IDEIAS

Ser ‘trans’ é cruzar uma fronteira política

O filósofo transgênero Paul B. Preciado relata sua experiência como viajante entre a feminilidade e a masculinidade e denuncia que estas transições ainda são consideradas heresias

Cartaz desenhado pela artista Peregrine Honig para banheiros mistos, nos EUA.
Cartaz desenhado pela artista Peregrine Honig para banheiros mistos, nos EUA.Jonathan Drake (Reuters)

Eu me atrevo a dizer quais são os processos de cruzamento que melhor nos permitem compreender a transição política global que estamos enfrentando. A mudança de sexo e a migração são as duas práticas de travessia que, ao porem em xeque a arquitetura política e legal do colonialismo patriarcal, da diferença sexual e do Estado-nação, situam um corpo humano vivo nos limites da cidadania e até do que entendemos por humanidade. O que caracteriza as duas viagens, para além do deslocamento geográfico, linguístico ou corporal, é a transformação radical não só do viajante, mas também da comunidade humana que o acolhe ou rejeita. O antigo regime (político, sexual, ecológico) criminaliza todas a práticas de travessia. Mas onde a travessia é possível, o mapa de uma nova sociedade começa a ser desenhado, com novas formas de produção e de reprodução da vida.

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No meu caso, o cruzamento começou em 2004, quando comecei a me administrar pequenas doses de testosterona. Durante alguns anos, transitando por um espaço de reconhecimento de gênero que oscilava entre o feminino e o masculino, entre a masculinidade lésbica e a feminilidade King [ou feminilidade masculina], experimentei a posição que agora é chamada de gênero fluido. A fluidez das encarnações sucessivas se chocava com a resistência social para aceitar a existência de um corpo fora do binário sexual. Essa "fluidez" foi possível durante os anos em que me administrei uma dose de testosterona que chamamos de "limiar", porque desencadeia a proliferação no corpo dos chamados "caracteres secundários" do sexo masculino.

Paradoxalmente, renunciei à fluidez porque desejava a mudança. A decisão de "mudar de sexo" é necessariamente acompanhada disso que Édouard Glissant chama de "um tremor". A travessia é o lugar da incerteza, da não-evidência, do estranho. E tudo isso não é uma fraqueza, mas um poder. "O pensamento do tremor", diz Glissant, "não é o pensamento do medo. É o pensamento que se opõe ao sistema ". Em setembro de 2014, iniciei um protocolo médico-psiquiátrico de redesignação de gênero na Audre Lorde Clinic, em Nova York.

A mudança de sexo e a migração são as duas práticas de cruzamento que situam o corpo nos limites da cidadania

“Mudar de sexo” não é, como quer a guarda do antigo regime sexual, dar um salto para a psicose. Mas também não é, como pretende a nova gestão neoliberal da diferença sexual, um mero trâmite médico-legal que pode ser completado durante a puberdade para dar lugar a uma normalidade absoluta. Um processo de redesignação de gênero em uma sociedade dominada pelo axioma científico-mercantil do binarismo sexual, onde os espaços sociais, trabalhistas, afetivos, econômicos e gestacionais estão segmentados em termos de masculinidade ou feminilidade, de heterossexualidade ou homossexualidade, é cruzar aquela que talvez seja, juntamente com a raça, a mais violenta das fronteiras políticas inventadas pela humanidade. Cruzá-la é ao mesmo tempo saltar uma parede vertical interminável e caminhar sobre uma linha desenhada no ar. Se o regime heteropatriarcal da diferença sexual é a religião científica do Ocidente, então mudar de sexo só pode ser um ato de heresia.

À medida que aumentava a dose de testosterona, as mudanças se intensificavam: o pelo facial é um mero detalhe em comparação com a força com que a voz precipita uma mudança de reconhecimento social. A testosterona provoca uma variação da grossura das cordas vocais, um músculo que, ao ter sua forma modificada, varia o tom e o registro da voz. A mudança de voz é experimentada pelo viajante de gênero como uma posse, um ato de ventriloquia que o força a se identificar com o desconhecido. Sem dúvida, essa mutação é uma das coisas mais bonitas que já vivi. Ser trans é desejar um processo de crioulização interior: aceitar que só somos nós mesmos graças à — e através da — mudança, da mestiçagem, da mistura. A voz que a testosterona impulsiona em minha garganta não é uma voz de homem, é a voz do cruzamento. A voz que treme em mim é a voz da fronteira. Como diz Glissant, “entendemos melhor o mundo quando trememos com ele, porque o mundo está tremendo em todas direções”.

