Ditadores

Quando os tiranos do século XX usavam fraldas

Hitler, Stálin, Pol Pot, Mao e Franco chegaram à idade adulta com personalidades afetadas por frustrações, traumas e danos psicológicos infantis

À esquerda, Adolf Hitler em 1889. À direita, retratado em uma data indeterminada dos anos trinta do século passado.
À esquerda, Adolf Hitler em 1889. À direita, retratado em uma data indeterminada dos anos trinta do século passado.GEDISA / GETTY

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Os tiranos do século XX demonstraram não conhecer o significado da palavra compaixão, mas dominavam à perfeição os sinônimos de horror e os puseram em prática com firmeza sobre os povos que subjugaram. Quando se transformaram em assassinos brutais? Sua infância teve algo a ver com essa transformação? Para a psicologia, a infância é um momento-chave na vida das pessoas. Nessa fase vital estão ocultos os códigos que explicam condutas posteriores. Esse foi o campo de pesquisa de Véronique Chalmet, que entrou no buraco negro no qual foi incubado o horror do século passado: a infância e adolescência dos opressores mais sanguinários. A escritora francesa lançou em outubro La Infancia de los Dictadores (“a infância dos ditadores”), versão em espanhol de seu livro Enfance de Dictateurs, uma síntese em que aborda os primeiros anos desses carrascos que em algum momento perderam a inocência infantil, embora seja difícil imaginar essa inocência neles.

“Ninguém nasce sendo um assassino. Esses ditadores cresceram em um ambiente coercitivo e quando alcançaram o poder, liberaram todo o ódio acumulado”, assinala Chalmet, colaboradora habitual de revistas de divulgação científica como Ça m’intéresse, em resposta a perguntas do EL PAÍS enviadas por correio eletrônico. “Como disse Nelson Mandela, as pessoas aprendem a odiar”, acrescenta. A escritora francesa, especialista em psicologia e criminologia, acredita que “muitas frustrações, traumas e violência física e psicológica provocaram uma perda total de valores éticos” na infância desses déspotas. Já adultos, “eles não se preocupavam com o que era certo ou errado −embora soubessem perfeitamente a diferença−, e essa é uma característica dos criminosos psicopatas”, explica.

Chalmet teve oportunidade de estudar sociopatas e psicopatas recentemente em uma instituição de saúde para doentes mentais perigosos, e vê muitas semelhanças no comportamento destes e no dos tiranos. “De fato, estamos lidando com o mesmo tipo de personalidade. Essas crianças maltratadas se tornaram adultos insensíveis incapazes de empatizar”, assinala. A principal diferença entre os sociopatas anônimos e os tiranos estaria, segundo a autora, na conquista do poder: “Seduziram o povo para obter o comando e depois o mantiveram aterrorizando as pessoas. Hitler, Pol Pot e Mussolini eram carismáticos e perversos manipuladores”.

O livro de Chalmet mostra algumas circunstâncias que esses personagens malvados compartilharam. Curiosamente, esses ditadores tinham “uma necessidade desesperada de modelos parentais protetores”, descreve a autora, “mas se viram presos em famílias disfuncionais. Para a maioria deles, o pai estava ausente ou era cruel. Já a mãe muitas vezes escondia ou reprimia seus sentimentos, embora isso significasse deixar o filho em um estado de confusão, medo ou solidão”.

A seguir, certas características da infância de alguns desses personagens sinistros:

Stálin (1878-1953). No período em que comandou a União Soviética, 20 milhões de pessoas perderam a vida. Josef Vissarionovich era tão frágil quando nasceu que o apelidaram de Sosso (“o delicado”). Além disso, tinha uma anomalia no pé esquerdo. Logo começou a sofrer a fúria alcoólica que seu pai, embriagado todos os dias, descarregava na forma de surras contra ele e sua mãe. Aos 10 anos, foi para a escola paroquial de Gori, seu povoado na Geórgia, onde se destacou como menino prodígio do coro. Sofreu dois atropelamentos de carruagem, que lhe deixaram sequelas físicas. Em 1894, foi admitido no seminário de Tbilisi com a ilusão materna de que se tornasse padre. Lá, o adolescente de 16 anos descobriu “uma vida austera, marcada pela oração, pelos castigos corporais e pelo estudo” com os monges, e quando voltava para seu quarto, encontrava “as marcas dos confiscos feitos em sua ausência […], um espírito policial e um sistema coercitivo bem azeitado”, descreve Chalmet.

