O México e a encruzilhada dos 100 homicídios diários

Um ano depois da posse de López Obrador como presidente, a violência se estabiliza em um nível muito alto. Especialistas apontam conflitos dentro do aparato de segurança

Protesto contra a violência no México no aniversário de um ano de López Obrador no poder, neste domingo, 1, 2019.
Protesto contra a violência no México no aniversário de um ano de López Obrador no poder, neste domingo, 1, 2019.GUSTAVO GRAF (REUTERS)

O México chega a fim do ano com os pés atolados nos fatos violentos de outubro e novembro. Neste domingo, vários confrontos entre policiais e supostos delinquentes em Coahuila, no norte do país, deixaram 21 mortos, incluindo quatro policiais. É só o último episódio deste bimestre sombrio, que conta suas semanas por matanças, emboscadas e assassinatos múltiplos.

As chacinas de Sonora – nove mortos, incluindo seis crianças –, Guerrero – 15 supostos delinquentes mortos em um tiroteio com o Exército – e Michoacán – 13 policiais alvejados –, além do incessante gotejo de homicídios de mulheres e jovens, e os vergonhosos erros na fracassada operação de Culiacán contra o filho do traficante El Chapo Guzmán, ilustram as dificuldades do Governo de Andrés Manuel López Obrador para se impor em amplos territórios do país. O único dado positivo destes meses é que os assassinatos deixaram de crescer e se estabilizaram em torno de 2.900 ou 3.000 por mês. A dúvida agora é saber se essa é uma miragem ou, pelo contrário, um padrão sólido, em vias de se consolidar.

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Neste domingo, ao celebrar o primeiro ano de mandato, López Obrador festejou o que considera ser uma “mudança de paradigma” na política de segurança. O presidente afirmou que a violência que o país enfrenta começou em 2 de fevereiro de 2007, quando o presidente Felipe Calderón (2006-2012), num evento no Estado de Michoacán, ordenou que o Exército deixasse os quartéis para enfrentar o narcotráfico. “O alto comando militar dizia aos oficiais: ‘Acabem com eles, e nos encarregamos dos direitos humanos’. A melhor prova é que este sexênio [tempo que dura um mandato presidencial no México] ostenta a maior letalidade em combate desde a Revolução [Mexicana de 1910]”, disse o mandatário. E citou as cifras dos 1.800 confrontos registrados entre 2010 e 2011, que deixaram 231 sobreviventes feridos, mas cerca de 2.500 mortos. “Essa estratégia absurda e desequilibrada não se repetirá jamais”, anunciou o presidente no Zócalo, a principal praça da capital mexicana.

Antes de assumir a presidência, no final de 2018, López Obrador anunciou que seu plano para conter a violência consistia em atacar por um lado as causas – a corrupção, a falta de oportunidades e de emprego e a precariedade da educação e saúde – e, por outro, reformular a chamada guerra ao narcotráfico iniciada por Calderón. Com os programas sociais, disse López Obrador, enfrentaria as causas. Diante do fracasso dos Governos anteriores em matéria de segurança, acrescentou, seu plano era criar uma nova corporação, chamada Guarda Nacional.

O novo corpo substituiria a Polícia Federal, com o apoio das polícias militar e naval. A ideia foi criticada por organizações da sociedade civil que viam nesse projeto uma militarização encoberta da segurança pública. Apesar das críticas, López Obrador impôs seu critério, e o Congresso aprovou a criação da Guarda. Sem a corrupção intrínseca à Polícia Federal, a nova Guarda Nacional mobilizaria dezenas de milhares de agentes por todo o México, e a violência cairia – ao menos essa era a intenção. Os resultados seriam notados em seis meses, prometeu o presidente.

Um ano mais tarde, porém, a situação permanece igual ou pior. Os programas sociais de López Obrador funcionam há meses, assim como a Guarda Nacional, mas os resultados não vieram. E, o que é mais preocupante, o aparato de segurança demonstra uma falta de coordenação alarmante. As críticas ao secretário de Segurança, Alfonso Durazo, são duríssimas e incessantes nos últimos meses, sobretudo depois dos confrontos de Culiacán, quando um grupo de elite do Exército tentou prender Ovidio Guzmán, aparentemente sem avisar seus superiores. E depois também a partir da matança de três mulheres e seis crianças do clã mórmon Langford-LeBarón, em novembro, entre Sonora e Chihuahua.

Para o historiador Froylán Enciso, “o que Culiacán mostrou, e depois o caso dos LeBarón, é que Durazo é um mediador entre diferentes grupos de gestores da política de segurança, que têm diferentes níveis de resistência à mudança e diferentes posições políticas. Ou seja, não há um grupo unificado realizando a política de segurança, e sim uma coalizão de muitos personagens”.

