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Taurus, ascensão de uma fabricante de armas com Bolsonaro

Chegada do ultradireitista ao poder faz disparar as ações, mas cifras não ofuscam crise profunda da empresa

Taurus armas
Armas da fabricante Taurus, exibidas em uma feira internacional de produtos de defesa no Rio do Janeiro.

Durante sua triunfante campanha presidencial, Jair Bolsonaro popularizou um gesto entre seus seguidores: os braços flexionados e as mãos fechadas, exceto pelo polegar e o indicador, estendidos para simbolizar um revólver. A pose revela uma promessa de campanha: o desejo de liberalizar ainda mais a posse e o porte de armas de fogo e, nesta terça, ele deu o primeiro passo para concretizá-la: assinou decreto que flexibiliza as regras para a posse de armas no Brasil. No último dia 29, três dias antes de sua posse, Bolsonaro já havia tuitado sua vontade de garantir o maior acesso “para os cidadãos sem antecedentes penais”. E, com isso, fez disparar novamente as ações da Taurus, o maior fabricante de brasileiro de armas de fogo, que respondem por 86% do seu faturamento. Nesta terça, a empresa abriu em alta, mas depois despencou, com os investidores querendo levar para casa os lucros e o debate sobre a situação financeira da empresa. Seja como for, a empresa ainda acumula 82% de alta só em 2019.

Não é um movimento de agora. As ações da companhia, há anos negociadas sem grandes alterações na Bolsa de São Paulo, já tinham começado a disparar à medida que o ultradireitista se consolidava nas pesquisas. De 2,38 reais em 30 de agosto, os títulos saltaram para mais de 11 reais em 26 de outubro, o último dia útil antes do segundo turno eleitoral. E, depois de afundarem na mesma velocidade, voltaram a subir depois da posse do presidente.

É verdade que, com uma alta superior a 250%, essa foi a empresa que mais se valorizou nos últimos 12 meses na Bolsa brasileira; também é fato que, com uma capitalização em torno de meio bilhão de reais e 18,2 milhões de ações circulantes, esse valor é tremendamente volátil, e sua explosão nas cotações parece meramente especulativa. Principalmente porque os dados estão longe de mostrar um panorama cor de rosa. “É verdade que as cifras melhoraram”, comenta por telefone Felipe Tadewald, da consultoria Suno Research. “Mas avaliamos que estão muito longe do ideal, e que o otimismo é exagerado.”

Nos primeiros nove meses de 2018, a Taurus faturou 623,5 milhões de reais, 16% a mais que no ano anterior. Mas os prejuízos chegaram a 50 milhões de reais. E, o que é mais importante: no final do exercício de 2017, o passivo da empresa ascendia a mais de 1,2 bilhão de reais, 445 milhões acima do ativo. A empresa diz ter obtido um alívio depois de uma renegociação da dívida que posterga muitos dos vencimentos pendentes.

Imenso potencial

O mercado das armas de fogo tem imenso potencial no Brasil, graças à preocupação da classe média com um cenário de violência que, nos nove primeiros meses de 2018, causou a morte a 39.183 pessoas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Este foi um dos motivos pelos quais uma proposta para restringir a posse legal de armas de fogo e munições foi sonoramente rejeitada (por mais de 59 milhões de votos, ou 63,9% do total) num plebiscito realizado em 2005 no Brasil, durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas o crescimento de Bolsonaro deu novos brios ao mercado, e a Taurus embarcou nessa onda sem pensar duas vezes. Pôs à venda sua divisão de capacetes para motocicletas e trocou seu histórico nome Forjas Taurus por Taurus Armas.

Sobretudo, mostrou publicamente seu alinhamento com as ideias do novo presidente. “O Brasil está mudando”, anunciava com pompa um vídeo apresentado a acionistas e analistas em 14 de dezembro. “Acreditamos neste novo momento (...). Estamos preparados para um novo Brasil”, acrescentava o texto. “[Bolsonaro] vai ser o 38º presidente”, brincava o principal executivo da companhia, Salesio Nuhs, durante essa mesma apresentação. “Isso é um bom sinal”, acrescentava, em referência ao popular revólver calibre 38.

O presidente do Taurus, Salesio Nuhs (à direita), posa com Jair Bolsonaro no dia da posse deste como presidente.
O presidente do Taurus, Salesio Nuhs (à direita), posa com Jair Bolsonaro no dia da posse deste como presidente.

Nuhs, que também encabeça a entidade setorial ANIAM, esteve presente na posse de Bolsonaro e dos seus ministros. O presidente respondeu a esse apoio posando num vídeo com um dos mais recentes rifles de assalto da firma e repetindo seu lema: “Um povo armado nunca será escravizado”.

Mas, mesmo que Bolsonaro flexibilize a venda de armas, “isto não significa que as armas serão produtos com um custo acessível, e menos ainda com uma manutenção barata”, diz a consultoria Toro Investimentos. “Isto pode limitar o esperado crescimento exponencial.” Além disso, outro dos objetivos do novo presidente e da chamada Bancada da Bala é flexibilizar o R-105, regulamento de 1936 que restringe a importação de armas de fogo se o produto estrangeiro competir com o nacional. “O objetivo é romper o monopólio da Taurus em determinados mercados”, diz Tadewald.

E a Taurus precisará de muito sucesso no Brasil para contrabalançar os problemas em seu maior mercado, os Estados Unidos, que representam 68% de seu faturamento. Lá, a empresa assumiu a quarta posição no ranking de vendas, tornando-se o “rei das armas baratas”. Sua pistola Taurus 85, uma versão similar à Smith & Wesson 60, mas vendida pela metade do preço, há anos é uma das armas mais vendidas nas lojas dos EUA.

Mas, paradoxalmente, a ascensão de Donald Trump à presidência causou uma queda nas vendas de armas de fogo. Impressionados com uma campanha catastrofista da indústria e da Associação Nacional do Rifle, muitos norte-americanos se apressaram em adquirir armas de fogo em 2015 e 2016, prevendo um endurecimento das condições de compra que afinal não ocorreu.

Além disso, as matanças dos últimos anos (em especial, a do colégio Stoneman Douglas, em Parkland, na Flórida, em fevereiro do ano passado) desencadearam uma maior conscientização e um crescente ativismo da opinião pública contra as armas de fogo, o que teve reflexo tanto em Wall Street (a gestora de fundos Blackrock anunciou em 2018 que será mais rigorosa com as empresas do setor) como no setor varejista (empresas como Walmart e Dick’s restringiram as vendas).

Como se fosse pouco, a imagem da Taurus nos EUA se viu manchada por vários problemas de qualidade. Em 2016, a empresa fechou um acordo, num valor estimado em 239 milhões de dólares (885 milhões de reais), pelo qual se oferecia a retirar de circulação cerca de um milhão de pistolas com defeito de fabricação — as armas disparavam mesmo com a trava acionada.

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