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Quando até o cartão postal denuncia o inferno do Rio

Moradores da Rocinha sofrem com mais de oito horas sob tiroteio. Coluna de fumaça no Dois Irmãos lembra aos banhistas de que a cidade está longe da paz

Violência na Rocinha
A coluna de fumaça do ônibus queimado vista desde Ipanema.

Não eram nem as seis da tarde quando uma praia de Ipanema lotada voltou os olhares para um dos principais cartões postais do Rio de Janeiro. Para surpresa dos banhistas, do morro dos Dois Irmãos surgia uma enorme coluna de fumaça preta sem mais explicação do que o eco de um par de explosões. Famílias de turistas argentinos desembainhavam suas câmaras e se perguntavam o que era aquilo entre a preocupação e a risada nervosa.

Aquilo era um ônibus e cones queimando na avenida Niemeyer, na altura do hotel de luxo Sheraton, do lado da outrora pacífica favela do Vidigal. Mas os cones e o ônibus incendiados em forma de protesto eram o símbolo de que, como costuma acontecer no Rio, o fogo, na verdade, estava pegando em outro lugar. Mais uma vez, na vizinha Rocinha, que sofre com tiroteios e lutas de poder entre facções armadas desde finais de setembro passado.

Uma operação policial contra traficantes iniciada às seis da manhã desta quinta desdobrou-se em intensos tiroteios por mais de oito horas. Os disparos começaram por volta das 9h30 e foram até umas 17h30, quando começou a manifestação, segundo registrou o aplicativo colaborativo Fogo Cruzado que verifica os relatos de disparos no Estado do Rio. A delegacia da região, na frente da comunidade, teve que ser cercada por agentes após criminosos ameaçarem com um ataque.

Houve, oficialmente, quatro policiais e três supostos traficantes feridos. A contagem da PM contempla apenas um morador baleado, embora os vizinhos da comunidade falem de mais pessoas atingidas pelos tiros. "O Governo está destruindo a Rocinha para ajudar outra facção criminosa a entrar no lugar da que está aqui e com isso nós estamos no meio deste inferno, sem luz, sem água e sem segurança", disse um morador ao EL PAÍS. Ele falava de um hospital, onde acompanha um sobrinho baleado dentro de casa.

Um jovem carrega seu cachorro baleado durante o tiroteio na Rocinha.
Um jovem carrega seu cachorro baleado durante o tiroteio na Rocinha. AP

Os confrontos entre facções para tomar o controle do território e as incursões policiais passaram a se tornar rotina na Rocinha no final de setembro, quando uma cisão entre líderes de Amigos dos Amigos (ADA), a facção que dominava o tráfico na comunidade, levou até as Forças Armadas a cercar o local por uma semana.

O cerco não serviu para impedir confrontos e a fuga dos responsáveis pelo conflito que acabaram mudando de facção e entregando o mais rentável ponto de drogas da cidade à maior facção do Rio, o Comando Vermelho, considerada mais sanguinária que suas concorrentes. Em dezembro, a polícia prendeu Rogério 157, o líder da Rocinha apontado com um dos pivôs da disputa e isso foi interpretado como uma vitória após meses de infrutíferas buscas. Mas as próprias autoridades reconhecem que o trono nunca fica vazio, embora deva ser conquistado com sangue.

Até a briga entre criminosos amigos se desencadear, a maior comunidade do Rio, era praticamente a única da zona sul –junto à vizinha e turística Vidigal– que mantinha uma convivência relativamente pacífica dos traficantes e as unidades de polícia pacificadora (UPP). Mas esses tempos acabaram e vielas calmas antes alegremente frequentadas por turistas são agora cenário de acerto de contas.

A instabilidade na Rocinha, que chegou a ser símbolo de sucesso da UPP, é mais uma lembrança da crise de segurança que vive o Estado – o Fogo Cruzado registrou 5.993 tiroteios em 2017, 16 por dia, um aumento de 28% em comparação com o ano anterior. Representa também um símbolo do desafio do Governo de manter o projeto de pacificação enquanto algumas unidades caem aos pedaços e os policiais não acreditam mais no projeto. Mas não é a única. Longe de Ipanema e os turistas argentinos, moradores da favela do Jacarezinho, do Complexo de Alemão e de Cidade de Deus, apenas para citar os exemplos mais recorrentes, corriam para se refugiar de novos tiroteios.

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