Trump promete a Johnson um acordo comercial “muito rápido” após o ‘Brexit’

O presidente dos EUA e o primeiro-ministro britânico exibem sua sintonia, mas divergem sobre o protecionismo contra a China

Johnson e Trump antes de seu encontro deste domingo em Biarritz.
Johnson e Trump antes de seu encontro deste domingo em Biarritz.Erin Schaff (Pool)

Donald Trump e Boris Johnson são os líderes mais temidos por seus parceiros no G7 de Biarritz, os mais imprevisíveis. As coincidências entre o presidente americano e o primeiro-ministro britânico não são só superficiais: os cabelos loiros, a tendência de quebrar esquemas e sua ascensão ao poder impulsionados pela onda populista e nacionalista que abala a velha ordem liberal.

No primeiro encontro dos dois desde que Johnson assumiu, em 24 de julho, o cargo de primeiro-ministro, ambos abordaram a questão mais urgente para o britânico: a negociação de um acordo comercial com os Estados Unidos quando a Grã-Bretanha sair da União Europeia e for excluída do mercado comum.

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Para Londres, isso é uma prioridade, uma tábua de salvação, a possibilidade de abrir um novo mercado gigantesco no momento em que outro, o da UE, se fecha. Trump, que estaria em posição de força na negociação, afirma querer um acordo rápido.

No café da manhã que Trump teve com o primeiro-ministro britânico, os jornalistas perguntaram quando chegará o acordo, e o presidente dos EUA respondeu: “Muito rápido. Não prevemos nenhum problema”. O pacto será “muito grande”, destacou.

“Sei que haverá negociações difíceis”, admitiu Johnson. Mas acrescentou: “Está claro que existem oportunidades enormes para o Reino Unido penetrar no mercado americano de uma forma que atualmente não podemos”.

A reunião entre Trump e Johnson foi o primeiro encontro no segundo dia da cúpula do G7, o grupo de democracias industrializadas que reúne EUA, Alemanha, Japão, Reino Unido, França, Itália e Canadá. Em Biarritz, o ex-prefeito de Londres estreia em uma reunião internacional de chefes de Estado e de Governo. A cúpula termina nesta segunda-feira.

Durante as declarações no café da manhã, os dois líderes mostraram que divergem sobre um ponto: a guerra comercial em que Trump embarcou contra a China. “Somos a favor da paz comercial em geral. Acreditamos que, em geral, o Reino Unido lucrou muito nos últimos 200 anos de livre comércio, e isso é o que queremos”, disse Johnson. “Não gostamos de tarifas em geral.”

A divergência não é menor. O Reino Unido aposta em impulsionar o comércio com o resto do mundo depois que perder o acesso irrestrito ao mercado da UE em 31 de outubro, data prevista para sua saída do clube. O problema é que Johnson vai se deparar com um mundo mais fechado, no qual estão reaparecendo as barreiras para o livre comércio. E um dos maiores promotores deste novo protecionismo é precisamente Trump. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro britânico quer evitar exibir uma complacência excessiva com o presidente americano e, em alguns assuntos, alinha-se com aqueles que ainda são seus parceiros europeus.

Outro problema para Johnson em suas negociações com Trump é a relação assimétrica entre seus países e o peso menor do Reino Unido nas conversações após sua saída da UE, o maior bloco comercial do planeta. Barack Obama, antecessor de Trump na Casa Branca, costumava repetir o seguinte argumento: como aliado dos EUA, o Reino Unido é mais interessante dentro da UE do que fora dela.

“Será que os EUA podem compensar o custo do Brexit duro para o Reino Unido?”, perguntou dias atrás o presidente francês e anfitrião da cúpula, Emmanuel Macron. “Não. E mesmo que fosse uma escolha estratégica, seria ao custo de uma vassalagem histórica do Reino Unido. Não acredito que seja isso o que Boris Johnson quer. Não acredito que seja o que o povo britânico quer”, acrescentou.

Trump se declarou partidário do Brexit e não poupou elogios a Johnson em Biarritz: “Ele não precisa de conselhos. É o homem adequado para este trabalho”. O presidente dos EUA aproveitou para criticar a antecessora de Johnson, Theresa May. Ao falar de um possível acordo de livre comércio entre os EUA e o Reino Unido, ele disse que, com May, “não se fazia nada, como vimos com o Brexit”.

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