Comandante da Marinha diz que Brasil precisa de dois bilhões de reais para evitar novos desastres no mar

Almirante Ilques Barbosa Júnior afirma que vai até “falar com o diabo” para encontrar os responsáveis pelo derramamento de óleo pela costa do Nordeste. Crise fiscal é entrave para sistema de monitoramento

O almirante Ilques Barbosa Junior, em janeiro.
O almirante Ilques Barbosa Junior, em janeiro.Marcos Correa (Presidência da República)

O comandante da Marinha do Brasil, o almirante Ilques Barbosa Junior, diz que uma das lições tiradas da crise envolvendo o derramamento de óleo pela costa brasileira é que o país precisa investir em um sistema de monitoramento de seu litoral semelhante ao que ocorre no espaço aéreo. O custo do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, nome dado pelos militares à costa, seria de aproximadamente 2 bilhões de reais. Em um período em que o país passa por contingenciamento de verbas públicas e redução de gastos na área ambiental, contudo, não há previsão para que esse projeto saia da fase de planejamento.

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“Existem falhas que foram apontadas no acompanhamento de navios mercantes. Esse monitoramento tem de caminhar como o que é feito com os aviões. Os aviões comerciais hoje são acompanhados. Os navios, não”, afirmou o chefe da força em entrevista nesta semana a um grupo de cinco correspondentes de meios estrangeiros baseados em Brasília.

O almirante buscará apoio no Parlamento para que os próximos orçamentos destinem uma verba para esse sistema a ser criado. Ele se prepara para depor na CPI do Óleo, a comissão parlamentar de inquérito que será instalada na Câmara para investigar as causas e tentar apontar culpados pela tragédia ambiental que atingiu, até o momento, praias dos nove Estados do Nordeste e do Espírito Santo. Dados do Governo apontam que cerca de 6.000 toneladas de óleo já foram recolhidas do litoral.

Além de tentar buscar mais recursos, o comandante disse que um representante da marinha brasileira planejava fazer uma declaração na convenção marítima internacional, em Londres, para solicitar alterações nos tratados sobre navegação mercante pelos oceanos a fim de cobrar um melhor monitoramento das embarcações assim como de punir atos criminosos. “Esse assunto pode acontecer com qualquer país. Essa é uma nova arma. Lembra dos aviões que se chocaram com as torres gêmeas? É uma agressão dessa magnitude.”

No mundo há cerca de 80.000 navios mercantes em atividade. A expectativa, conforme a Marinha brasileira, é que até 2040 essa frota chegue aos 272.000 navios. “Se nós não tivermos o controle positivo do deslocamento desses navios mercantes, a probabilidade de acontecer ameaças desse tipo ou até envolvimento terrorista é muito alto, elevadíssima”, disse Ilques.

Até o momento, a Marinha, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), a Polícia Federal e a Agência Nacional de Petróleo, investigam quatro possibilidades para essa crise ambiental: derramamento acidental ou intencional durante a transferência de óleo entre navios petroleiros, afundamento de navios antigos ou recentes, o vazamento de poços marítimos e a derrubada de óleo por meio de tambores.

O principal suspeito apontado pela Polícia Federal e pela Marinha foi o navio Bouboulina, da empresa grega Delta Tankers —ela nega qualquer irregularidade em sua embarcação. Esse navio teria navegado entre a América do Sul e a África do Sul com o transponder, um equipamento de localização, desligado.

O vazamento, conforme as apurações, teria ocorrido no final de julho. E as primeiras manchas nas praias nordestinas só foram notadas no fim de agosto e, devido a uma alta da maré, há a possibilidade de novas manchas serem avistadas a partir do dia 26 de novembro, de acordo com o comandante da Marinha.

No domingo passado, o Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites da Universidade Federal de Alagoas divulgou imagens que apontam que outra embarcação pode ter sido a responsável pelo derramamento do óleo. As autoridades não descartam responsabilizar outro navio. “A disposição da Marinha é a seguinte: nós vamos até o final dos tempos para encontrar o responsável. Até falar com o diabo eu vou falar para descobrir. Custe o que custar, o tempo que for”, disse o comandante.