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Temporal no Rio deixa mortos, soterra ônibus e destrói, novamente, ciclovia

Ventos atingiram 110 km/h e sirenes que alertavam moradores para deixar suas casas soaram na Rocinha. Ao menos seis pessoas morreram

Ônibus atingido por um deslizamento de terra na zona sul do Rio de Janeiro, após uma tempestade da noite desta quarta-feira.
Ônibus atingido por um deslizamento de terra na zona sul do Rio de Janeiro, após uma tempestade da noite desta quarta-feira.JOSE LUCENA (FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO)
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As chuvas de verão no Rio de Janeiro já fazem parte do calendário da cidade tanto quanto seu famoso Carnaval. E, ano após ano, se mostra incapaz de se preparar, ao contrário do Carnaval, para um período de fortes temporais. Em 2019 não foi diferente. Pelo menos seis pessoas morreram, uma está desaparecida e diversas áreas foram destruídas pelo temporal que atingiu a capital fluminense na noite desta quarta-feira, 6 de fevereiro. A cidade foi colocada em Estado de Crise e a prefeitura decretou luto de três dias. Dois dos mortos foram encontrados em um dos dois ônibus atingidos por um deslizamento de terra na avenida Niemeyer, na zona sul, onde fica a ciclovia Tim Maia, que teve mais um trecho destruído com forte chuva desta noite. Os ventos atingiram 110 km/h.

Sirenes instaladas nas favelas da Rocinha e Sítio Pai João foram acionadas às 21h48 de quarta-feira, segundo a Subsecretaria de Proteção e Defesa Civil, vinculada à Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop). Os alertas sonoros pediam para que os moradores desocupassem suas casas e se dirigissem para os pontos de apoio nas localidades. Em entrevista coletiva na manhã desta quinta-feira, o prefeito Marcelo Crivella fez um apelo para que as pessoas evitem sair de casa, principalmente no final da tarde, pois há previsão de mais chuvas nesta quinta-feira. “Temos várias áreas de risco na cidade, o solo está encharcado e pode haver mais quedas de árvore. Peço que as pessoas evitem ficar nestas áreas e deem preferência ao transporte coletivo. E, se puderem, que evitem sair de casa no fim da tarde”, afirmou.

O Centro de Operações da Prefeitura registrou 170 quedas de árvore, 10 pontos de alagamentos e 104 chamados para vistoria em residências. Imagens nas redes sociais e captadas pelas televisões mostravam bairros sem luz, ruas inteiras alagadas, árvores caídas e veículos sendo levados pela força das águas. No lobby do hotel de luxo Sheraton, a água atingia a cintura das pessoas e móveis boiavam. Segundo o órgão da Prefeitura, os bairros com maior demanda são Barra da Tijuca, São Conrado, Itanhangá, Freguesia, Rocinha e Vidigal.

O dilúvio foi especialmente dramático nessas duas últimas comunidades, segundo relatos de moradores e vídeos que circularam pelas redes. A água da chuva invadiu casas, destruindo móveis e outros patrimônios. Sair e buscar um local seguro, conforme pedia o alarme que soou na Rocinha, não foi uma possibilidade para a maioria, conta o líder comunitário William da Rocinha. "Eu sai porque via o desespero das pessoas pelas mensagens. Mas me senti incapaz, estava com a água no peito", lamenta. A forte correnteza que se formou levava tudo o que havia pela frente, incluindo carros e motos — chegou a levar também um homem, conforme mostra um vídeo nas redes sociais, que conseguiu se salvar. "Recebi áudios de pessoas que estavam em suas casas vendo a água entrando e a encosta caindo, mas sem conseguir sair. Foi um desespero total", relata William por telefone. Ele ainda conta que duas das pessoas que morreram no Rio eram de sua comunidade. "Uma senhora caiu e morreu. A outra foi atingida por uma encosta que caiu".

Nesta quinta, enquanto os moradores — que também ficaram sem luz, sem água, sem transporte, sem escola e sem posto de saúde — tentavam reorganizar suas vidas, o líder comunitário afirma ter contado uns 20 carros e 30 motocicletas avariados pela chuva. "Dez motos foram jogadas de uma encosta em uma localidade de difícil acesso. Não só caíram como ficaram encobertas de lama. Foram jogadas como uma bola, batendo em tudo quanto é lugar. Muitos moradores que tiveram prejuízos não pagam seguro, então foi perda total", explica. "Toda chuva muito forte faz a gente sofrer, tem caos. Mas eu não via um caos assim desde 1995, quando varias encostas caíram e duas pessoas morreram. É um alerta de que a falta de investimento em saneamento básico leva a população a sofrer quando tem um desastre natural".

Ciclovia Tim Maia

Estou caminhando agora na Rocinha. Muitos moradores perderam móveis, os comerciantes estão limpando lojas e sao vários...

Posted by Michel Silva on Wednesday, February 6, 2019

Perto da Rocinha e do Vidigal, na avenida Niemeyer, a ciclovia Tim Maia teve um trecho que ruiu. É o terceiro desabamento desde que foi construída, em 2016. Instalada na avenida Niemeyer, que liga o Leblon a São Conrado, entre o mar e a montanha, não resistiu aos deslizamentos de terra provocados pela chuva. Na primeira vez, apenas três meses após a inauguração, uma pessoa morreu. No segundo caso, em fevereiro de 2018, e agora não houve vítimas.

O prefeito Crivella se mostrou surpreso quando questionado sobre o assunto: “É impressionante a condição desta ciclovia. Ela foi calculada para uma carga de multidão, de cima para baixo. [Da outra vez], veio uma onda de baixo para cima, e ela se rompeu. Foi feito um novo estudo para o caso de ondas e a precipitação do mar", disse ele. "Por incrível que pareça, desta vez a tragédia veio da montanha, da árvore que caiu, para qual a ciclovia não estava preparada. É impressionante como essas tragédias inesperadas acontecem. Agora, em um novo estudo, teremos que levar em consideração a profundidade e o risco de novos desabamentos de árvores”, completou.

Trecho da ciclovia Tim Mais destruído pela chuva na região de São Conrado, no Rio de Janeiro
Trecho da ciclovia Tim Mais destruído pela chuva na região de São Conrado, no Rio de JaneiroSERGIO MORAES (REUTERS)

No ano passado, o prefeito chegou a propor a instalação de 2.000 bueiros eletrônicos pela cidade para conter os alagamentos. Seus sensores, explicou na época, permitiriam controlar a quantidade de lixo acumulada e evitariam as enchentes recorrentes na cidade.

Áreas de risco

O governador Wilson Witzel se pronunciou publicamente após um voo sobre as áreas afetadas. Ele responsabilizou as prefeituras pela falta de fiscalização à ocupação desordenada das cidades e afirmou que atualmente 80.000 pessoas vivem em área de alto risco no Estado. "É preciso que cada prefeito assuma a responsabilidade de não permitir a construção em áreas de risco. Sobrevoei agora as regiões de Mangaratiba, do Vidigal, e o que assistimos foi uma ocupação absolutamente desordenada, que causa riscos de desabamento". E voltou a esquivar o poder estadual de seu pepel fiscalizador: "São anos de descaso, abandono e falta de responsabilidade dos prefeitos".

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