América Latina

Turbulências políticas abalam perspectivas da economia chilena

Banco Central realiza uma intervenção histórica para atenuar a queda do peso, e a Fazenda não descarta uma recessão em curto prazo

Soldado chileno monta guarda num supermercado afetado por saques, em 22 de outubro.
Soldado chileno monta guarda num supermercado afetado por saques, em 22 de outubro.MARCELO HERNÁNDEZ (Getty)

Prejuízos ainda não quantificados devido aos quebra-quebras; forte redução na atividade comercial e no emprego; pequenas e médias empresas em apuros. E incerteza, muita incerteza. O Chile, durante décadas o aluno-prodígio da economia latino-americana, em menos de um mês e meio virou uma das grandes dores de cabeça para quem se dispõe a desenhar o horizonte econômico de uma região que não passa por seu melhor momento. Os protestos, iniciados em meados de outubro, e a ainda vacilante negociação política para tentar restabelecer a ordem pública e definir medidas que revertam a desigualdade –os 1% mais ricos detêm mais de 26% da riqueza– acrescentam um grau adicional de desânimo às constantes vitais da economia chilena.

Mais informações

Em um mês e meio desde o início dos protestos, o país sul-americano deixou de debater se o crescimento anual ficará em torno ou acima de 2,5% para discutir se o país entrará ou não em recessão em 2020. Seis semanas é pouco tempo para ter dados conclusivos –embora eles comecem a aparecer, a conta-gotas–, mas tudo indica uma clara desaceleração da atividade em todo o país. “A expectativa de que a incerteza política se mantenha alta durante mais um tempo cria ventos contrários para a economia”, confirmava a equipe de análise do Goldman Sachs, um dos grandes bancos de investimento com maior influência em Wall Street. Sua conclusão é clara: o navio da economia chilena já navega em águas não cartografadas.

Os avisos são assustadores numa das economias mais estáveis da região, que havia conquistado a preferência dos investidores em suas carteiras emergentes. O diagnóstico coincide com o do JPMorgan, outro gigante do investimento, que pressagia “um prolongado período de baixa atividade econômica empresarial”, abrangendo inclusive as eleições parlamentares e presidenciais de 2021. “Temos uma evidente mudança de cenário”, aponta Rodrigo Aravena, economista-chefe do Banco do Chile, uma entidade comercial, apontando um horizonte ainda mais sombrio do que o previsto por outros analistas privados. “Os problemas de transporte e a queda no comércio e turismo nos antecipam que o Chile provavelmente terá uma recessão em curto prazo. E quando falo de recessão falo de uma queda da atividade por dois trimestres consecutivos: não se trata só de uma redução na oferta por diminuição da demanda, e sim de uma redução na oferta por menor capacidade produtiva”. O horizonte recessivo não foi descartado pelo Governo: as dúvidas a esse respeito, aliás, se mantêm mais vivas que nunca desde a Grande Crise.

O impacto produtivo da explosão social é duplo, opina Óscar Landerretche, acadêmico da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile. O primeiro, segundo ele, é imediato: destruição de infraestrutura empresarial, em alguns casos em setores geradores de muitos empregos, como os supermercados; transtornos logísticos severos; limitações à quantidade de horas de trabalho diárias –“Há 40 dias trabalha-se a meia força”, ilustra–; e quedas na renda de quem trabalha em troca de comissões. O segundo impacto, prossegue ele, o de médio e longo prazo, é o que mais preocupa com sua capacidade de perturbar o crescimento, e é dominado uma palavra: incerteza. “Todo mundo está mais avesso ao risco e a investir no país. As pessoas querem ter seus recursos líquidos”, acrescenta Landerretche, ex-presidente da Codelco, empresa estatal do cobre.

O retrato dos danos sobre a infraestrutura ainda é parcial, mas já oferece uma cifra suficientemente alta para fazer os alarmes dispararem: pelo menos 4,5 bilhões de dólares, segundo a Câmara Chilena da Construção, só considerando os espaços públicos. Na capital, as vendas do varejo caíram mais de 10% nos dias mais complicados dos protestos, a confiança do consumidor desabou ao seu menor nível em três anos, e isso teve um efeito-cascata sobre a arrecadação. Com o comércio a meio gás, sobretudo na capital, as empresas –e muito especialmente as de menor tamanho e menos musculatura comercial e financeira– começam a passar “realmente mal”, nas palavras de Francisco Castañeda, professor da Universidade de Santiago. A confederação das micro, pequenas e média empresas (Conapyme) estima em 20.000 as empresas desse porte que poderiam ir à falência por causa da “queda substancial” no faturamento e produção. “A isso é preciso acrescentar dados como a queda da arrecadação do IVA”, observa Aravena. Diminuiu 25%.

