Reunião ministerial do Governo Bolsonaro

Guedes: “China é aquele cara que você sabe que tem que aguentar”

Ministro da Economia joga no colo de gigante asiático responsabilidade por reconstrução econômica global. Diz que Banco do Brasil é “caso pronto de privatização”

Ministro da Economia, Paulo Guedes, no dia 7 de maio em Brasília.
Ministro da Economia, Paulo Guedes, no dia 7 de maio em Brasília.ADRIANO MACHADO / Reuters

O ministro da Economia, Paulo Guedes, defendeu em reunião ministerial realizada em 22 de abril que a China “deveria financiar um Plano Marshall para ajudar todo mundo que foi atingido” pela pandemia do coronavírus, dando a entender que o país asiático era o responsável pela crise sanitária. O vídeo do encontro foi divulgado nesta sexta-feira, após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello retirar o sigilo das imagens, como parte de um inquérito ―o decano do STF preservou apenas trechos que poderiam ameaçar a soberania nacional, como menções a países como a própria China ou o Paraguai. Guedes também defendeu o comércio com o gigante asiático apesar de diferenças “ideológicas”. As menções à China foram feitas em um momento de tensão nas relações bilaterais entre os países: em mais de uma ocasião o Governo se viu imerso em incêndios diplomáticos com a China após os filhos do presidente ou ministros do Planalto postarem nas redes sociais comentários racistas contra o país asiático.

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Apesar das diferenças “geopolíticas” entre Brasil e China, Guedes defendeu a manutenção de boas relações com o parceiro comercial por razões econômicas. “As exportações tão seguindo. A China é aquele cara que cê sabe que cê tem que aguentar, porque pra vocês terem uma ideia, pra cada um dólar que o Brasil exporta pros Estados Unidos, exporta três pra China”, afirmou o ministro. “Cê sabe que geopoliticamente cê tá do lado de cá. Agora, cê sabe o seguinte, não deixa jogar fora aquilo ali não porque aquilo ali é comida nossa. Nós estamos exportando pra aqueles caras”.

Com o país mergulhado em uma grave crise econômica que já se desenhava antes da pandemia, Guedes faz uma avaliação positiva do cenário pré-coronavírus: “Nós estávamos indo numa direção norte, com as reformas estruturantes e, de repente, em três semanas e meia, nós fomos pro sul”. Ele também defendeu o resgate de grandes empresas que sofrem com a crise. “Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos pra salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas”, disse.

Guedes afirmou que a iniciativa do programa Pró-Brasil ― de recuperação da economia pós-pandemia, que pretende investir em infraestrutura ― era bem-vinda, mas que o Governo não podia se iludir. Ele pediu investimentos privados para a retomada da atividade, rechaçando um caminho parecido ao da política econômica dos Governos do PT, com investimento público. Na avaliação do ministro, se o Governo se afastar do “caminho desenvolvimentista” e conter o excesso dos gastos públicos, as chances de reeleição de Jair Bolsonaro seriam maiores. “Não pode ministro para querer ter um papel preponderante esse ano destruir a candidatura do presidente, que vai ser reeleito se nós seguirmos o plano das reformas estruturantes originais”, disse. Para Guedes, a economia estagnou através do excesso de gastos públicos. “Então achar agora que você pode se levantar pelo suspensório, como é que um Governo quebrado vai investir, vai fazer grandes investimentos públicos? Tarcísio [Freitas, ministro da Infraestrutura] sabe disso, conversamos sempre. Tarcísio sabe”, disse.

O ministro disse ainda ser “bonito” o discurso de redução de desigualdades regionais do ministro Rogério Marinho (do Desenvolvimento Regional) ―defensor dos investimentos públicos―, mas alertou que essa iniciativa levaria o Governo a trilhar um destino parecido ao da ex-presidenta Dilma Rousseff. “Se a gente quiser acabar igual a Dilma, a gente segue esse caminho”, completou.

“O Banco do Brasil é um caso pronto de privatização”

Durante o encontro ministerial, o chefe da pasta de Economia também defendeu a privatização do Banco do Brasil, mas Bolsonaro desconversou e deu a entender que só trataria da questão após as eleições de 2022. Segundo Guedes, o BB “é um caso pronto de privatização”. "E a gente não está dando esse passo. Senhor [Bolsonaro] já notou que o BNDES e a Caixa que são nossos, públicos, a gente faz o que a gente quer. O Banco do Brasil a gente não consegue fazer nada e tem um liberal lá. Então tem que vender essa porra logo”, disse ao presidente.

Mais adiante, o ministro passou a palavra ao presidente do banco, Rubem de Freitas Novaes, e pediu para que ele confessasse que também gostaria de privatizar o Banco do Brasil. Bolsonaro respondeu então: “Faz assim: só em vinte e três você confessa, agora não”. O presidente do banco expôs então seus argumentos para a privatização do banco, e Bolsonaro voltou a dizer: “Isso aí. .. isso aí só se discute, só se fala isso em vinte e três, tá?”, concluiu.

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