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Moro político vai a parlamentares construir blindagem para si mesmo

Às vésperas de prestar esclarecimentos no Senado sobre mensagens reveladas pelo 'The Intercept', ministro costura apoios de senadores e deputados

Sergio Moro
O ministro da Justiça Sergio Moro na segunda-feira no Planalto. REUTERS

Enquanto a oposição preparava seu arsenal para interrogar o ministro da Justiça Sergio Moro na sessão da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) desta quarta-feira, o ex-juiz da Lava Jato costurava seus apoios para se blindar no Congresso. Após anunciar que iria ao Senado espontaneamente prestar esclarecimentos sobre as mensagens reveladas pelo The Intercept, Moro passou a se reunir com parlamentares-chaves para tentar neutralizar a hostilidade que poderá enfrentar na CCJ e preparar seu escudo.

Na segunda-feira à noite, o ministro se reuniu com o senador Marcos Rogério (DEM-RO), um dos membros da CCJ e apoiador de Moro. Na semana passada, Rogério usou a tribuna para sair em defesa do ministro, afirmando que não há nada ilegal ao se analisar o teor das mensagens trocadas entre Moro e o procurador Deltan Dallagnol, segundo o site The Intercept. “A esquerda das facadas, dos golpes rasteiros, da invasão de privacidade, do terrorismo, não merece a mínima confiança. Com o crime não se negocia”, disse o senador no último dia 12.

Na sequência, nesta terça-feira, Moro almoçou com parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), formada por deputados e senadores da base aliada e do centrão. A assessoria de imprensa da FPA afirma que o almoço, realizado com mais de 50 parlamentares, ocorreu somente para a discussão de temas ligados ao setor. Seja como for, dos 32 senadores que formam a frente, 20 também são membros da CCJ.

Outros grupos dentro do Congresso optaram por um apoio explícito ao ministro. No dia seguinte à publicação das primeiras reportagens do The Intercept, parlamentares da Frente da Segurança Pública, a chamada Bancada da Bala, emitiram uma nota em apoio a Moro, a procuradores e à Lava Jato. “Confiando que será feita justiça e que os criminosos envolvidos serão devidamente identificados, reforçamos o apoio e a solidariedade desta Frente Parlamentar às verdadeiras vítimas dessa situação: os procuradores da Lava Jato e o ministro Sergio Moro”, diz parte da nota.

Enquanto isso, na Câmara dos Deputados, a bancada evangélica também deu, literalmente, sua benção ao ex-juiz. Cerca de 30 parlamentares evangélicos se encontraram com o ministro na semana passada, de acordo com a colunista Mônica Bergamo. “Fizemos uma oração e abençoamos a vida dele. Pedimos que Deus dê tranquilidade ao ministro", afirmou o deputado pastor Marco Feliciano (Pode-SP) à colunista. "Ele está blindado por nós”.

Para a oposição, restou se debruçar sobre argumentos jurídicos e políticos para o embate com o ministro. “Fizemos uma reunião hoje, pegamos o material levantado pela assessoria e identificamos as contradições”, afirmou Humberto Costa (PT-PE), líder do PT no Senado. “Vamos contestar as contradições que ele tem demonstrado. Ora diz que não lembra [das mensagens supostamente trocadas], ora reconhece que aconteceu, ora diz que alguém invadiu o celular...”.

As primeiras reportagens apontando para a troca de mensagens entre Moro e o procurador Deltan Dallagnol foram publicadas no domingo, dia 9. Na terça-feira seguinte, o ministro então se ofereceu a ir voluntariamente ao Senado, um dia depois que o senador Angelo Coronel (PSD-BA) havia apresentado dois requerimentos para que a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) ouvisse o ministro e Dallagnol. Os pedidos não chegaram a entrar na pauta da discussão, já que o ministro anunciou espontaneamente que iria. O voluntarismo de Moro em relação à ida à CCJ foi, porém, calculado. O Senado é um ambiente muito mais controlado do que a Câmara dos Deputados, onde ele foi convocado a prestar esclarecimentos sobre o mesmo caso no próximo dia 26.

No olho do furacão, Moro viu sua aprovação despencar 10 pontos, embora ainda seja o político mais popular do Brasil. Enquanto isso, Bolsonaro adotou cautela diante do caso e demorou dias para sair em defesa de seu ministro. Para um presidente que prontamente posou para uma foto ao lado de Neymar depois que o jogador foi acusado de estupro, causou estranheza seu silêncio perante ao caso envolvendo seu ministro estrela.

Outros esclarecimentos

A audiência na CCJ terá início às 9h da manhã. Sergio Moro terá 30 minutos para exposição e, em seguida, os senadores inscritos por ordem de partido terão cinco minutos para perguntas. O ministro terá o mesmo tempo para resposta e, depois, os parlamentares terão prazo máximo de dois minutos para réplica e tréplica. Compõem a CCJ 54 senadores, incluindo a presidenta da Comissão, senadora Simone Tebet (MDB-MS).

Ao que tudo indica, a ida de Moro ao Senado nesta terça é apenas um capítulo do desdobramento causado pelas reportagens do The Intercept. Além do calendário da Câmara dos Deputados prever a participação do ministro do próximo dia 26, nesta terça-feira, outros dois passos foram dados na história dos esclarecimentos. A CCJ do Senado aprovou um requerimento de convite ao procurador Deltan Dallagnol, e a Câmara aprovou pedido para que Glenn Greenwald, fundador do The Intercept, seja convidado a prestar esclarecimentos sobre o caso à Comissão de Direitos Humanos e Minorias. As datas dos dois convites ainda não foram definidas.

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