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Ações da Taurus pegam carona em Bolsonaro, mas estrangeiras ameaçam aguar festa

Principal fabricante de armamentos do país viu suas ações valorizarem na campanha e desvalorizarem após eleições, com a possibilidade de abertura para estrangeiras

Homem segura pistola da Taurus em São Paulo.
Homem segura pistola da Taurus em São Paulo. EFE

A Forjas Taurus, maior fabricante de pistolas, revólveres e submetralhadoras do Brasil e uma das três maiores do mundo no setor de armas leves, foi do céu ao inferno com a campanha de Jair Bolsonaro. A empresa, que exporta para mais de 70 países e no Brasil tem praticamente o monopólio do mercado, armando todas as polícias e forças de segurança do país, viu suas ações preferenciais subirem vertiginosamente ao longo da disputa eleitoral. Num mercado ávido por negociar papeis relacionados à eleição, a empresa entrou na mira impulsionada pelas promessas de flexibilização do Estatuto do Desarmamento, lei que restringe a posse (ter arma em casa) e o porte (andar armado) feitas pelo futuro mandatário brasileiro. Os papeis da empresa valorizaram mais de 500%, de 2 reais em junho para o pico de 12 reais em 19 de outubro. Agora, após a eleição do capitão, a empresa volta amargar a normalidade: os investidores avaliam tanto a situação financeira atual da companhia como seus problemas futuros: Bolsonaro já anunciou que pretende aplicar medidas que podem ampliar a concorrência à empresa no mercado local. A tendência de alta começa a se inverter: na terça-feira as ações preferenciais da empresa fecharam o dia cotadas a 5,00 reais.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o presidente das Forjas Taurus, Salesio Nuhs, afirmou que o salto na cotação das ações da empresa é algo descolado das eleições e se deveu a uma melhoria na gestão. De acordo com ele, as eleições são um "fator externo sem nenhuma gerência por parte da companhia". André Perfeito, economista-chefe da corretora Spinelli, afirma que o movimento de alta nos papéis se deu em função da leitura dos investidores. “O mercado financeiro buscou boas oportunidades nas ações oferecidas, e tendo em vista o perfil armamentista de Bolsonaro, buscou aquilo que melhor representaria a vitória da capitão”, diz. “Assim a Taurus se tornou uma espécie de vedete (do mercado) do mercado", segue Perfeito.

Para o analista, o que contou para a queda agora foi a chamada "realização dos lucros" –depois de um pico de alta por um fator externo, os operadores vendem ações para ajustar preços. Outros nomes do mercado agora passam a citar preocupação com a saúde fiscal da empresa, que tem 799 milhões de reais em dívida. Outro fator pode não apenas alterar a Bolsa como afetar o futuro da empresa: durante a campanha, o capitão reformado do Exército já havia afirmado reiteradas vezes que planejava “quebrar o monopólio da Taurus”. O então candidato sinalizou que abriria o mercado brasileiro para fabricantes de outros países.

A consolidação da Taurus no Brasil contou com uma ajudinha protecionista. Na década de 1930, o Exército determinou a proibição da importação de armas de fogo nos caso em que existam similares de fabricação nacional. A boa vontade do Governo é retribuída pela empresa com pequenos favores. No início deste ano a fabricante doou 100 para serem usados pelas forças da intervenção federal no Rio.

Desde o final do ano passado vários fabricantes de armas sinalizaram interesse em produzir no país. A multinacional Ruag, sediada na Suíça, foi a primeira estrangeira a obter autorização do Governo para se instalar aqui. Outras marcas, como a Glock (Áustria), CZ (República Checa) e Caracal (Emirados Árabes Unidos), negociam a vinda para o Brasil. Em entrevista ao Valor Econômico, o representante da Caracal, Paulo Humberto Barbosa, afirmou que se reuniu com Bolsonaro em 2017, e não escondeu sua predileção pelo capitão: “O PT é desarmamentista. Com Bolsonaro teremos uma satisfação maior de atuar no Brasil porque ele é um defensor do direito de pessoas de bem terem armas", disse ele. "A tendência é que aumente a demanda por armas no Brasil. É um cenário promissor".

Se tiver de enfrentar a concorrência externa, a Taurus pode ter problemas. Contra a empresa pesam acusações de que uma de suas principais pistolas, modelo 24/7, usada por policiais em todo o país, dispare sozinha em várias situações, tendo feito várias vítimas fatais. O grande número de incidentes fez com que a Polícia Militar de São Paulo conseguisse uma autorização especial para abrir licitação para comprar armamento estrangeiro. A vencedora foi a Glock. Em nota enviada anteriormente para a reportagem, a Taurus afirmou que “todos os esclarecimentos pertinentes já foram fornecidos aos órgãos competentes e nos foros adequados, de forma a demonstrar que as alegações contra a companhia não têm fundamento”.

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