Junto com a mudança de voz veio a mudança de nome. Durante algum tempo, desejei que meu nome feminino fosse declinado em masculino. Ou seja, quis me chamar Beatriz e ser tratado, segundo as gramáticas, com pronomes e adjetivos masculinos. Mas aquela torção gramatical era ainda mais difícil que a fluidez de gênero. Decidi então procurar um nome masculino. Em maio de 2014, o subcomandante Marcos anunciou, em uma carta aberta enviada “da realidade zapatista”, a morte do personagem Marcos, que tinha sido inventado como um nome sem rosto para dar voz ao processo revolucionário de Chiapas. Naquele mesmo comunicado, o subcomandante afirmou que deixava de se chamar Marcos para se chamar Galeano, em homenagem a José Luis Solís López, conhecido como Galeano, assassinado em maio de 2014. Pensei então em me chamar Marcos. Queria usar o nome de Marcos como uma balaclava que cobrisse meu rosto e meu nome. Marcos seria uma forma de desprivatizar meu antigo nome, de coletivizar meu rosto. Minha decisão foi denunciada imediatamente nas redes pelos ativistas latino-americanos como um gesto colonial. Afirmavam que, sendo branco e espanhol, eu não podia usar o nome de Marcos. A ficção política durou poucos dias. Esse nome, enxerto político fracassado, existe apenas como um traço efêmero inserido na assinatura do artigo do Libération de 7 de junho de 2014. Sem dúvida, eles tinham razão. Havia naquele gesto arrogância colonial e vaidade pessoal, mas também uma busca desesperada de proteção. Quem se atreve a abandonar seu nome para adotar um nome sem história, sem memória, sem vida? Aprendi duas coisas, aparentemente contraditórias, com o fracasso do enxerto do nome Marcos: eu teria de lutar por meu nome e, ao mesmo tempo, meu nome teria de ser uma oferenda, teria de ser presenteado a mim como um talismã. (…)

A ciência, a tecnologia e o mercado estão redesenhando os limites do que é e será um corpo humano vivo. Esses limites são definidos hoje não só em relação à animalidade e às formas de vida consideradas até agora subumanas (os corpos não brancos, proletários, não masculinos, trans, com deficiência, doentes, migrantes…), mas também frente à máquina, frente à inteligência artificial, frente à automatização dos processos produtivos e reprodutivos. Se a primeira Revolução Industrial foi caracterizada pela invenção da máquina a vapor, pela aceleração das formas de produção, a revolução industrial atual, marcada pela engenharia genética, pela nanotecnologia, pelas tecnologias de comunicação, pela farmacologia e pela inteligência artificial, afeta em cheio os processos de reprodução da vida. O corpo e a sexualidade ocupam na atual mutação industrial o lugar que a fábrica ocupou no século XIX. Há, ao mesmo tempo, uma revolução dos subalternos e apátridas em andamento e uma frente contrarrevolucionária lutando pelo controle dos processos de reprodução da vida. Em cada canto do mundo, de Atenas a Kassel, de Rojava a Chiapas, de São Paulo a Johannesburgo, é possível sentir não só o esgotamento das formas tradicionais de fazer política, mas também o surgimento de centenas de milhares de práticas de experimentação social, sexual, política, artística... Fazendo frente ao aumento das forças edípicas e fascistas surgem, por toda parte, as micropolíticas do cruzamento.

Paul B. Preciado é um filósofo transgênero feminista, autor, entre outras obras, de ‘Manifesto Contrassexual’ (N-1 Edições). Este texto é um fragmento de seu novo livro ‘Un Apartamento en Urano’, lançado nesta quarta-feira na Espanha pela editora Anagrama.