Pandemia de coronavírus

A angústia dos viajantes brasileiros retidos no exterior por causa do coronavírus

Pegos de surpresa com o fechamento de fronteiras, turistas enfrentam dificuldades para retornar ao Brasil em meio à pandemia

Grupo de brasileiros retido na África do Sul pede ajuda a embaixada.
Grupo de brasileiros retido na África do Sul pede ajuda a embaixada.Reprodução

Mais de 200 brasileiros tentam desde o início da semana retornar de viagem da África do Sul. Presos no país que entrou em confinamento total por 21 dias a partir da quinta-feira, devido à pandemia de coronavírus, eles tiveram passagens canceladas em cima da hora e vivem a apreensão de não conseguir voltar ao Brasil enquanto as medidas de contenção à Covid-19 se agravam em território sul-africano, que já registrou mais de 700 casos da doença.

A psicóloga mineira Luciana Gaudio Martins é uma das passageiras que viu seu voo ser cancelado pouco antes do embarque, já no aeroporto de Joanesburgo, no último domingo. Antes de chegar ao país no dia 15 de março, ao lado do marido e de uma sobrinha, ela considerou desmarcar a viagem, preocupada com o avanço do coronavírus. Porém, como não havia restrições de entrada na África do Sul, decidiu manter a programação. No dia seguinte à sua chegada, o Governo local declarou estado de desastre nacional e fechou mais da metade de suas fronteiras terrestres. Apesar do alarme, o roteiro de Luciana transcorreu sem grandes problemas até o dia marcado para voltar ao Brasil.

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Depois do cancelamento do voo, ela foi acomodada pela Latam em um hotel próximo ao aeroporto, onde se encontram cerca de 80 brasileiros na mesma situação da psicóloga. No grupo há pessoas idosas e da faixa de risco para o coronavírus, que tomam medicação controlada e não conseguem comprar mais remédios no país. Por conta própria, Luciana foi até o aeroporto na terça-feira. Seu voo foi remarcado somente para o dia 31. No entanto, sem informações da companhia aérea, ela teme que a viagem seja novamente cancelada por causa do fechamento de fronteiras aéreas do país, imposto pelo lockdown desta quinta, cinco dias antes de sua previsão de voo. “Estamos vivendo uma apreensão diária, cada um chorando num canto do hotel”, diz a psicóloga. “Existe muito desencontro de informações por parte da Latam. A única coisa certa é que eles não têm certeza de nada.”

Passageiros realocados em outro voo, previsto para o dia 30, relatam ter recebido mensagem de cancelamento da companhia aérea. Outros do grupo ainda aguardam remarcação. Quem viajou por empresas sul-africanas, que fecharam inclusive seus guichês nos aeroportos, tenta reservar voos com escala em outros países, mas por preços que variam entre 15.000 e 35.000 reais. A Latam informa que “a crise global de saúde sem precedentes causada pelo coronavírus provocou restrições de acesso a diversos países e queda da demanda de passageiros”, o que resultou na redução de 90% de suas operações internacionais pelo mundo. Segundo a companhia, as regras de alteração de passagem foram flexibilizadas, e os passageiros impactados pelos cancelamentos receberam orientação para alterar suas viagens pelo site da empresa. “Só queremos uma garantia da Latam de que os próximos voos sairão do país”, afirma Luciana, que não vê a hora de reencontrar os dois filhos que ficaram no Brasil.

A embaixada brasileira na África do Sul está em contato com o grupo de turistas e autoridades sul-africanas, mas ainda não tem um plano para garantir o retorno. O Ministério das Relações Exteriores criou um grupo consular de crise a fim de auxiliar viajantes afetados pela pandemia. Nesta quarta-feira, o Itamaraty repatriou mais de 1.000 brasileiros que estavam retidos no Peru em conjunto com companhias aéreas e dois voos da FAB. “O Governo brasileiro segue acompanhando a situação dos viajantes brasileiros no exterior e está trabalhando para permitir a repatriação de todos”, diz o comunicado divulgado pelo Itamaraty.

Por pouco, a paisagista Katiane Pinheiro Huff Costa e o marido José Alberto Huff Costa não integraram a comitiva de resgate. Hospedado no centro histórico de Cusco, o casal de Porto Alegre precisou esperar quase uma semana para retornar ao país. “Entrei em desespero por causa da saudade das crianças”, conta Katiane, lembrando dos filhos de 5 e 7 anos que haviam ficado na capital gaúcha, sobre o momento em que soube do cancelamento da volta inicialmente marcada para o dia 16 de março, também operada pela Latam. No dia anterior, o Governo do Peru decretara estado de emergência por consequência do aumento de casos de Covid-19.

Com o caos instalado na cidade, os brasileiros tiveram de se virar para estender a hospedagem no hotel e comprar comida, já que haviam gastado quase todo o dinheiro em moeda peruana e a polícia não permitia a saída nem mesmo para ir a supermercados em cumprimento à ordem de confinamento. “Não tínhamos opções de voo nem retorno da Latam sobre nossa remarcação”, diz a paisagista. Eles só conseguiram embarcar de volta ao Brasil no último sábado, um dia antes de o Peru vetar voos de linha internacionais. “Fomos para o aeroporto nos carros do Exército, todos com máscara, e as ruas vazias. Parecia cena de filme.”

Katiane ainda não pode abraçar os filhos, que estão na casa da avó. Por iniciativa própria, ela e o marido decidiram se submeter a uma quarentena voluntária de duas semanas antes de reencontrá-los. Ela afirma não ter recebido nenhuma orientação das autoridades ao desembarcar no país, tampouco passaram por triagem em solo brasileiro. “Isso me assustou, assim como perceber que tudo continuava aberto e funcionando normalmente em Porto Alegre. Não adianta o país vizinho adotar medidas rígidas contra a pandemia e a gente deixar de alertar nossa população. Me sinto aliviada por voltar ao meu lar, mas, em relação ao coronavírus, estou menos tranquila no Brasil do que estava no Peru.”

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