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Curto-circuito político faz da economia o calcanhar de Aquiles de Bolsonaro

Dificuldade de reverter o quadro é atribuída a vários fatores. Contas públicas no vermelho e contenção de gastos impedem que Governo impulsione a atividade econômica, como aconteceu em outras crises

dólar tem alta
Presidente Jair Bolsonaro, no dia 19 de março, em visita aos Estados Unidos. AFP

O Brasil tem acumulado mais faíscas do que consensos no caminho para sua reforma da Previdência, apontada pelo próprio ministro Paulo Guedes como fundamental para retomar o fôlego perdido da economia. Se a prisão do ex-presidente Michel Temer gerou um desconforto geral sobre os efeitos da detenção no Congresso, nesta sexta, 22, foi a vez do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, expor o incômodo com a falta de coordenação do Governo Bolsonaro para colocar a bola em campo. Maia afirmou a alguns jornais que vai deixar a tarefa de formar maioria no Congresso para votar a Previdência e esperará que o presidente e seus ministros assumam a função. Só então ele vai pautar a reforma, quando Bolsonaro entender que já tem votos para passá-la. Depois, apareceu no Jornal Nacional, da TV, dizendo que "Bolsonaro precisa ter mais tempo pra cuidar da Previdência e menos tempo cuidando do Twitter, porque, se não, a reforma não vai andar." Do Chile, o presidente havia afirmado que pretende conversar com o presidente da Câmara, já que "não deu motivo" para Maia deixar a articulação.

A postura do parlamentar colaborou para que a Bolsa caísse e o real perdesse valor no final de uma semana que parecia ser de boas novas. Na segunda,18, por primeira vez na história, o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo rompeu a barreira simbólica dos 100.000 pontos em uma mesma sessão. O novo recorde foi ofuscado pela percepção de que a reforma vai ficando cada vez mais distante, desanimando também os investidores.

No mesmo dia, a economia real, aquela que reflete como está realmente a atividade no país, acendia  também um sinal de alerta, revelando sintomas de fraqueza. O IBC-Br, índice de atividade e uma espécie de prévia do resultado do PIB, registrou um recuo de 0,41% em janeiro na comparação com dezembro, puxado principalmente por um resultado ruim na indústria. A pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central junto a uma centena de instituições financeiras, também seguiu a tendência negativa e reduziu a expectativa para o crescimento neste ano, caindo de 2,28% para 2,01%. Há cinco semanas, a estimativa era muito mais otimista, de um avanço do PIB de 2,5%

"O que vemos é que a euforia da Bolsa não está calcada em novos sinais positivos da economia brasileira. Os ganhos a curto prazo estão ligados aos sinais políticos - como especulações se a Reforma da Previdência irá passar - e também às questões internacionais. As estatísticas econômicas hoje mostram que estamos atravessando uma retomada muito lenta", explica o economista Thiago Xavier, da consultoria Tendências. Segundo o economista, se compararmos os quatro últimos períodos recessivos da economia brasileira (1981-1983; 1989-1992; 1998-1999 e 2014-2016) a atual retomada já é mais lenta que a das demais crises.

A dificuldade de reverter o quadro de crescimento pífio anual, de apenas 1% nos últimos dois anos, pode ser atribuído a vários fatores. Uma das explicações é o nível de endividamento das empresas, dos consumidores e até mesmo do Governo, que enfrenta um forte ajuste fiscal, tentando colocar as contas públicas no azul. Desde 2014, a economia brasileira tem colhido sucessivos déficits, o que levou a um aumento acelerado da dívida do país. O Governo anunciou, nesta sexta-feira,  um contingenciamento de 29,8 bilhões de reais nas despesas para garantir o cumprimento da meta fiscal deste ano, após revisar para baixo as receitas contabilizadas para 2019, esperando menos royalties de petróleo e uma arrecadação mais tímida em função da lenta retomada econômica. "Em outras crises vimos a importância dos gastos do Governo para impulsionar a economia. Agora, vemos que isso não é possível pela fragilidade das contas públicas. Temos um nível de gastos maior que as nossas receitas e também amarras institucionais como o teto dos gastos que não pode ser rompido", destaca Xavier.

O setor da construção também é considerado um dos responsáveis por intensificar a crise, já que tem um efeito em cadeia em vários outros setores da economia. "Nesse crise ainda tivemos a questão da operação Lava Jato, em que os principais players do setor ficaram em uma situação financeira e judicial comprometida, prejudicando o setor", aponta o economista da Tendências, que também cita a crise na Argentina - um dos nossos principais parceiros comerciais - como um dos fatores que prejudicaram a retomada da nossa indústria, que tem como um dos relevantes setores a produção automotiva, dependente da importação do país vizinho.