O analista Alejandro Hope acrescenta que “Há um desequilíbrio entre as faculdades que a lei confere a Durazo e o poder que ele exerce. Porque, em termos reais, ele não manda praticamente nada. E, depois, acredito que ele não queira estar lá. O que aconteceu em Culiacán fala justamente da fragilidade relativa de Durazo”.

A sensação de frustração em matéria de segurança é possivelmente uma das mais dolorosas para o Governo. Antes de assumir a presidência, López Obrador organizou fóruns em todo o país para escutar as vítimas. Tomou por bandeira dois temas dramáticos: a investigação do ataque contra os 43 estudantes de Ayotzinapa e a crise dos desaparecidos. E nem sequer nestes dois assuntos conseguiu muito sucesso. A acadêmica Dawn Paley, autora de Capitalismo Antidrogas, seguiu muito de perto os passos da nova Comissão Nacional de Busca, órgão gestor dos esforços do Executivo para lutar contra o desaparecimento de pessoas. “Sinto que estamos experimentando uma continuidade em matéria de segurança em relação ao que se fazia nos anos anteriores. O discurso mudou, há uma tentativa de dizer ‘já não vamos fazer mais a mesma coisa’, mas os fatos mostram uma continuação. As taxas de homicídios são iguais ou mais altas; em matéria de desaparecimentos, não estão dando protagonismo às vítimas, não estão pondo os recursos que muitos pensavam que estariam lá.”

Doutor em história e especialista na evolução do narcotráfico no México, Enciso diz que “o primeiro ano de Governo deixa como saldo em termos gerais ótimas ideias, que estamos há décadas defendendo: focar mais as causas, abandonar a estratégia de decapitação das organizações criminais. Entretanto, há um problema duplo: ir às causas tem efeitos em longo prazo, não efeitos imediatos. E, por outro lado, houve problemas para a implementação dos programas sociais, que não funcionaram como estratégia preventiva de maneira clara”.

O que é o crime

Mais do que um problema temporário, a violência homicida representa o catálogo de males estruturais do México e as soluções erradas de vários Governos. Desde 2007, a taxa anual de homicídios aumentou de maneira constante, exceto no triênio 2012-2014, os últimos anos do Governo Calderón e os primeiros de seu sucessor, Enrique Peña Nieto. Hope, funcionário da agência de inteligência do Estado na época de Calderón, recorda que aquele período coincidiu com certa tranquilidade em Cidade Juárez e Monterrey. “O que me preocupa agora são nossos problemas para entender tudo isto, queremos aplicar lógicas nacionais a dinâmicas hiperlocais. Estabilizaram-se os homicídios em um nível muito alto, e por outro lado desconhecemos por que isso ocorre.”

Durante muito tempo, a violência no país foi explicada como uma guerra tríplice, por um lado entre grupos criminais, e por outro entre esses grupos e o Estado; como uma guerra de lados claros, sem matizes nem impurezas. A realidade mostrou, entretanto, que o crime organizado se infiltrou na polícia, nas Forças Armadas e na Justiça. Isso quando não foram agentes das próprias corporações que organizaram o mundo criminal. Segundo Paley, o crime organizado está superdimensionado. "Essa ideia de que o crime tem mais força que o Exército é uma fantasia. O Exército, a Marinha, a Polícia Federal receberam bilhões de dólares em armamento nos últimos anos. A coluna vertebral da violência vem das forças estatais, da Federal, o Exército e a Marinha. O que podemos dizer com certeza é que estes elementos criminosos continuam nas ruas – agora como Guarda Nacional –, e esse é o principal problema”.

Enciso acrescenta que há uma disparidade entre a representação do crime e a realidade. "O que vemos atualmente é que cada vez estamos mais conscientes de que os traficantes na realidade são jovens sem oportunidades ou falcões. Ou seja, que os que matam são nossos vizinhos, não são seres míticos, são filhos de pessoas, têm família, necessidades... No último ano assistimos a um processo de conscientização nesse sentido. O criminoso foi desmistificado”.

Conhecidos os matizes, o problema é que a violência continua aí. A aparente cadeia de apatias e deslealdades dentro do aparato de segurança não só evita decifrar com certeza o que ocorre no México como dificulta encontrar as soluções. A pressão é enorme, ainda mais depois do anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de incluir os “cartéis mexicanos” na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado. Durazo e outros funcionários do Governo mexicano rejeitaram a ideia, por considerá-la intervencionista. Mas é curioso que a ameaça de Trump aponte justamente para o problema que os especialistas consultados apontam: o que é o crime agora, e contra o que exatamente se está lutando. Se finalmente Trump se decidir, quais cartéis ele vai incluir na lista? E se os cartéis incluídos forem acusados ou investigados por trabalhar com alguma corporação policial ou militar, o que fará o Governo dos EUA?