Economia brasileira

Desconfiança dos investidores com Bolsonaro cresce e dólar supera 4 reais

Bolsa caiu 3,6% nesta quarta-feira diante das dúvidas cada vez maiores sobre a reforma da previdência e constantes polêmicas do Governo brasileiro

O presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto, na última segunda-feira.
O presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto, na última segunda-feira. Ueslei Marcelino (REUTERS)

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As enormes expectativas que acompanharam a sólida vitória eleitoral de Jair Bolsonaro estão diminuindo rapidamente à medida que o presidente brasileiro e seus ministros embarcam em diversas polêmicas, passados apenas três meses no poder. O mandatário joga ainda mais lenha na fogueira por conta do aniversário da ditadura militar, neste domingo, ao mesmo tempo em que se envolve em escaramuças em público com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, apesar de lhe pedir todo o seu apoio para fazer avançar a reforma mais urgente do seu mandato, a da previdência. Os investidores expressaram com clareza a sua crescente preocupação nesta quarta-feira: a Bolsa caiu 3,6% e o dólar fechou no nível mais alto em relação ao real dos últimos seis meses. Na abertura dos mercados nesta quinta-feira, a moeda brasileira continuava a cair até cruzar a barreira dos quatro reais por dólar — fechou, após recuar um pouco, a 3,94 dólares —, depois de um áspero embate na noite passada entre Bolsonaro e o presidente da Câmara.

Maia disparou primeiro a artilharia verbal: "São 12 milhões de desempregados, 15 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza (...), e o presidente brincando de presidir o Brasil". Bolsonaro respondeu imediatamente: "Não existe brincadeira da minha parte. Muito pelo contrário”, rebateu. "[Isso] não é palavra de uma pessoa que conduz uma casa. Brincar? Se alguém quiser que eu faça o que os presidentes anteriores fizeram, eu não vou fazer. Já dei o recado aqui”, frisou ele.

Mas, no jogo de forças, foi a chamada de Maia a que parece ter surtido mais efeito. Embora sua retórica agrade seus seguidores das redes sociais, Bolsonaro parece ter ouvido a mensagem do mercado e de empresários que já falam abertamente que não confiam nele. Nesta quinta, disse a jornalistas que as fricções já eram "página virada e mando um abraço para o Maia". Classificou, ainda, como "chuva de verão" os embates entre o Legislativo e o Executivo.

Ainda assim, nos mercados se aprofunda a desconfiança de que Bolsonaro e sua equipe econômica ultraliberal não terão o amplo apoio parlamentar (tem apenas 53 cadeiras em uma Câmara de 513) que a reforma da previdência requer, tendo em vista a velocidade em que está perdendo capital político imprescindível para mudar o sistema insustentável. A proposta visa economizar 1,1 trilhão de reais em uma década.

Já o Banco Central piorou sua projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019 de 2,4 por cento para 2,0 por cento, reforçando o fraco ritmo de recuperação econômica, em relatório publicado nesta quinta-feira.

A mensagem de paz desta quinta deixa dúvidas sobre o tempo de duração da trégua de Bolsonaro. O presidente brasileiro não tem perdido a oportunidade de alimentar provocações que desnorteiam os investidores. Apesar da tempestade desta semana, o militar reformado teve tempo para ir na terça-feira pela manhã ao cinema com sua mulher e insistir na controvérsia sobre o golpe militar, depois de incentivar oficialmente seus antigos companheiros a comemorarem nos quartéis a quebra da ordem constitucional de 1964. Nesta quarta, reiterou em uma entrevista seu discurso de que não foi uma ditadura o que o Brasil viveu até 1985 e minimizou as graves violações dos direitos humanos documentadas pela Comissão Nacional da Verdade.

"Temos que conhecer a verdade. Não quer dizer que foi uma maravilha, não foi uma maravilha regime nenhum. Qual casamento é uma maravilha? De vez em quando tem um probleminha, é coisa rara um casal não ter um problema, tá certo?”, disse ele, depois de afirmar que as Forças Armadas nunca tiveram “uma política repressiva de Estado” e declarar, como se fosse um fato inédito na história, que entregaram o “Governo à oposição de forma pacífica”. Algo que se assemelha ao que aconteceu nos últimos anos em Mianmar (antiga Birmânia) e agora na Tailândia.

Mas possivelmente as palavras que mais preocupam os investidores são a advertência feita pelo czar da economia, Paulo Guedes, em uma comissão parlamentar sobre a reforma previdenciária que ele elaborou. "Estou aqui para servi-los. Se ninguém quiser o serviço, vai ser um prazer ter tentado”, respondeu aos senadores o ministro Guedes, que enriqueceu no setor financeiro e carece de experiência política.

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