Pandemia de coronavírus

Sem treinamento específico, testes rápidos para coronavírus comprados pelo Governo podem dar falso negativo

Para tentar evitar o desperdício de testes, entidades de medicina diagnóstica se unem para desenhar normas de testagem. Alerta vem da Espanha, que comprou kits da China que deram resultados falhos

Linha de produção de testes rápidos da Eco Diagnóstica.
Linha de produção de testes rápidos da Eco Diagnóstica.

Na quinta-feira, 26, um mês após o primeiro caso de coronavírus ter sido detectado no Brasil, os primeiros testes rápidos aprovados pelo Governo Federal foram despachados pela empresa mineira Eco Diagnóstica para diversas capitais do país. “Já deve chegar no sábado ou, no máximo, segunda ou terça nos laboratórios e hospitais”, afirma o CEO da empresa Vinicius Pereira. A companhia corre para atender a demanda por testes do gênero, que podem dar o resultado para a Covid-19 em um período de 10 a 30 minutos, aumentando a agilidade ao diagnóstico. Além da falta de testes, nos que existem disponíveis a demora pode chegar até sete horas, por conta de um gargalo na cadeia de testagem.

Desde a divulgação do primeiro caso da doença no país, há 30 dias, o Ministério da Saúde confirmou 3.417 casos e 92 mortes e reconhece que é necessário ampliar o número de testes para cumprir as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Para resolver o problema, o Governo federal anunciou nesta semana que ampliará o número de testes disponíveis no Brasil para 22,9 milhões, sendo oito milhões deles do tipo rápido. Se, por um lado, será possível conhecer melhor a situação epidêmica do país, por outro, a rapidez, necessária, com que tudo foi feito preocupa o setor de medicina diagnóstica, que teme que a falta de um protocolo padronizado para o uso destes testes resulte em alto número de falsos negativos, como já ocorre na Espanha, um dos países devastados pelo novo coronavírus. Por isso, organizações do setor decidiram se unir para criar uma regulação eles próprios.

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Tudo funciona em ritmo de urgência. Até mesmo a aprovação dos kits de teste rápido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi realizada em tempo recorde. “Fizemos em semanas o que costuma a levar de seis a 12 meses”, afirma Carlos Eduardo Gouvêa, presidente executivo da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL), em relação a publicação em Diário Oficial, no dia 18 de março, da autorização da agência para que oito testes sejam vendidos no Brasil. Hoje já são onze aprovados ― nove do tipo rápido e dois de biologia molecular.

O plano é atender prioritariamente profissionais de saúde e de segurança, além de verificar casos graves e óbitos. E, num segundo momento, criar um protocolo para testar os casos mais leves nos postos de saúde ou em unidades volantes, um tipo de drive thru, como os realizados na Coreia do Sul e Estados Unidos, onde as pessoas poderão fazer o teste e receber o resultado no dia seguinte por meio de um aplicativo de celular. A ideia é utilizar a ferramenta em cidades com mais de 500.000 habitantes para conter surtos, isolando mais rapidamente os pacientes infectados.

Mas em tempos de emergência, existem pontas soltas na estratégia do Governo, como a falta protocolos clínicos para a utilização dos testes. E sobram dúvidas. Afinal, os kits funcionam como os testes de farmácia para gravidez? Quem vai atestar a qualidade dos kits importados e dos fabricados nacionalmente? Em quais casos eles funcionam? Um negativo de teste rápido é garantia de que a pessoa não tem o vírus?

Um alerta veio da Espanha, onde os tão esperados testes rápidos acabaram ficando aquém da expectativa, conforme revelou reportagem do EL PAÍS. O objetivo do Governo espanhol é ampliar a cobertura de diagnóstico para uma camada mais ampla da população e descobrir qual é o tamanho real do contágio no país, que já superou a China em número de mortos (4.858), com 64.059 infecções confirmadas da Covid-19, atrás apenas da Itália (81.129 casos e 8.215 mortos). Mas o primeiro lote de 9.000 testes importados da China foi devolvido após testes identificarem que eles não entregavam os resultados prometidos na bula. Isso atrasou o plano de vigilância epidemiológica em massa, num momento em que qualquer erro representa mais perdas de vidas.

