CHILE

Piñera suspende o aumento do preço do metro, e Exército decreta toque de recolher em Santiago

Capital amanheceu no sábado com regiões destruídas e com a presença dos militares após atos contra a nova tarifa de transporte

Bombeiros combatem incêndio em ônibus que foram atacados durante os protestos em Santiago.
Bombeiros combatem incêndio em ônibus que foram atacados durante os protestos em Santiago.MARTIN BERNETTI (AFP)

Após um dia caótico, com 41 estações de metrô destruídas, 308 presos, 156 policiais e pelo menos uma dúzia de civis feridos, Santiago amanheceu no sábado destruída em diversas áreas e sob o controle dos militares. O Governo de Sebastián Piñera (2018-2022) utilizou o Exército para tomar o controle da cidade, após a violenta sexta-feira, com protestos contra o aumento do preço do metrô, que ficaram maiores com o passar do tempo. Incêndios de ônibus, carros, bancos, sedes de multinacionais como a Enel e saques de lojas e supermercados em várias regiões da capital. As autoridades do Executivo se mostraram aturdidas e a classe política, em geral, sem resposta a um fenômeno de descontentamento profundo que vai além do aumento da passagem de metrô. Depois de ver que a situação não se apaziguara, Piñera decidiu suspender o aumento das tarifas, enquanto o Exército determinou toque de recolher, entre as 22h e 7h.

“Todos os cidadãos têm o direito de se manifestar pacificamente. Entendo que eles têm boas razões para fazê-lo, mas ninguém tem o direito de agir com a brutal violência criminal daqueles que destruíram, queimaram ou danificaram mais de 78 estações do metrô de Santiago ”, disse Piñera na tarde de sábado na sede do Governo. Juntamente com o anúncio da suspensão da alta do metrô —que no início do mês foi de 800 para 830 pesos no horário de pico ( de 4,65 a 4,83 reais)— relatou o estabelecimento de um ciclo de diálogos "amplo e transversal" para encontrar respostas para "essas demandas sentidas como o custo de vida" da cidadania. "Ouvi com humildade e muita atenção a voz do povo e não terei medo de continuar fazendo isso, porque é assim que as democracias são construídas", acrescentou Piñera, que permaneceu na sede do Governo durante todo o dia.

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Segundo o chefe da Defesa Nacional, general Javier Iturriaga, o toque de recolher "significa que as pessoas devem estar em suas casas e os que precisam sair devem pedir para que sejam conduzidos com segurança". A medida não era aplicada no Chile desde 1987, os últimos anos do regime militar. À meia-noite, ela foi estendida a Valparaíso, enquanto a cidade de Concepción, no sul do país, também está em estado de emergência, o que restringe a liberdade de movimento e reunião aos cidadãos.

Com o decreto de Estado de emergência promulgado na última sexta-feira, que restringe à população a liberdade de circulação e reunião por 15 dias, o Exército tomou no sábado o controle de boa parte da Região Metropolitana de Santiago, sob as ordens do presidente. Essa medida não era utilizada no Chile desde a ditadura, com exceção de desastres naturais, como o terremoto de 2010, quando a socialista Michelle Bachelet a utilizou para controlar a desordem pública no sul do país. Agora, não é evidente se os militares e carabineiros conseguirão controlar as manifestações e a violência. No sábado, se repetiram os protestos e confrontos em dois pontos importantes da cidade – a praça Baquedano e a praça de Maipú – e as manifestações de descontentamento através de panelaços e buzinas de carros se espalharam a outras regiões do país.

As entradas maciças de usuários saltando as catracas do metrô sem pagar começaram na semana passada, em paralelo ao aumento de preço da passagem, mas as mobilizações ficaram mais fortes entre quinta e sexta-feira. Uma das principais críticas ao Governo aponta sua pouca capacidade de antecipação ao fenômeno, junto com uma reposta focada, principalmente, no policial. Na madrugada de sexta para sábado, quando Piñera anunciou o estado de Emergência de La Moneda, foi aberto um “diálogo transversal” para dar respostas ao aumento do preço da capital, que transporta 2,8 milhões de pessoas diariamente. No final da tarde de sábado, Piñera anunciou que suspenderia o aumento no valor da passagem.

Segundo o chefe da Defesa Nacional, general Javier Iturriaga, o toque de recolher "significa que as pessoas devem estar em suas casas e os que precisam sair devem pedir". O dispositivo não era aplicado no Chile desde 1987, os últimos anos do regime militar. À meia-noite, a medida foi estendida a Valparaíso, enquanto a cidade de Concepción, no sul do país, está em estado de emergência, medida que restringe a liberdade de movimento e reunião aos cidadãos.

A rede de metrô, um dos melhores símbolos do país por sua ordem e bom funcionamento, fechou completamente durante o final de semana e não se sabe se abrirá na segunda-feira. O recente aumento da passagem foi o que causou os protestos, mas ele é o vigésimo dos últimos 12 anos. Quando o sistema de transporte público Transantiago foi inaugurado em 2007 —atualmente rebatizado como Rede Metropolitana de mobilidade— o preço era de 420 pesos (2,45 reais). Ainda que subvencionado em quase metade de seu valor, é um dos mais altos da região, acima dos de São Paulo, Buenos Aires e Cidade do México. Os salários não subiram no mesmo ritmo do preço do transporte e da moradia, que em Santiago aumentou seu valor em 150% na última década.

O Chile ainda não resolveu alguns de seus problemas estruturais. Existe consenso em que o sistema de aposentadorias precisa de uma transformação profunda, porque são baixíssimas em relação ao nível de vida das pessoas em sua época ativa. Nenhum Governo em 30 anos foi capaz de levantar a educação pública, destruída na ditadura. Os medicamentos são significativamente caros, em relação não só à região, mas até mesmo em comparação à Europa. 70% da população ganha menos de 770 dólares (3.190 reais) mensais e 11 milhões de chilenos têm dívidas, de acordo com cálculos da Fundação Sol. Os recentes escândalos de corrupção entre os Carabineiros e o Exército se somam a uma longa lista de instituições desprestigiadas frente à sociedade, como o Ministério Público, o Congresso, os partidos políticos e a Igreja Católica, na qual o papa Francisco precisou fazer uma limpeza histórica pelos escândalos de abusos contra menores.

O descontentamento da sociedade chilena ainda não foi analisado com a profundidade necessária pelas autoridades políticas e o mundo intelectual. Parece diferente ao de 2011, quando os estudantes saíram às ruas pedindo educação gratuita e de qualidade, no primeiro Governo de Piñera (2010-2014). Há oito anos, era um movimento organizado que tinha uma clara agenda de reivindicações, liderado pelos dirigentes estudantis que atualmente são deputados. Dessa vez, por outro lado, é uma explosão difusa e múltipla – como diz o sociólogo chileno Eugenio Tironi –, que tenta transgredir as normas que parecem naturalizadas e que fazem funcionar uma sociedade de mercado como a chilena. Não seria uma interpelação ao sistema, ao modelo econômico e aos clássicos padrões de direita e esquerda, e sim uma indignação profunda aos grupos privilegiados.

O que aconteceu nesse final de semana representa um desafio político aos dirigentes de todos os setores de um país como o Chile, que se orgulha de sua estabilidade, de seu crescimento e da força de suas instituições desde a volta à democracia em 1990. E um desafio em matéria de segurança. O presidente Piñera, que há duas semanas indicava que o Chile era uma espécie de “oásis” em uma América Latina convulsionada, em breve será o anfitrião de duas importantes reuniões mundiais: o Foro de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), em novembro, e a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP25), em dezembro.