de atendimento já não corre risco de colapso como entre abril e maio. Além disso, o poder público avalia que o Estado está “se aproximando de um platô” tanto no número de novos casos, como no de óbitos, como afirmou na segunda-feira Carlos Carvalho, coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, durante entrevista coletiva. Mas os números não apontam para essa possível estabilização, já que a curva de novos casos no Estado ainda é uma crescente. “Seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde e as recomendações adotadas em todo o mundo, de jeito nenhum lugares que tenham parâmetros epidemiológicos crescendo poderiam fazer qualquer tipo de relaxamento”, afirma Domingos Alves, que faz parte do grupo Covid-19 Brasil.

O pesquisador acredita que em cerca de dez dias a partir da reabertura do comércio as taxas tanto de contaminação quanto de óbitos irão explodir, chegando a 10.000 óbitos até o final de junho e lotação máxima das UTIs na cidade. “Está se trocando uma pretensa recuperação econômica, que não vai haver, pela saúde da população”, afirma. “Vai abrir por que e para quê? Para receber mais gente em hospital e morrer mais gente?”, questiona. Ao EL PAÍS, Doria afirmou na semana passada que se houver aumento de contágios à medida em que o plano de retomada avance, “nós vamos recuar”.

Mas o recuo talvez não conte com a boa vontade mais dos setores. “Ficamos quase 90 dias para abrir e agora vamos sofrer ameaça de que vai ter que fechar?”, disse Nabil Sahyoun, presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), ao ser questionado se o setor estaria preparado para eventualmente fechar novamente suas portas. “Se os índices piorarem ele [o governador] tem que ir para periferia, para o transporte público, para o metrô, ele tem que ver que nas periferias o comércio nunca fechou”, diz. Desde o início da pandemia, é nas franjas da cidade onde estão a maior parte dos óbitos notificados em decorrência da covid-19. O mapa mais recente da cidade de São Paulo, divulgado nesta semana, mostra que enquanto a Brasilândia, na zona norte, e Sapopemba, na zona leste, lideram os números de mortes, com 247 e 245 registros respectivamente, nenhum bairro central ou de classe média ultrapassava os dois dígitos de notificações.

Cobrança

Segundo nota emitida na noite desta terça-feira pela Prefeitura, as entidades que representam os setores autorizados a reabrir se comprometerem com medidas de distanciamento social, higiene, sanitização de ambientes, orientação dos clientes e dos colaboradores, compromisso para testagem de colaboradores e medição de temperatura dos clientes, horários alternativos de funcionamento, redução do expediente, dentre outras medidas. Ainda segundo a nota, haverá um “esquema de apoio para colaboradores que não tenham quem cuide de seus dependentes incapazes no período em que estiverem fechadas as creches, escolas e abrigos – especialmente as mulheres, que são mães”, mas não há mais informações sobre esse esquema e nem como ele ocorrerá.

Além disso, os horários de funcionamento serão restritos neste primeiro momento: o comércio poderá abrir as portas entre 11 horas e 15 horas. As imobiliárias vão abrir 4 horas por dia, desde que o horário de funcionamento (abertura e fechamento) não ocorra durante o horário de pico. Por isso, o presidente da afirma que a reabertura ainda não é comemorada pelo setor. “Depois de 83 dias de fechamento, a nossa expectativa com o Dia dos Namorados é muito pé no chão, até porque o horário em que vamos funcionar é muito restrito”, diz. “Queremos que o prefeito e o governador se sensibilizem para permitir a abertura por ao menos oito horas por dia”. De acordo com ele, a previsão para os próximos meses é de 60% na queda do movimento do comércio.

A cidade está em quarentena desde o dia 24 de março, quando o governador João Doria decretou o isolamento em todo o Estado. Durante o período, houve uma reviravolta no discurso de Doria. Até o final do mês passado governador defendia a quarentena e chegou até a afirmar ter um protocolo pronto de lockdown caso a população não colaborasse com o isolamento social. Com esse discurso, Doria se colocava à imagem de antagonista do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), contrário às medidas de isolamento desde o início. Mas na semana seguinte à qual mencionou o lockdown, o governador paulista surpreendentemente anunciou o Plano São Paulo de retomada. Em seguida, o prefeito Covas prorrogou a quarentena na capital, que terminaria no dia 31 de maio, para 15 de junho, mas já prevendo a reabertura de alguns setores. Até o final desta semana, porém, mesmo em quarentena, ao menos cinco setores já estarão reabertos: escritórios, concessionárias, imobiliárias, lojas de rua e shoppings.

A mudança de discurso acontece ao mesmo tempo em que ocorrem ameaças de alguns setores. “Se a gente não tivesse abertura nesta semana, estávamos preparados para buscar na área jurídica o que fazer”, diz Nabil Sahyoun, da Alshop. “Saúde em primeiro lugar, mas economia também é saúde”, diz.

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