Pandemia de coronavírus

Eduardo Leite: “Ninguém vai pagar para ver quando se paga com vidas”

Governador do RS foi um dos que assinaram uma carta em posição antagônica ao presidente Bolsonaro na condução da crise do coronavírus

O Governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.
O Governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.Brazil Photo Press/Folhapress

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB-RS), corre contra o tempo para que seu Estado fique mais estruturado à medida que a epidemia de coronavírus chega. Com uma população de 11,3 milhões de habitantes, o Rio Grande do Sul conta, até o momento, com 226 infectados e duas mortes por Covid-19, bem longe de São Paulo, que soma 1.451 casos e 98 mortes —para uma população de mais de 45 milhões de paulistas—. Atento à evolução da pandemia no país e no mundo, Leite marcou rapidamente posição antagônica ao presidente Jair Bolsonaro assim que ele começou a pleitear o isolamento vertical, que restringiria o deslocamento apenas os idosos, deixando os mais jovens retomar o trabalho. “Tomaremos decisões com base em evidências, ouvindo epidemiologistas e a partir de estatísticas de como o vírus se propaga aqui”, afirma Leite, em entrevista por telefone.

O gaúcho de 35 anos assinou uma carta junto com outros 24 governadores pedindo ajuda ao governo federal, mas lembrando que continuarão seguindo a ciência antes de relaxar o isolamento que foi imposto em seus Estados. Leite está empenhado em iniciar testes com apoio de epidemiologistas da Universidade de Pelotas. Segundo o jornal Zero Hora, a experiência pode vir a ser replicada no país todo. Leite, que já foi cogitado como presidenciável para 2022, se preocupa também com a economia, mas o que ele quer é ganhar tempo para os momentos mais agudos que podem vir com a pandemia. Por isso, precisa de tempo para se planejar.

Pergunta. Qual tem sido o foco de atuação do Governo no Rio Grande do Sul nesta crise?

Resposta. O grande esforço neste momento de restrição é retardar o contágio para viabilizar a estrutura suficiente para atender os casos que se agravarem. Para a retaguarda hospitalar, de UTIs, Hoje, temos cerca de 1000 leitos no sistema público de saúde do Estado. Nosso plano de contingência projeta incremento de 22% de leitos de UTI. São 216 leitos do SUS. Mas parte desses equipamentos precisam ser instalados, leitos estruturados. Tem a entrega de fornecedores. Precisa de tempo para instalar essa estrutura. Por outro lado, estamos tendo dificuldade de encontrar no mercado os EPI [equipamentos de proteção individual para os profissionais de saúde]. Há 400.000 máscaras encaminhadas ao Estado. Começa a surgir perspectiva de receber também testes PCR [para detectar o coronavírus] para nossos profissionais de saúde primeiro, e de segurança pública na sequência. Até aqui 90% dos testes dão negativos. E a gente não pode deixar em quarentena pessoas nesses dois setores.

P. Existem ideias de soluções locais?

R. Estamos vendo testes rápidos, em parceria com a Universidade de Pelotas, que tem um corpo de epidemiologistas bastante reconhecido, para entender de que forma o vírus se esparrama. Estamos estudando a circulação de pessoas no Estado, fluxos, perfis, junto a empresas de tecnologia, dentro de um comitê de dados estatísticos, para entender e tomar as decisões, com base em evidências. Só então definiremos a extensão de distanciamento social, a partir de dados que nos apresentarão sobre a forma de disseminação do vírus no Estado.

P. Como o senhor recebeu a proposta do presidente Bolsonaro de flexibilizar o isolamento, afastando os idosos do convívio social e liberando os mais jovens?

R. Não há base técnica ou científica para esse isolamento vertical. Toda recomendação médica no mundo que tem sido implantada é de distanciamento social. É o que que os governadores vão manter. Até que tenhamos clareza de qual é a curva de contágio [do coronavírus], e como ela vai se comportar, e a estrutura efetivamente a se instalar, não faz sentido. Sem ventiladores e UTIs estruturadas, para garantir o funcionamento dessas unidades, para casos mais complexos, tudo seria irresponsabilidade. O presidente infelizmente tem adotado essa postura, mas há na sua própria equipe, no Ministério da Saúde e Economia, sinais que devem ser feitos outros movimentos. A postura do presidente da República não avançam no Congresso. Temos ali um aliado em relação ao pacto federativo. Essas não são decisões unilaterais.

P. Vocês sentiram efeito na sociedade diante do posicionamento público do presidente que mantém uma postura diferente da que os governadores assumiram?

R. A fala do presidente [em rede nacional, na terça, 24, quando falou em reabertura de escolas e comércio] mais confundiu que esclareceu. Poderia ter consequências mais graves se politicamente governadores e prefeitos permitissem que ele fizesse o que manifestou. Se alguém pagasse para ver. Ninguém vai pagar para ver quando se paga com vidas, a partir de tudo que se observa no mundo.

P. Como seu Estado vem lidando com o impacto econômico do isolamento?

R. É muito importante termos medidas compensatórias para este período. Já anunciamos que o Banrisul [banco estadual do Rio Grande do Sul] aumentaria limite no pagamento de dívidas contraídas por micro, pequenos e médias empresas para capital de giro e também para pessoas físicas. Dentro do serviço público, também [para evitar] cortes de energia elétrica [nos próximos três meses], e estamos na expectativa de que se confirmem auxílio federais para programas estaduais de apoio a empresários, com suspensão de impostos setoriais, com novos prazos, para sobreviver a este período. Temos um plano estadual, que depende do apoio federal. Agora, o Governo oferece aos Estados a suspensão de dívida [com a União]. A São Paulo, por exemplo, isso significa 1,2 bilhão de reais. Mas nós temos outra situação, porque deixamos de pagar dívida antes [da crise do coronavírus] por um processo de renegociação em curso [dívida suspensa desde 2017]. Precisamos de apoio para arcar com custos de máquina pública, inclusive saúde.

P. As empresas gaúchas estão pressionando?

R. O setor privado está muito apreensivo e precisa se planejar. Muitos estão fechados agora. Cada dia conta nos custos e receitas da empresa.

P. Há um debate sobre quais serviços podem ser considerados essenciais para que se restabeleça prioritariamente essa atividade econômica. Como está isso?

R. Estamos desenhando a cadeia. A partir de um serviço essencial, existe um prestador de serviço para aquele item essencial. Por exemplo, serviços mecânicos para logística de caminhões. São essenciais para a normalidade. Esta é a grande dificuldade que está sendo ajustada. Onde aperta, salta algo que não estava percebido normalmente. Conforme se ajusta, se percebe restrição, e se pensa nova definição.

P. A maioria da população está colaborando para as restrições a algo que nunca viveu.

R. Maiores restrições são importantes. Funcionam como um choque para que a sociedade perceba que algo grave esta acontecendo, que precisa ser ajustado. Com base em evidência, com muitas informações confiáveis.

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