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IDEIAS

Adianta alguma coisa checar as mentiras de Trump?

Em 828 dias, o presidente dos EUA faltou à verdade em 10.111 ocasiões, e isto não parece prejudicá-lo

Manifestação contra Trump, em Londres, em 2018.
Manifestação contra Trump, em Londres, em 2018. Getty

O presidente Donald Trump tem uma evidente tendência de se esquivar da verdade. Não faltarão céticos dizendo que este traço faz parte do repertório habitual de muitos políticos, mas, como acontece com suas infinitas gravatas e seu exagerado topete, o problema do norte-americano com a verdade rompe os cânones.

O rigor não está claramente entre seus pontos fortes. Desde que chegou à Casa Branca, em janeiro de 2017, até 27 de abril passado, ele deu 10.111 declarações falsas em público. De acordo com a contagem metódica realizada por uma equipe de The Washington Post liderada pelo jornalista de política Glenn Kessler, em 828 dias como comandante-chefe ele não disse a verdade em público cerca de 12 vezes por dia, 85 vezes por semana ou 370 no mês, em situações como discursos oficiais (999), comícios (2.217) e tuítes (1.803). E a tendência é de alta: de novembro de 2018 até o final de abril passado, a média diária foi de 23 falsidades. E isso inclui as 171 que ele lançou em apenas três dias em abril, a maioria delas em uma entrevista dada à rede Fox. São mais mentiras do que visitas a seus campos de golfe em seu primeiro ano como presidente: 150.

A frouxa relação com os acontecimentos factuais por parte do magnata do setor imobiliário (falido, como se descobriu recentemente) e astro de reality show que derrotou Hillary Clinton nas eleições de 2016 começou a ser testada pela imprensa norte-americana durante a campanha, mas, como era de esperar, a obsessão com os embustes de Trump alcançou o apogeu durante a sua presidência.

Presidente repetiu 150 vezes que está construindo o muro na fronteira com o México e foi desmentido em outras tantas

A equipe do Post tenta pôr ordem na avalanche de falsidades, que define como "tsunami", e não é a única. Angie Drobnic Holan, ganhadora de um Prêmio Pulitzer pela cobertura da campanha presidencial de 2008 e diretora do site de checagem de informação política Politifact, explicou em um debate realizado na Universidade Columbia, em 9 de maio, que o volume de fraudes de Trump é tamanho que decidiram perguntar a seus leitores se estavam fazendo um bom trabalho: “um terço disse que estávamos agindo bem, outro terço respondeu que deveríamos fazer um acompanhamento mais intensivo ainda, e o restante disse que já estava claro para eles que Trump mente e que deveríamos nos concentrar em outras pessoas".

Se na campanha o republicano voltava várias vezes ao boato mil vezes desmentido sobre a certidão de nascimento de Barack Obama — que supostamente provava que não era realmente cidadão dos EUA —, a mais recorrente mentira de Trump como presidente é dizer que está construindo o muro na fronteira com o México. Repetiu isso 150 vezes. Em outras tantas o erro foi apontado. Isso serve para alguma coisa? Trump não se retratou nem seus seguidores duvidam dele. "Não podemos ficar obcecados com uma ação imediata sobre o que publicamos porque isso pode levar anos", observou Kyle Pope, diretor da revista Columbia Journalism Review, especializada na análise da mídia, em uma entrevista após o debate de maio. "Este é um processo muito longo e pode demorar muito tempo até que algum promotor tome o assunto em suas mãos. Não é válido dizer que nada muda pelo fato de que depois da publicação de uma reportagem não há mudança de leis e nem uma ação drástica. Mesmo que isso nunca aconteça, o trabalho jornalístico não fica deslegitimado. Nossa tarefa é informar o público e ajudá-lo a tomar as melhores decisões. Este território é perigoso, não há dúvida."

O presidente estreou no cargo qualificando como fake media (mídia falsa) e fake news (notícias falsas) as informações que provavam que era mentira sua declaração de que em sua posse havia muito mais gente do que na de seu antecessor. Desde então, seus ataques à imprensa têm sido frontais e a mídia norte-americana vem respondendo com vigor, aumentando com isso sua audiência. Tanto o presidente quanto a imprensa estão imersos em um círculo que lembra o "vamos contar mentiras", de uma canção infantil espanhola: o primeiro, contando-as; os segundos, contabilizando-as. A obsessão por desmentir quem muitos já qualificam como mentiroso-chefe não diminui. Sua fixação com a divulgação de falsidades, tampouco.

Parece que, mais do que Trump, é a mídia que perde credibilidade perante o público. Sua reputação está sofrendo com a luta, e o partidarismo do eleitorado deteriora a confiança depositada na mídia e em seus profissionais. No total, 60% dos norte-americanos acham que os jornalistas recebem dinheiro de suas fontes em algum momento ou com frequência, de acordo com uma pesquisa da Reuters, Ipsos e Columbia Journalism Review, publicada em janeiro.

Em um ambiente como esse, o tom equilibrado e equidistante tradicionalmente defendido pela imprensa norte-americana tem sido questionado nas próprias redações. O jornalista ganhador de dois prêmios Pulitzer e decano da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, em Nova York, Steve Coll, abordou os desafios da situação atual nos debates em 9 de maio: "Passamos décadas ensinando ética jornalística, mas a desinformação que nos rodeia exige que revisemos nossas abordagens".

"Não podemos ficar obcecados em obter uma reação imediata ao que publicanos”, argumenta Kyle Pope, diretor da Columbia Journalism Review

Quando começaram a se mexer, no início as averiguações metajornalísticas na era Trump giravam sobre algo tão básico como se era legítimo qualificar como mentiras as imprecisões e falsidades do presidente. A mentira pressupõe uma intenção, um conhecimento da verdade que se esconde de propósito. Então, eram declarações falsas, meias verdades ou mentiras? O Post foi adicionando novas categorias para classificar metodicamente o enorme acúmulo de falsidades made in Trump: em dezembro inseriram uma nova, "Bottomless Pinocchio" (Pinocchio sem fim), para designar as falsas afirmações repetidas tantas vezes que poderiam praticamente ser consideradas "campanhas de desinformação ".

Hoje, as reservas sobre qual termo é mais exato foram superadas: a mídia não hesita em apontar as mentiras como tais nas manchetes. “Sabemos que ele mente muito e que as pessoas que o apoiam passam por cima disso ou não se importam. Mas apontar suas falsidades é importante e útil porque legitima o jornalismo. A questão é como podemos apresentar, de uma forma nova, reportagens que já são familiares", disse Kyle Pope, da Columbia Journalism Review. Em sua resposta a tal desafio, ele compara a constante checagem das falas de Trump com as informações sobre as mudanças climáticas. "Manter a cobertura deste tópico separada do resto é deprimente demais e afeta o impacto das reportagens. Seria melhor integrar a crise do meio ambiente em todas as reportagens e seções. Com as mentiras de Trump se passa o mesmo, deveria ser tentada essa mesma abordagem, a denúncia de suas fraudes precisa ser integrada em outras informações.”

Na campanha para as eleições presidenciais de 2020 será possível ver quantas lições foram aprendidas e qual a repercussão da denúncia das mentiras. Enquanto isso, vamos continuar contando mentiras?

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