A mordida também alcançou o emprego, a variável macroeconômica mais ligada ao dia a dia das ruas: o ministro da Fazenda, Ignacio Briones, calcula que 300.000 pessoas a mais ficarão desempregadas até o final do ano. “O mercado de trabalho continua deprimido, com indicadores conflitivos”, reconhece a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), alertando que suas previsões –crescimento de 2,2% neste ano, que já era quase metade da cifra do ano passado, e de 2,4% em 2020– estão necessariamente de quarentena, “sujeitas a considerável incerteza” por causa da eclosão social. E a balança comercial também começou a se ressentir, com uma queda de 35% nas exportações e importações, com uma parte não menor da atividade portuária praticamente paralisada neste país com 6.400 quilômetros de costa. A queda do peso é outro reflexo das dúvidas dos investidores, com sinais nada favoráveis para os interesses chilenos: desde o início dos protestos, a moeda local já perdeu 20% do seu valor.

O banco central chileno, logo depois de uma nova alta do dólar –que chegou a ser negociado na quinta-feira a 828 pesos, um novo recorde nominal–, anunciou uma histórica intervenção no mercado cambial, despejando até 20 bilhões de dólares para segurar a cotação da moeda. Desde em 18 de outubro, quando os protestos começaram, o dólar tinha subido 116 pesos (16,7%).

Um golpe na marca Chile

"Há margem para continuar crescendo, sim, mas tudo depende de que o processo de negociação acabe logo: cada dia que passa será mais um dia de prejuízo econômico. A incerteza é grande, inimaginável vendo de fora do país", completa Castañeda. Nesse médio e longo prazo, será crucial o processo de reforma constitucional, que começará em abril com um plebiscito em que os chilenos decidirão se devem ou não altera a Carta fundamental de 1980, escrita ainda sob a ditadura de Augusto Pinochet. Se, como tudo indica, ganhar o sim –as pesquisas dão 85% de apoio à reforma–, será escolhido paralelamente o mecanismo para isso: se uma assembleia 100% composta de cidadãos comuns, ou uma mista, integrada por 50% de cidadãos comuns e a outra metade de parlamentares. Depois haveria outra eleição, em outubro de 2020, para escolher os legisladores constituintes, quem terão entre nove meses e um ano para realizar seu trabalho.

Enquanto isso, os riscos são altos. "A marca Chile foi severamente afetada, algo que se reflete no valor dos ativos do nosso país", apontava recentemente Rodrigo Vergara, ex-presidente do banco central. O Walmart, um dos gigantes globais do varejo, apresentou em meados de novembro seis recursos contra o Estado chileno por 1.200 episódios de saques em uma centena de estabelecimentos. "Infelizmente, o Estado descumpriu seu dever de garantir a ordem pública e a segurança pública interna (...)", dizia a empresa norte-americana. Outros atores locais foram se somando a esse movimento: um grupo de quase 40 comerciantes de Concepción (sul) já moveu uma ação nos tribunais. Mais incerteza.

Com a angústia no macro, boas são as certezas. A já histórica dependência do cobre –sobre seus ombros descansam 60% das exportações e algo mais da uma décima parte do PIB chileno, algo eternamente citado por economistas de todas as tendências como um fator de risco diante de qualquer mudança na cotação internacional– se transforma em um poderoso freio de segurança se o trem da economia acabar por descarrilar totalmente, algo que praticamente nenhum analista tem em seu eixo de coordenadas. O mundo necessita desse metal, uado em inúmeros processos industriais, e o Chile responde por mais de um quarto de toda a oferta.

Mais margem fiscal que monetária

As turbulências levam ao pior, mas também ao melhor de uma economia. O Chile está muito mais solidamente posicionado que outros países da região, onde uma turbulência política similar teria provocado uma recessão quase imediata. E goza de uma margem de manobra fiscal – tanto para que o Governo possa adotar medidas sociais como para apostar em políticas contracíclicas caso o resfriado vire a gripe –notavelmente maior que no resto dos grandes países latino-americanos, com a dívida pública ligeiramente acima de 25% do PIB (embora tenha quintuplicado na última década), quase 15 pontos abaixo da média regional.

Na política monetária, a margem é um pouco menor: desde o começo do ano, o banco central reduziu os juros de 3% para 1,75%, um nível que –apesar da inflação controlada– não convida a pensar em muito mais cortes no preço do dinheiro.

"Durante uns 10 anos, o Estado deveria ter déficits fiscais importantes, apostando numa melhoria significativa das condições sociais, com um custo de uns cinco pontos do PIB", aponta Landerretche. Seria, diz, uma espécie de Plano Marshall adaptado às condições do Chile do século XXI. Mas, para evitar cair "no clássico ciclo latino-americano, onde os países criam gastos porque há muita desigualdade e depois os países quebram e vem uma onda neoliberal restauradora, como tantas vezes na Argentina", o processo deveria ser acompanhado de uma estratégia de desenvolvimento que relance o crescimento e incorpore toda a população a um crescimento do qual alguns poucos têm desfrutado. "Mas todo este plano", sentencia o economista da Universidade do Chile, "tem um pré-requisito: solucionar o tema da violência. Porque com desordem social nada vai funcionar".