Franco (1892-1975). Desencadeou uma guerra civil na Espanha que causou mais de meio milhão de mortos e dezenas de milhares de fuzilados nos anos posteriores. Filho de um intendente-geral da Marinha de Ferrol (em La Coruña), ao nascer era um bebê muito franzino e, durante seu crescimento, continuou tão magro que sua mãe, Pilar, chamava-o de Cerillita (“palitinho de fósforo”). Na infância, evitava falar em público porque tinha vergonha de sua voz fina. Sua devotada mãe incutiu nele o valor sagrado da família, um conceito que mais tarde ele quis extrapolar totalitariamente para a Espanha. Seu pai tinha casos extraconjugais continuamente e acabou reconhecendo um menino filipino três anos mais velho que Franco. Finalmente, em 1907, o pai abandonou a esposa e os filhos e foi para Madri. O adolescente complexado nunca o perdoou e não voltou a vê-lo.

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Mao Tsé-tung (1893-1976). Estabeleceu a República Popular da China e sua ditadura provocou 70 milhões de mortes. Seu pai era um comerciante “duro e ambicioso, sem nenhum escrúpulo, cuja inteligência se limitava à arte da especulação”, relata Chalmet, “mas glorificava a posse do estritamente necessário e valorizava o trabalho físico”. Embora Mao manifestasse grande desprezo por seu pai, se analisamos as consequências de suas decisões para a população chinesa, vemos que ele aplicou à risca as ideias paternas. Desde pequeno se destacou seu gosto pela leitura. Mas, à medida que crescia, aumentava sua fobia pela água. Segundo a autora, ele passou 25 anos sem tomar banho. Mao, que sempre demonstrou um grande amor por sua mãe, sentia desde a infância muito ódio por seu pai −sobre quem, durante uma sessão de tortura contra opositores em 1968, chegou a dizer: “É uma pena que meu pai esteja morto, teria sido necessário fazê-lo sofrer assim”.

Jaffar Amin / GEDISA / GETTY

Idi Amin Dada (1925-2003). Governou Uganda de 1971 a 1979 e ao se exilar deixou para trás inumeráveis atrocidades e 300.000 mortos. Seu pai o abandonou quando era recém-nascido porque considerava que a mãe, curandeira da família real do reino tradicional de Buganda, tinha engravidado do rei Daudi Chwa. “Antes de aprender a andar, ele conheceu a cozinha infernal de sua mãe”, afirma Chalmet. Nela eram usados os ingredientes mais truculentos −incluindo fetos e crianças sacrificados− em rituais sangrentos para seus clientes ricos. Idi Amin sempre viveu sem um lar fixo, dividindo espaço com os amantes de sua mãe. Só foi à escola por alguns meses durante sua adolescência, quando já estava dotado de um físico hercúleo que usava para se envolver em brigas diárias com alunos da escola técnica de Makerere, na qual não foi admitido.

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Pol Pot (1925-1998). Comandou o regime comunista do Khmer Vermelho, que perpetrou um genocídio contra o povo cambojano de 1976 a 1979, matando dois milhões de pessoas, um terço da população. Seu nome era Saloth Sar e foi educado conforme os férreos valores do ensino khmer, em que o castigo físico era comum. Dotado de extrema frieza emocional, seu irmão mais novo, Neap, afirmou que “ninguém conseguia saber o que ele pensava”. Em 1934, ingressou no monastério budista de Wat Botum, onde se destacou por sua aceitação da disciplina e da hierarquia. Sua irmã Roeung chegou a ser concubina do rei Monivong, mas sua origem camponesa era motivo de desprezo na corte. Saloth Sar, testemunha da aflição de sua irmã, desenvolveu um profundo ódio pela classe dominante. Foi sempre um estudante medíocre, mas acabou dando um jeito de conseguir uma bolsa de estudo de radioeletricidade na França em 1947, onde se uniu ao Partido Comunista da Camboja.