Chile

Chile decreta estado de emergência pelos protestos contra o aumento do metrô

Convocados pela ‘hashtag’ #EvasionMasiva, centenas de manifestantes saltam as catracas do transporte público há duas semanas e, nesta sexta, colocaram fogo em estações

Protesto pelo aumento do metro em Santiago do Chile.
Protesto pelo aumento do metro em Santiago do Chile.JAVIER TORRES (AFP)

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O Governo de Sebastián Piñera decretou estado de emergência no Chile e deu o controle da capital do país aos militares, na tentativa de apaziguar o caos que tomou conta da cidade após a escalada violenta de protestos contra o aumento na tarifa de transporte. A liberdade de reunião e locomoção será restrita e o presidente designará um chefe da Defesa Nacional do Exército, que assumirá as províncias de Santiago e Chacabuco, na Região Metropolitana. A decisão extrema ocorreu após um dia de violência, nesta sexta-feira, que escalonou com o passar das horas e parecia estar fora de controle. "O Governo convocará um diálogo transversal para que os mais necessitados tenham a ajuda de que precisam", disse Piñera na manhã deste sábado, da sede do Governo.

A rede de metrô de Santiago, um dos melhores símbolos do país por sua ordem e bom funcionamento, tornou-se há duas semanas cenário de inéditos protestos pelo aumento de preço da passagem, ocorrido no início do mês. Logo após o reajuste, muitos usuários começaram a entrar sem pagar e a mobilização foi se intensificado, junto com os atos de violência que deixaram prejuízos avaliados em pelo menos 700.000 dólares. Nesta sexta-feira a capital chilena viveu um colapso poucas vezes visto: as linhas 1, 2 e 6 do metrô fecharam seus acessos por causa dos protestos, razão pela qual milhares de trabalhadores precisam caminhar pelas principais avenidas em busca de transporte público para retornar a seus lares. Os pontos de ônibus, lotados, não deram conta, e não se encontravam táxis vazios. Os carros geraram congestionamentos nas principais ruas. Ações de vandalismo foram registradas pela cidade, como incêndios em estações de metrô, ônibus, monumentos públicos, bancos, supermercados e universidades. A sede da ENEL elétrica, alvo de críticas por conta do valor da tarifa de energia, também foi incendiada.

Desde a inauguração do sistema de transporte público Transantiago (atual Rede Metropolitana de Mobilidade), em 2007, o preço do bilhete subiu 20 vezes, mas a última, de 800 para 830 pesos (4,63 para 4,80 reais), desatou os protestos. Na quinta-feira, 40 pessoas foram detidas em vários pontos do metrô — que diariamente transporta 2,6 milhões de usuários —, cuja infraestrutura foi destruída em algumas estações, como registraram vídeos divulgados através das redes sociais. Não se sabe a quantidade de detidos nesta jornada nem os prejuízos causados pelas mobilizações nas estações de praticamente toda a cidade.

Essas manifestações representam um desafio político para o Governo chileno, que reagiu com medidas policiais pouco eficazes. É o que mostra um vídeo em que carabineiros são cercados por dezenas de jovens numa entrada do metrô.

Os protestos pela alta de preços no metrô refletem um descontentamento profundo que— diferentemente do de 2011, protagonizado pelos estudantes com uma clara agenda de mudanças— é difícil de analisar. Conforme apontam sociólogos como Eugenio Tironi, observam-se elementos similares aos protestos dos coletes amarelos na França: cidadãos de classe média golpeados pelo custo da vida e dificuldades para chegar ao fim do mês, que se dispõem a transgredir maciçamente a norma e conseguem paralisar o sistema policial e legal. A analista política e acadêmica da Universidade de Santiago Lucía Dammert diz que a população menor de 25 anos se rebela frente às injustiças porque está cansada de ver seus pais e avós trabalhando para sobreviver.

Pelo menos duas pessoas foram detidas nesta sexta-feira. As convocações de adesão aos protestos — evasões maciças, como são chamados no Chile — circulam através das redes sociais. Indicam o dia, hora e estação em que os manifestantes devem se reunir.

De acordo com as imagens, os protestos são protagonizados sobretudo por estudantes e jovens. Até agora não está totalmente claro se têm ou não o apoio do resto da população. Um vídeo que circulou nas redes sociais mostra uma mulher idosa, de muletas, enfrentando fisicamente os manifestantes na rede subterrânea em meio aos protestos.

Entrevistada por um canal de televisão, outra idosa dava seu apoio ao protesto: “Não estou de acordo com que se diga que isto é vandalismo, isto não é vandalismo. As pessoas estão protestando, porque já não aguentamos mais os roubos. Roubam a gente nas AFPs (o sistema de pensões), na água, na luz, e ainda por cima com as passagens de transporte".

Repercussões políticas

Não houve uma resposta única da oposição. Para o deputado democrata-cristão Matías Walker, “a desobediência civil é válida frente às ditaduras, não na democracia, onde existe direito à manifestação pacífica, também contra aumentos do transporte”. Para o parlamentar, não se justifica de nenhuma forma “a destruição de bens que são de todos, e que algumas regiões bem gostariam de ter”. Uma das líderes da Frente Ampla de oposição, a ex-candidata presidencial Beatriz Sánchez, interpelou o Governo através das redes sociais: “Sério que a discussão para as autoridades é se vão pôr três ou cinco cadeados na porta do metrô ou se mandarão 10 ou 15 policiais? Não veem o desespero de uma família que ganha salário mínimo de 301.000 pesos (1.740 reais) e que gasta 33.500 pesos (194 reais) por mês para ir ao trabalho? #EvasionMasiva”.

Um grupo de especialistas determinou a alta da passagem do metrô, e as autoridades a justificaram pela guerra comercial no mundo e o aumento do dólar frente ao peso, o aumento do preço da energia e a potência elétrica e a trajetória do índice de preços ao consumidor. O preço do metrô de Santiago é um dos maiores da América Latina. Está acima do de São Paulo, Buenos Aires e Cidade do México. Em horário de pico chega agora aos 830 pesos chilenos, o que equivale a 4,80 reais.