O ruído diplomático entre o Brasil e Israel divide especialistas

A convocação do embaixador brasileiro em Tel Aviv é o fator que enfraquece o Governo de Dilma

Um atrito diplomático entre o Brasil e Israel, que teve início na quarta-feira, ganhou o noticiário e fomentou um debate entre especialistas sobre a habilidade do Governo brasileiro para lidar com um assunto tão delicado. O ruído entre os países já provocou o retorno do embaixador brasileiro em Tel Aviv para consultas em Brasília e deu origem a declarações israelenses menosprezando a relevância internacional do Brasil, classificado como um “anão diplomático”.

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A temperatura entre os países começou a subir quando o Itamaraty emitiu uma nota comentando o conflito entre israelenses e palestinos, que já tirou a vida de cerca 800 pessoas. Era o segundo posicionamento do Governo brasileiro em uma semana. Mas, desta vez, o Brasil não condenava explicitamente o lançamento de foguetes e morteiros de Gaza contra o território israelense. O país anunciava, além do retorno do seu embaixador, ter votado a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU que repudia a ofensiva militar israelense e cria uma comissão para apurar as responsabilidades por eventuais violações.

Segundo especialistas, chamar de volta o embaixador brasileiro para consultas foi uma ação precipitada. Para o ex-secretário-geral do Itamaraty Marcos Azambuja, por exemplo, a medida afasta o Brasil de sua trajetória histórica de posições mais equilibradas, independentemente dos desagravos israelenses. “Os embaixadores são mais necessários justamente quando a situação não é boa. Tirar o seu principal interlocutor de um país em um momento em que se precisa de diálogo é muito complicado”, afirma Azambuja, também membro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI). “Eu teria preferido fazer isso um pouco mais tarde, e em conjunto com outros países. É uma pena que tenhamos chegado a esse ponto nas relações”, completa.

O Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático" Yigal Palmor, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel

O governo de Benjamin Netanyahu demonstrou seu descontentamento com o posicionamento brasileiro. "Essa é uma demonstração lamentável de por que o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático", afirmou na quinta-feira o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor. "O relativismo moral por trás desse movimento faz do Brasil um parceiro diplomático irrelevante, aquele que cria problemas em vez de contribuir para soluções", disse ao jornal The Jerusalem Post.

Pouco depois, Palmor concedeu uma entrevista à TV Globo na qual fazia ainda uma referência ao esporte para ironizar a posição brasileira no conflito no Oriente Médio. “No futebol, quando um jogo termina em empate, você acha proporcional e quando é 7 a 1 é desproporcional”, disse, em clara alusão à goleada na Copa do Mundo sofrida pelo Brasil para a Alemanha.

Ainda na tarde da quinta-feira, após as primeiras declarações do porta-voz israelense, o chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, respondeu que, se há algum anão diplomático, o Brasil não está entre eles. “Somos um dos 11 países do mundo que têm relações diplomáticas com todos os membros da ONU e temos um histórico de cooperação pela paz e ações pela paz internacional”, completou.

Somos um dos 11 países do mundo que têm relações diplomáticas com todos os membros da ONU Luiz Alberto Figueiredo, chanceler brasileiro

O diplomata Azambuja também não poupou críticas ao que considerou um excesso de emotividade posterior de Israel, cujas reações considerou “grosseiras e quase infantis”. “Tudo isso poderia ser evitado. A linguagem adotada no protesto israelense é inaceitável”, acrescenta, em referência à classificação brasileira como “anão diplomático” por parte do porta-voz Palmor.

“A reação de Israel acaba por demonstrar que o país se preocupa muito pouco mesmo com a opinião pública internacional, porque conta com o apoio incondicional dos Estados Unidos”, emenda Giorgio Romano Schutte, coordenador do curso de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC). “A situação em Israel é dramática”, acrescenta.

Já segundo outro especialista, o professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) Marcus Vinícius Freitas, o porta-voz israelense não fez as declarações sem estar baseado na percepção internacional que ainda persiste sobre o papel do Brasil. “A nota do Itamaraty surpreendeu porque a pasta vem se abstendo em uma série de questões relevantes, como a Síria, por exemplo, e agora se manifestou de forma equivocada.”

Segundo os analistas, o ruído nas relações não deverá, no entanto, resultar em desagravos maiores, que possam transbordar para outras áreas como a comercial, por exemplo. O Mercosul possui um acordo de livre comércio em vigor com Israel desde 2010, o primeiro assinado pelo bloco com um país não membro da Associação Latino-Americana de Integração (ALADI).

A reação de Israel acaba por demonstrar que o país se preocupa muito pouco mesmo com a opinião pública internacional, porque conta com o apoio incondicional dos Estados Unidos” Giorgio Romano Schutte, professor da UFABC

“O Itamaraty sabe que, se aprofundar a questão, o Brasil poderá perder completamente a razão. Israel sempre terá uma justificativa de defesa de seu território, além de um apoio crescente contra a influência do Hamas no próprio Oriente Médio”, avalia o professor Freitas. “A tendência é o episódio se esgotar nele mesmo nos próximos dias”, emenda o diplomata Azambuja.

As reações fora do âmbito diplomático não foram menos intensas. A Confederação Israelita do Brasil (Conib), órgão que representa as comunidades judaicas no país, por exemplo, também veio a público, mas para manifestar em um comunicado a sua “indignação” pela “abordagem unilateral (brasileira) do conflito, ao criticar Israel e ignorar as ações do grupo terrorista Hamas”. “A Conib (...) lamenta que, com uma abordagem que poupa de críticas um grupo que oprime a população de Gaza e persegue diversas minorias, o Brasil mine sua legítima aspiração de se credenciar como mediador no complexo conflito do Oriente Médio”, avaliou a entidade.

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