Na cesta dos problemas enfrentados pela economia brasileira, o grau de incerteza que circula no país tem também um lugar de forte destaque. No fim do ano passado, ela era regida pelas eleições presidenciais, mas passado o período eleitoral, a natureza da incerteza mudou: os agentes econômicos passaram a se preocupar com a capacidade de mobilização do Governo Bolsonaro para colocar de pé a nova agenda econômica e a Reforma da Previdência, fortemente apoiada pelo mercado.

"Nesses primeiros meses, o que derrubou um pouco o ânimo com a nova gestão é a percepção que o Governo tem uma agenda econômica clara, comandada pelo ministro [Economia] Paulo Guedes, inclusive com uma agenda de infraestrutura, mas não há uma coordenação política à altura. Até agora há baixíssima solidez da estratégia política", explica Ricardo Sennes, economista e doutor em ciência política, atual diretor da consultoria Prospectiva.

Descoordenação política

A reversão das expectativas otimistas para o crescimento do PIB neste ano, segundo o economista, acontece depois da percepção de que o engajamento político de Bolsonaro nas reformas está aquém da projetada. "A primeira consequência disso é o aumento da desconfiança do timing da Reforma da Previdência e da profundidade dela. Já é quase um consenso que a votação ficará para o segundo semestre, a descoordenação política empurrou a decisão lá para outubro, o que significa que as reações positivas a uma possível aprovação da reforma já não vão acontecer neste ano. Mataram a capacidade das empresas investirem neste ano", ressalta Sennes.

Comerciante Maria José de Souza na região do Brás, em São Paulo.
Comerciante Maria José de Souza na região do Brás, em São Paulo.

A prisão do ex-presidente Michel Temer, na quinta-feira, no âmbito da operação Lava Jato também jogou mais uma pitada de preocupação em Brasília. Segundo relatório da corretora XP aos clientes, o episódio "turva" o ambiente e aumenta a temperatura no Distrito Federal. "Ações geram reações (e pânico, já que uma vez que Lula e Temer estão presos, qualquer um pode ser) e a do Congresso, especialmente o reeleito, tende a ir pelo caminho de endurecer ainda mais sua relação com o Governo", diz o documento da corretora que destaca que não há como um ambiente assim ser bom para a reforma da Previdência.

O economista também destaca que o comemorado resultado do leilão de privatização de 12 aeroportos neste mês não pode ser um "medidor da temperatura da economia atual"."Esse setor assim com o do petróleo, onde há regulações com poucas ameaças de mudança a curto prazo, são excepcionais. São blindados à desconfiança política", diz.

Na avaliação de Sennes, há um sentimento no Brasil de que o país está caminhando para o rumo certo no longo prazo, mas a realidade é que no curto prazo ainda está ruim. "Vemos, por exemplo, que o desemprego está se mantendo em um patamar muito alto - subiu em janeiro para 12% em janeiro e atinge 12,7 milhões de pessoas. O mercado e parte da população apoia esse novo Governo, mas ele precisa mostrar resultados ou caso contrário essa relação não se sustenta.

Os três primeiros meses do Governo Jair Bolsonaro não pareceram muito animadores ao brasileiros, a julgar pelos números da pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira. O levantamento realizado de 16 a 19 deste mês mostra uma queda de 15 pontos percentuais na avaliação de "ótimo ou bom", que foi dos 49% aferidos em janeiro para 34%.

Enquanto a população não sente uma melhora na economia, os brasileiros vêm segurando o consumo e os comerciantes e empresários os investimentos e gastos. Dona de um box em uma galeria da região do Brás, no centro de São Paulo, em que vende roupas femininas, Maria José de Souza tem batalhado para não ficar no vermelho no fim do mês. "O movimento está muito devagar. É preciso muito jogo de cintura para manter o negócio nesses últimos meses. Muita gente aqui na galeria fechou e outros estão falando que irão entregar o negócio. Hoje o que ganho só paga meu aluguel e a funcionária. Só no fim do ano que consigo tirar um dinheiro pra mim e guardar para os outros meses. Desde a crise está tudo parado", conta a comerciante. Souza diz ser uma otimista constante, "estou sempre esperando que as coisas melhorem", conta. Porém, acredita que as propostas do novo Governo ainda vão demorar a sair do papel. Enquanto espera dias melhores, sua vida, assim como o país, está em momento de ajuste e cortes para manter as finanças no azul. Assim como Brasil, Souza está em compasso de espera.

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