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Só há um caminhão para levar ajuda do Governo Bolsonaro à Venezuela, por enquanto

Operação para levar 200 toneladas de comida está mantida para este sábado, mas o transporte não está garantido. Planalto descarta qualquer ação militar no país de Nicolás Maduro

Crise na Venezuela
Pessoas tentam cruzar a fronteira entre Brasil e Venezuela na cidade de Pacaraima, Roraima. REUTERS

O Governo Jair Bolsonaro se apressou em enviar ajuda humanitária para Boa Vista, capital de Roraima, o Estado brasileiro que faz fronteira com a Venezuela, para de lá entregá-la em Pacaraima, vizinha da venezuelana Santa Elena de Uairén. Planejava destinar, a partir deste sábado, 200 toneladas de alimentos e kits de primeiros socorros aos venezuelanos, mas, aparentemente, faltou combinar algum passo com a oposição ao Governo Nicolás Maduro liderada por Juan Guaidó, que o Brasil reconhece como presidente venezuelano interino. Os insumos chegaram à base aérea de Boa Vista e a previsão era de que ao menos 20 caminhões do país vizinho os transportassem já a partir deste sábado. Nesta sexta-feira, todavia, apenas um veículo estava estacionado no local - informação confirmada pelo porta-voz do Planalto, general Otávio Rêgo Barros. Os demais não haviam chegado um dia depois que Maduro determinou o fechamento da fronteira de seu país com o Brasil. Nesta sexta, a região registrou o primeiro conflito grave: soldados venezuelanos abriram fogo contra compatriotas indígenas em Kumarakapay, a 80 quilômetros da passagem de Pacaraima, matando ao menos dois civis morreram e ferindo outras 12 pessoas.

O Governo Bolsonaro diz que operação de entrega da ajuda humanitária está mantida. Além do porta-voz, o presidente também confirmou pelo Twitter.  O general Carlos Teixeira, coordenador da operação de ajuda humanitária em Roraima, disse, no entanto, que tudo depende de que Maduro abra a fronteira. “Nós temos 200 toneladas de doações para mandar para a Venezuela e é impossível mandar em um caminhão apenas. Por isso, enquanto não reabrir a fronteira, essa operação não vai se efetivar". A expectativa é que a Polícia Militar de Roraima e a Polícia Rodoviária Federal façam a escolta das cargas entre a capital Boa Vista e fronteiriça Pacaraima.

Uma das exigências da gestão Bolsonaro para entregar os insumos é que os veículos sejam registrados na Venezuela e conduzidos por venezuelanos. O Governo quer evitar um conflito diplomático ainda maior com a gestão Maduro, com a entrada de automóveis ou cidadãos brasileiros sem a permissão oficial. Por isso, o Planalto diz que sua interferência será apenas para ajudar a população que está desabastecida. “É exclusivamente de ajuda humanitária, não havendo qualquer interesse de nosso país no emprego quaisquer outras frentes nesse momento”, explicou o porta-voz da Presidência, o general Otávio Rêgo Barros. Maduro tem repetido que o envio de insumos, com o patrocínio de EUA, Brasil e Colômbia, é só uma "armadilha" para tentar derrubá-lo.

Durante a tarde dessa sexta-feira, Bolsonaro convocou uma reunião de emergência com 14 autoridades — entre elas o governador de Roraima, Antonio Denarium, e os ministros generais Fernando Azevedo (Defesa) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). O objetivo do encontro era instituir um gabinete de crise, que servirá para monitorar os riscos de um confronto surgir na região e o andamento das entregas das doações, feitas pelo Brasil e por outros países, em especial os Estados Unidos.

Em princípio, o Governo brasileiro descarta qualquer ação militar e diz que não há registros de que poderia ser atacado pela Venezuela. “Não avaliamos qualquer possibilidade de ataque neste momento. O que realizamos na fronteira são as operações normais”, informou Rêgo Barros. O discurso foi reforçado pelo governador Denarium, um correligionário de Bolsonaro. “Não temos nenhum interesse em causar um conflito internacional, um conflito diplomático. Os brasileiros e venezuelanos sempre tiveram excelente relacionamento”.

Alinhado com os Estados Unidos de Donald Trump, o Brasil de Bolsonaro foi um dos primeiros países a reconhecer o congressista Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. Ele se autodeclarou presidente por entender que Maduro era um mandatário ilegítimo, porque teria fraudado as eleições. Desde então, dezenas de países declararam apoio ao parlamentar e deixaram de reconhecer Maduro. Neste sábado, Guaidó completa 30 dias desde sua ofensiva contra Maduro e, por isso, os desdobramentos da ação humanitária podem ser determinantes. A aposta  oposicionista é que a entrada da ajuda incentive uma deserção em massa nas fileiras militares venezuelanos, o principal bastião estratégico de resistência de Maduro.

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