A congressista negra que abriu caminho para a Câmara mais diversa dos EUA

Nova York dedica estátua a Shirley Chisholm, pioneira na política norte-americana que chegou a disputar primárias presidenciais

Shirley Chisholm, numa manifestação na Union Square, em Nova York, em maio de 1972.
Shirley Chisholm, numa manifestação na Union Square, em Nova York, em maio de 1972.Keystone Pictures USA/ZUMAPRESS

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O primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Alexander Hamilton, o líder da independência de Cuba, José Martí, o abolicionista afro-americano Frederick Douglass, o escritor inglês William Shakespeare, o presidente Abraham Lincoln, o compositor Mozart... todos têm em comum a contribuição que fizeram para a história, e por isso contam com monumentos em Nova York. Além de serem todos homens.

Das cerca de 150 estátuas de Nova York, apenas cinco representam mulheres: Joana D’Arc, Golda Meir, Gertrude Stein, Eleanor Roosevelt e Harriet Tubman. A lista não inclui as personagens fictícias femininas que têm monumentos, como a escultura de Alice no País das Maravilhas no Central Park.

Com o objetivo de aumentar a representação de mulheres em espaços públicos, a cidade promove a iniciativa She Built NYC (ela construiu a cidade de Nova York) e acaba de anunciar que a primeira congressista negra dos Estados Unidos, Shirley Chisholm, será a primeira homenageada. A notícia foi divulgada no dia em que ela faria 94 anos, coincidindo com o 50º aniversário de sua eleição para a Câmara de Representantes.

Chirlane McCray, esposa do prefeito Bill de Blasio, no anúncio do monumento em homenagem a Shirley Chisholm.
Chirlane McCray, esposa do prefeito Bill de Blasio, no anúncio do monumento em homenagem a Shirley Chisholm.Ed Reed

“O legado de liderança e ativismo da congressista Shirley Chisholm preparou o caminho para que milhares de mulheres buscassem cargos públicos”, afirmou Chirlane McGray, esposa do prefeito de Nova York, Bill de Blasio. “Ela é exatamente o tipo de mulher de Nova York cujas contribuições deveriam ser condecoradas com representações em espaços públicos.”

“Com coragem”

Shirley Chisholm (1924-2005) era filha de emigrantes de Barbados e da Guiana que foram morar em Nova York na década de 1920. Passou a infância entre a fazenda da avó materna no Caribe e um apartamento no bairro de Bedford-Stuyvesant no Brooklyn, cuja população era — e continua sendo — majoritariamente negra.

Em 1968, apenas nove dos 435 membros da Câmara de Representantes eram afro-americanos: oito homens e ela. Na época, 11 cadeiras eram ocupadas por mulheres; destas, só Shirley Chisholm e a asiático-americana Patsy Mink, eleita em 1964, não eram brancas.

“Por que é aceitável que as mulheres sejam secretárias, bibliotecárias e professoras, mas não que sejam diretoras, gerentes, médicas, advogadas e integrantes do Congresso?”, declarou Shirley Chisholm em 1969, ao defender a Emenda pela Igualdade de Direitos das Mulheres, que até hoje não foi ratificada pelos 38 Estados necessários. Ela ocupou sua cadeira durante 14 anos; antes, havia se dedicado à educação infantil.

Das cerca de 150 estátuas de Nova York, apenas cinco representam mulheres: Joana D’Arc, Golda Meir, Gertrude Stein, Eleanor Roosevelt e Harriet Tubman

Em 1971, ao lado de Gloria Steinem, Bella Abzug e Betty Freidan, Shirley Chisholm fundou a Assembleia Política Nacional de Mulheres (NWPC, em inglês), uma organização de incentivo à participação política de mulheres. “A reunião inaugural em Washington congregou mais de 300 participantes. Foi a primeira vez, em grande escala, que se pedia a elas que fossem candidatas”, diz sua presidenta, Donna Lent.

Em 1972, Shirley Chisholm inclusive se apresentou nas primárias presidenciais com o slogan Unbought and Unbossed (nem comprada, nem mandada) sem grande apoio entre os líderes negros, obtendo mais de 400.000 votos em 14 Estados. Não ganhou, mas passou à história como a primeira pessoa não branca no processo de nomeação de um dos grandes partidos e primeira mulher do partido Democrata. Ela divide os dois títulos com Patsy Mink, que também disputou as primárias.

“Existem pessoas em nosso país que não olham para a direita ou para a esquerda, simplesmente olham para frente”, disse Barack Obama sobre Shirley Chisholm em 2015, durante a entrega póstuma de sua Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta distinção concedida a civis nos EUA. “Quando lhe perguntaram como queria ser lembrada, ela respondeu: ‘Gostaria que dissessem que eu tinha coragem’”, concluiu o ex-presidente.

A atriz e ativista negra Viola Davis, de filmes como Um Limite Entre Nós e Histórias Cruzadas, anunciou que prepara um filme biográfico com a Amazon Studios, intitulado The Fighting Shirley Chisholm.

Congressistas muçulmanas, não brancas e lésbicas fazem história

“Um dos primeiros slogans da NWPC foi Quando as mulheres disputam eleições... as mulheres vencem. E foi o que aconteceu. Em 2019, teremos o Congresso mais diverso da história e um número recorde de mulheres, incluindo nove governadoras”, afirma Donna Lent.

A Câmara de Representantes terá mais de 100 mulheres, em alguns casos pioneiras como porta-vozes de grupos etnorraciais e religiosos. A somali-americana Ilhan Omar (Minnesota), de 38 anos, e Rashida Tlaib (Michigan), de origem palestina, são as primeiras congressistas muçulmanas. Foram também eleitas pela primeira vez as nativas Deborah Halan (Novo México) e Sharice Davids (Kansas), que é abertamente lésbica. Outras pioneiras são Jahana Hayes (Connecticut) e Ayanna Pressley (Massachusetts), afro-americanas eleitas pela primeira vez para representar Estados da região de Nova Inglaterra.

“Sua liderança preparou o caminho de muitas”, declarou Ilhan Omar nas redes sociais, no dia do aniversário de Shirley Chisholm. “Me disseram muitas vezes que esperasse minha vez para liderar. Graças a mulheres fortes como Shirley Chisholm, eu sabia que podia fazer isso.” Ayanna Pressley fez uma selfie no Congresso com uma imagem da pioneira e publicou a mensagem “Obrigada a ela”.

Nova York homenageará Shirley Chisholm por seu compromisso com a justiça social. A lista completa de candidatas a terem estátuas inclui centenas de nomes de mulheres que contribuíram em áreas como o ativismo, o urbanismo, a música e a ciência. Entre elas, a congressista e líder feminista Bella Abzug, a teórica do urbanismo Jane Jacobs, a fundadora da Manhattan School of Music, Janet Schenck, e a mulher do principal engenheiro da Ponte do Brooklyn, Emily Warren, que se encarregou da construção quando ele adoeceu.

O monumento será erguido ao lado de uma das entradas do Brooklyn Prospect Park, insígnia desse distrito de Nova York. “Servirá de inspiração a todos os nova-iorquinos”, afirmou a secretária de Habitação e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Nova York, Alicia Glen.