Fabricados pela empresa chinesa Bioeasy, com sede em Shenzhen, um dos polos tecnológicos do país asiático, os testes demonstraram uma sensibilidade de 30%, quando ela deveria ser superior a 80%, indicaram fontes consultadas pelo EL PAÍS. Isso significa que a cada 100 contagiados confirmados pelo exame convencional, apenas 30 tiveram, de fato, o positivo para o coronavírus confirmado no teste rápido. A comprovação das falhas com os kits recém-chegados foi feita por vários laboratórios de microbiologia de grandes hospitais. O Ministério da Saúde da Espanha se defendeu alegando que comprou os produtos por intermediação de um importador espanhol, enquanto a China afirma que a empresa não estava na “lista de fornecedores recomendados".

Especialistas brasileiros alertam que o mesmo pode acontecer no Brasil pela falta de uma política clara de avaliação dos testes e também de um protocolo de utilização dos novos diagnósticos —que precisam ser utilizados a partir de dias específicos da suspeita de contaminação, para que o resultado seja correto. Preocupados de que os testes rápidos não sejam utilizados de forma incorreta, entidades de saúde estão se unindo num esforço para criar orientações clínicas e de boas práticas do material, além de promover uma campanha de esclarecimento para o setor.

Com base na literatura científica disponível até o momento, a CDBL ―juntamente com a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC) e a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed)― está organizando um protocolo para cada um dos testes disponíveis no mercado. "A CDBL e a SBPC vão publicar uma lista de referência para ser utilizada no setor público e privado com a sensibilidade e especificidade de cada um dos testes. O grupo também conta com especialistas do setor público, que, por conta da urgência, participarão da medida apenas de maneira extraoficial. E já solicitou uma agenda com o Ministério da Saúde para apresentar a iniciativa.

Um dos problemas identificados pelas entidades e que pode comprometer a eficácia dos testes é cada laboratório fazer uma avaliação individual do material. “Queremos um protocolo em que um laboratório de referência será responsável por todas as avaliações”, afirma Gouvêa. As entidades pretendem atualizar semanalmente a tabela de referência dos kits disponíveis no país.

Essa ação faz parte de um projeto iniciado no Centro de Diagnóstico Internacional da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM), de Londres, que conta com o apoio da União Europeia e da Organização Mundial de Saúde (OMS), para avaliação de todos os produtos disponíveis no mercado, além do estabelecimento de bancos de amostras biológicas (biobanks) em centros de pesquisa parceiros, que será útil em futuras epidemias.

A iniciativa de autorregulação em meio à crise do coronavírus é inédita na área de diagnósticos, que tradicionalmente tem o pulso forte do Governo Federal por trás de suas práticas. A Anvisa informou por e-mail que produtos aprovados “são para uso profissional e os dados de desempenho e limitações dos testes estão previstos nas instruções de uso". Disse ainda que “problemas identificados em produtos ou serviços regulados” devem ser notificados pelo site. O Ministério da Saúde foi procurado para saber se há planos da publicação uma resolução com o protocolo de utilização destes kits, como existe, por exemplo para os testes de HIV. Mas a reportagem não obteve resposta. Em uma das entrevistas da semana, as autoridades da pasta reconheceram que será necessário treinar os profissionais para o uso correto dos testes.

A meta das organizações de saúde é agilizar as ações e tirar um pouco do ônus do Ministério da Saúde, que é o responsável por dar a palavra final nos protocolos, minimizando falhas que podem desperdiçar recursos. “Tenho recebido ligações de empresas pedindo orientações sobre a compra destes testes para seus funcionários. Eles podem até comprar, mas é preciso orientação de profissionais especializados. Porque não são autotestes, como os de gravidez”, afirma Gouvêa, da CDBL.

Como funcionam os testes rápidos

Alguns pontos são importantes serem esclarecidos sobre os testes rápidos: “Se derem positivo, não tem chance de estarmos falando de infecções cruzadas. É Covid-19”, afirma o representante da CDBL. Mas nem sempre um negativo dos testes rápidos é garantia de que a pessoa não tenha a doença. É preciso saber em que momento da infecção o teste foi utilizado.

Vinicius Pereira, CEO da Eco Diagnóstica, acha equivocado falar em taxa de sensibilidade neste momento, quando laboratórios e hospitais ainda precisam se familiarizar com os testes. “A maior parte das bulas trabalha apenas o conceito de sensibilidade, sem se preocupar com a orientação sobre o os termos de uso dos testes”, alerta o executivo. A empresa tem divulgado a seus clientes um algoritmo, baseado em pesquisas internacionais, que informa quando utilizar cada um deles.

