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O que há por trás do idílio político de Bolsonaro com Israel e Netanyahu

Presidente do Brasil chega neste domingo a Jerusalém sem esclarecer totalmente a incógnita sobre a mudança da embaixada para estreitar sua aliança com Netanyahu e os evangélicos

Netanyahu e Bolsonaro, em foto de dezembro de 2018 no Brasil
Netanyahu e Bolsonaro, em foto de dezembro de 2018 no Brasil AFP

O primeiro-ministro israelense foi o convidado mais bem-quisto do presidente do Brasil em sua posse. Agora lhe devolve o gesto com uma visita oficial a Jerusalém que começa no domingo. O intenso idílio político de Jair Bolsonaro com Israel e Benjamin Netanyahu começou como antigamente muitos namoros começavam. Com uma carta. Uma missiva que o à época deputado do baixo clero enviou à Embaixada israelense em Brasília pedindo desculpas pela então presidenta Dilma Rousseff considerar “desproporcional” a represália em Gaza pelos ataques do Hamas. Nessa guerra mais de 2.000 palestinos morreram, na maioria civis, e 70 israelenses, quase todos soldados. Diante do conflito sangrento, Dilma chamou o embaixador para consultas, ao que Israel respondeu com grosseria: chamou o Brasil de “anão diplomático” e zombou do humilhante 7x1 da Copa do Mundo.

A carta de desculpas foi o primeiro contato do atual presidente Bolsonaro com Israel do qual tem registro Guilherme Casarões, professor da Fundação Getúlio Vargas. Com esse gesto, Bolsonaro marcou principalmente seu perfil anti-PT. Mas sua relação com Israel foi se estreitando ao ponto de na campanha prometer a mudança da embaixada de Tel Aviv a Jerusalém. É preciso esperar para ver se isso irá ocorrer porque, como diz Casarões, o Governo está dividido em facções com opiniões muito díspares. São partidários da mudança os que têm “uma percepção mais ideológica da política exterior”, os antiglobalistas. Já a área econômica “não está interessada, pelo menos por enquanto” nessa mudança, porque temem perdas para a venda de carne halal (de acordo com as leis do Islã) aos países árabes. Já os militares querem preservar a tradição diplomática.

Reflexo dessas divergências, Bolsonaro sugeriu nesta semana que talvez se limite a abrir “um escritório de negócios” na cidade que Israel considera sua capital, contrariando as resoluções da ONU. Por ora, promete voltar da sua viagem com acordos que beneficiem o país. “Buscaremos acordos concretos nas áreas de ciência, tecnologia, defesa, entre outras. Ótimas expectativas! Israel é uma nação amiga e juntos temos muito a somar!”, tuitou ele.

“Um dos problemas de se aproximar muito de Israel é alienar os parceiros árabes e colocar em perigo a tradição diplomática brasileira” de apostar pela maioria e pela defesa da legislação internacional, diz Casarões. Há décadas o Brasil trabalha para ter relações com todos e evitar os lados. “Isso não significa que seja anti-israelense, mas sim muito consistente na crítica às violações dos direitos dos palestinos”. O país, entretanto, começou a votar com Israel no Conselho de Direitos Humanos da ONU. São gestos mútuos de boa vizinhança. Uma equipe de resgate israelense cruzou meio mundo para chegar a Brumadinho após o acidente do rompimento da barreira que deixou centenas de mortos.

Os evangélicos ganharam um papel fundamental nessa aliança. Para esse grupo amplo e compacto de disputados eleitores brasileiros, o apoio a Israel está ligado a “uma profecia bíblica”, frisa o especialista da Getúlio Vargas, que só contempla a ressurreição de Jesus se Jerusalém estiver sob domínio judeu. O pastor Marcos Galdino, da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em São Paulo, é parte ativa dessa relação especial. “Somos amigos de Israel e rezamos por Israel”, pontua, em referência aos Salmos 122.6. No terreno, esse bolsonarista considera o país um modelo por sua avançada tecnologia e enorme desenvolvimento. “É uma região com tão poucos recursos, e veja no que Israel se transformou. E veja o que é o Brasil apesar de toda a terra e recursos naturais que tem”, diz Galdino, que todos os anos peregrina à cidade santa com meia centena de seus fiéis.

Ainda que o líder evangélico dê pouca importância ao fato do católico Bolsonaro ter se batizado no rio Jordão em 2016, essa foi uma das primeiras ocasiões em que Bolsonaro expressou em uma transmissão direta via Facebook sua intenção de se candidatar nas eleições. Para o especialista em relações internacionais, “ele queria capitalizar o simbolismo de Israel”.

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