Crise no Chile

Piñera pede perdão e anuncia pacote de medidas para enfrentar a crise chilena

Na sexta noite de protestos populares, presidente anuncia aumento das pensões e do salário mínimo e a redução do preço dos remédios e da eletricidade

O presidente Sebastián Piñera na Moeda. Em vídeo, o discurso de Piñeda (em espanhol). LUIS HIDALGO (AFP) \ EPV

Sebastián Piñera se dirigiu a seus compatriotas para anunciar uma ambiciosa agenda social, na quarta noite de toque de recolher em Santiago, aplicada também em outras nove regiões do país. Diversos setores – tanto governistas quanto da oposição – aguardavam um sinal potente, que acalmasse o profundo descontentamento das ruas. E de fato, com uma evidente mudança de tom com relação a suas falas dos dias anteriores, o mandatário declarou: "É verdade que os problemas se acumulavam há muitas décadas, e que os diferentes Governos não foram, nem fomos, capazes de reconhecer esta situação em toda a sua magnitude. Reconheço e peço perdão por esta falta de visão", afirmou Piñera, antes de detalhar sua proposta.

Em um pacote de medidas que terá um custo de 1,2 bilhão de dólares (4,9 bilhões de reais), ele anunciou uma renda mínima garantida de 350.000 pesos mensais (1.950 reais) para todos os trabalhadores de jornada completa. O Executivo se compromete a pagar a diferença quando o salário for inferior a essa cifra. Paralelamente, informou um aumento de 40% nos impostos para as rendas superiores a 8 milhões de pesos (45.000 reais), o que significará uma arrecadação tributária de 160 milhões de dólares adicionais, disse o presidente na noite desta terça-feira.

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Sobre o aumento do valor da luz – que tinha sido anunciado há algumas semanas –, o presidente comunicou a criação de um mecanismo de estabilização das tarifas elétricas, o que permitirá anular a recente alta de 9,2%. Os preços, portanto, ficarão no nível do primeiro semestre de 2019. Em matéria de saúde, entre outras medidas, anunciou a ampliação do convênio entre o sistema público e as farmácias, com o propósito de reduzir o preço dos medicamentos, que no Chile são notavelmente caros. Esta medida beneficiará 12 milhões de pessoas.

Em meio a uma eclosão social que se explica, entre outras razões, pela distância entre a população e seus dirigentes, Piñera tomará medidas que afetam também a classe política: a redução das verbas parlamentares e dos altos salários da administração pública, junto com uma diminuição no número de congressistas e a limitação das reeleições.

Piñera anunciou que a partir desta quarta voltarão a funcionar as linhas 3 e 6 do metrô de Santiago, que haviam sido parcialmente destruídas por manifestantes nos dias anteriores, e também se referiu à manutenção do estado de emergência e do toque de recolher: "Sei que alguns pedem seu término. Todos queremos assim. Mas, como presidente, é meu dever fazê-lo quando tiver segurança de que a ordem pública, a segurança pública e os bens, tanto públicos como privados, estejam devidamente protegidos".

As medidas anunciadas por Piñera tentam descomprimir a atual crise social e política no Chile, considerada a mais grave desde o restabelecimento da democracia, em 1990.