Até então, o teste disponível no mercado nacional era o RT-PCR (reação em cadeia da polimerase em tempo real), que detecta o RNA do vírus em uma amostra de sangue ou secreção nasofaríngeo (coletado por uma espécie de cotonete pelo nariz ou pela boca). Mais de 32.500 destes testes já foram distribuídos na rede pública de saúde em todo o país. E o plano do Governo é utilizar cerca de 15 milhões destes testes para testar por amostragem, além de doentes internados, pessoas com sintomas leves.

Este método é eficiente para o diagnóstico feito logo no início da infecção, antes mesmo do início dos primeiros sintomas, mas tem um preço alto para o consumidor final, entre 500 e 1.000 reais. Além de um tempo de análise mais longo (6h) e necessidade de equipamentos e profissionais especializados. Em alguns locais do país, a falta de insumos e equipamentos, transformou a realização deste exame numa jornada de até sete dias, bem aquém do esperado, conforme apurou o EL PAÍS com profissionais do setor.

Os testes rápidos, por outro lado, funcionam apenas a partir de alguns dias depois da infecção e serão utilizados pela saúde pública na triagem em alguns pronto-socorros e em profissionais de segurança pública e da saúde. Há mais de um tipo deles. O primeiro, o teste de antígenos (Ag), colhido por amostras de secreção, deve ser usado para diagnóstico a partir de aproximadamente 5 dias da infecção. Por identificar a presença do antígeno do vírus ―uma partícula que desencadeia a produção de anticorpos contra a infecção―, este teste é adequado para a fase aguda da doença, após a infecção se instalar, quando os sintomas clínicos são mais nítidos. O resultado é rápido, entre 15 e 30 minutos. E a expectativa é que o preço para consumidor final, neste primeiro momento, varie entre 250 a 300 reais cada teste, conforme empresas consultadas. No entanto, este valor tende a cair com aumento da oferta e maior concorrência.

Já os testes, também rápidos, de IgG e IgM, baseados na sorologia (amostra de sangue total, soro e plasma) são úteis para verificar a presença de anticorpos, que o organismo produz quando entra em contato com um microrganismo invasor. Devem ser usados após 8 a 9 dias da infecção, que é o período necessário para o corpo começar reagir à infecção, e terão um preço entre 150 e 200 reais para o consumidor final. É o teste com resultado mais rápido: demora 10 a 15 minutos. Mas, assim como o teste de antígeno, ele não funciona no período de incubação da doença. Sua eficiência também é baixa no período mais crítico, quando as pessoas buscam o auxílio médico com os primeiros sintomas.

“Antes deste período, a defesa do corpo pode ainda não estar ativa. Caso seja realizado antes da hora, pode apresentar um resultado falso negativo”, afirma Mariana Santos, responsável técnica e assessora científica da Celer Biotecnologia, uma das empresas autorizadas pela Anvisa a importar e vender testes rápidos no Brasil. Ela afirma que apenas de 10 a 12 dias do início dos sintomas, é que o teste será mais efetivo. A Celer está importando o teste da chinesa Wondfo. O valor de sensibilidade informado na bula do produto é 86,43%. “Mas é preciso que isso seja validado no Brasil”, afirma Santos.

Pereira lembra que os testes rápidos dão negativo até mesmo em pacientes que tiveram positivo no RT-PCR (o exame mais demorado e complexo). “Isto acontece quando a concentração de vírus ou de anticorpos ainda é baixa no corpo da pessoa que está muito no início dos sintomas”, explica. A única limitação deste diagnóstico, pondera ele, é o medo: “Em situação pânico, as pessoas procuram a assistência a saúde logo no início dos sintomas. E se fizerem o teste rápido, pode dar falso negativo.”

Parceria-público privada

Do total de 22,9 milhões de testes que o Governo pretende distribuir, espera-se que empresas privadas comprem ou doem 14,9 milhões deles ― destes, 3 milhões estão sendo adquiridos por meio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Confirmados, no entanto, estão a aquisição de 1,3 milhão de testes e a doação pela Petrobras de 600.000 testes. Os outros 10 milhões “ainda estão em negociação e deverão ser adquiridos no mercado nacional e internacional”, segundo o Ministério da Saúde, que negocia um modelo de parceria-público privada para a aquisição dos kits.

Além disso, também foram doados pela mineradora Vale outros 5 milhões de testes de IgG e IgM, que verificam a resposta do sistema imunológico ao vírus. E mais 3 milhões de testes de sorologia serão entregues pela Fiocruz até o final de março. Bradesco, Itaú e Santander também anunciaram que vão importar e doar 5 milhões de testes rápidos.

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