Battisti, uma página da história da Itália atrás das grades após quatro décadas

O ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, agradeceu ao presidente Jair Bolsonaro: "Estamos empenhados em nos reunir em breve para fortalecer as ligações"

O ex-terrorista de extrema esquerda, Cesare Battisti, ao chegar na segunda-feira ao aeroporto de Ciampino em Roma.
O ex-terrorista de extrema esquerda, Cesare Battisti, ao chegar na segunda-feira ao aeroporto de Ciampino em Roma.Antonio Masiello (Getty Images)

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Cesare Battisti voltou a pisar em solo italiano 37 anos após ser condenado. A notícia, dizem todos os atores políticos do atribulado panorama italiano, é boa para o país. Será julgado e cumprirá a prisão perpétua que lhe foi imposta há mais de três décadas por quatro assassinatos. Era procurado desde dezembro após o Brasil, onde vivia legalmente desde 2011, ordenar sua extradição como gesto de seu novo presidente, Jair Bolsonaro, ao ministro do Interior italiano, Matteo Salvini. Mas o périplo de Battisti é longo, complexo e faz parte de uma ferida aberta pela qual ainda supura parte da história da Itália. De fato, outros 33 terroristas continuam foragidos aproveitando leis de países como o Reino Unido e a França, que lhes concederam asilo se depusessem as armas.

Battisti foi preso no sábado na Bolívia, onde estava ao acabar a proteção que teve por anos no Brasil, e chegou na segunda-feira ao aeroporto romano de Ciampino, de onde foi levado à prisão da Sardenha. O ex-terrorista, como afirmou um dos filhos de Bolsonaro, é um “presentinho” enviado pelo mandatário ultradireitista a Matteo Salvini. Por isso, e porque a foto valia milhares de cliques nas redes sociais, o ministro do Interior esperou Battisti descer as escadas do Falcon 900, cercado de agentes, sem algemas com a cabeça erguida e um leve sorriso.

No aeroporto estavam policiais armados até os dentes, helicópteros sobrevoando a área e franco-atiradores nos telhados. O dispositivo de segurança não parecia o de um velho foragido que viveu na França, onde chegou a ser um bem-sucedido autor de romances noir, e no Brasil durante três décadas sem a necessidade de se esconder graças à proteção de seus presidentes: primeiro de François Mitterrand e depois de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Uma proteção dolorosa às vítimas de Battisti, que na segunda-feira comemoraram muito sua prisão.

Na pista o ministro da Justiça, Alfonso Bonafede, fundamental para o processo de extradição, também quis tirar uma foto. Mas Salvini, que voltou a colocar uma blusa da polícia, monopolizou a situação. De fato, o líder da Liga deu uma entrevista coletiva na própria pista do aeroporto. “Quem erra paga e a Itália é um país soberano, livre, respeitado e respeitável e essa captura significa que há uma mudança de mentalidade no mundo e que após 37 anos conseguimos prender um delinquente, um infame, um assassino, um velhaco que nunca pediu perdão”, disse o ministro.

Battisti, que inicialmente deveria ir à prisão de Rebibbia, foi levado à uma sala policial do aeroporto e enviado à prisão de Oristano, na ilha da Sardenha. Uma mudança de destino decidida por motivos de segurança e pela possível convivência com presos próximos a Battisti, que cumprirá sua prisão perpétua sem benefícios penitenciários. Uma situação que teria evitado se fosse extraditado do Brasil, por um acordo bilateral de 2017 que comuta essa condenação a 30 anos de prisão.

Battisti aterrissa em Roma, na segunda-feira.
Battisti aterrissa em Roma, na segunda-feira.Antonio Masiello (Getty Images)

O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, disse que conversou por telefone com Bolsonaro em que foi combinada a extradição diretamente da Bolívia e não do Brasil, apesar do presidente querer que o réu passasse por Brasília. Salvini disse em seu perfil no Twitter que também conversou por telefone com Bolsonaro: "Reiterei o agradecimento por nos permitir encerrar a questão #Battisti e estamos empenhados em nos reunir em breve para fortalecer as ligações entre os nossos povos e os nossos governos, bem como a nossa amizade pessoal".

Na segunda-feira o irmão de Battisti, Vincenzo, voltou a defender sua inocência. “Os processos foram conduzidos sem que ele pudesse estar presente. Para mim não matou ninguém”. O ex-membro dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), um dos grupos terroristas de extrema esquerda nos anos de chumbo italianos, se refugiou na França em 1990, onde viveu onze anos como refugiado político graças à lei de François Mitterrand que dava abrigo a ex-terroristas de esquerda que depusessem as armas (ainda restam dezenas desses foragidos). Em 2004, quando a França pretendia revogar sua condição de refugiado político, viajou ao Brasil, onde foi preso pela primeira vez em 2009, mas a Justiça brasileira e principalmente o à época presidente Lula se negaram a entregá-lo.

Battisti jamais viveu escondido. Pelo contrário, pôde levar uma vida completamente normal e gozar de certo prestígio em determinados círculos da esquerda. Sua situação, entretanto, piorou durante o Governo de Michel Temer, que em dezembro assinou o decreto para sua prisão quando a Suprema Corte brasileira ordenou sua prisão “imediata” para extraditá-lo, provocando sua última grande fuga. Foi detido em estado de embriaguez e praticamente sem oferecer resistência.

Os assassinatos de Battisti

Battisti, ex-membro dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), um braço das Brigadas Vermelhas, foi condenado à prisão perpétua por seu envolvimento (direto e indireto) em quatro assassinatos que nunca reconheceu e que atribuiu aos tempos convulsos que vivia a Itália, em que a promiscuidade entre terrorismo, máfia e serviços secretos tornaram impossível em tantos casos determinar onde se escondia a verdade.

Pier Luigi Torregiani: joalheiro. Em 16 de fevereiro de 1979, um comando dos PAC matou Pier Luigi Torregiani em sua joalheria em Milão diante dos olhos de seu filho de 15 anos, Alberto, que ficou tetraplégico. "Agora, as vítimas podem descansar em paz", disse na segunda-feira quando soube da notícia. Battisti ordenou esse ataque porque o joalheiro havia se defendido em uma tentativa de roubo.

Lino Sabbadin: açougueiro de extrema direita. No mesmo dia de fevereiro, Battisti deu cobertura a companheiros que atacaram seu estabelecimento em Mestre, próximo a Veneza. Os motivos também foram pela resistência do comerciante a uma tentativa de assalto em que, também, matou um terrorista. Battisti foi declarado cúmplice do assassinato. "Esperava por esse dia há 40 anos", disse à imprensa italiana seu filho Adriano, que tinha 17 quando o crime ocorreu.

Antonio Santoro, funcionário de prisão. Em 6 de junho de 1978 em Udine (nordeste), Battisti pessoalmente atirou em Antonio Santoro, de 51 anos e vigilante da cadeia da cidade. O terrorista foi condenado por assassinato.

Andrea Campagna, motorista da polícia. Em 19 de abril de 1979, Battisti assassinou em Milão Andrea Campagna, de 24 anos, motorista da Digos, os serviços especiais da polícia italiana. Era um simples motorista sem participar das tarefas de investigação. Battisti foi condenado por ter ele mesmo apertado o gatilho.