Trump ameaça suspender ajuda à América Central e fechar a fronteira com o México

O presidente dos EUA insiste em sua provocação se os democratas barrarem o muro e não cederem às reclamações que causaram o fechamento parcial do Governo

Imagem do muro entre os EUA e o México.
Imagem do muro entre os EUA e o México.PAUL RATJE (AFP)

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Quando o Governo dos EUA encarava seu sétimo dia de fechamento parcial, sem vislumbre de solução à vista, o presidente Donald Trump ameaçou nesta sexta-feira fechar a fronteira sul do país e reduzir a zero a ajuda à América Central se os democratas do Congresso resistirem a aprovar o financiamento de seu projeto de levantar um muro separando Estados Unidos do México.

“Nos veremos obrigados a fechar a fronteira sul completamente se os democratas obstrucionistas não nos derem dinheiro para terminar o muro”, disse Trump em um tuíte na primeira hora da manhã do dia 28 de dezembro. O presidente, além disso, cancelou seus planos de passar o ano novo na Flórida e ficará em Washington, onde um quarto do Governo Federal permanece fechado desde sábado passado.

Os democratas seguem firmes em sua recusa a financiar o muro da fronteira, promessa-chave do presidente republicano. O Congresso se recusou a tentar encontrar uma saída imediata para o fechamento, que afeta 800.000 funcionários, e que se prolongará sem dúvida até o início do novo ano. Em 3 de janeiro tomará posse o novo Congresso, fruto das eleições legislativas de novembro passado, nas quais os democratas recuperaram a maioria dos assentos na Câmara.

Honduras, Guatemala e El Salvador não fazem nada pelos Estados Unidos além de levar nosso dinheiro. Dizem que uma nova caravana está se formando em Honduras e não estão fazendo nada a respeito. Cortaremos toda a ajuda a esses três países, que se aproveitam dos Estados Unidos há anos!”, afirmou Trump em outro tuíte, sem incluir outras informações.

A ameaça de cortar a ajuda a esses países latino-americanos já foi levantada por Trump durante a campanha legislativa passada, enquanto uma caravana com milhares de pessoas centro-americanas em busca de asilo atravessava o México rumo à fronteira com os Estados Unidos. Mas, na semana passada, Washington anunciou uma contribuição de quase 6 bilhões de dólares em um novo programa bilateral, em colaboração com o novo Governo mexicano, para tentar conter a migração centro-americana.

Hoje, a ajuda estadunidense representa cerca de 0,3% do PIB de Honduras, 0,2% do de El Salvador e menos de 0,1% do da Guatemala. No total, o chamado Triângulo do Norte centro-americano recebeu 539 milhões de dólares dos EUA. O maior receptor – e também o maior país da região – foi a Guatemala (249 milhões), seguido de Honduras (175 milhões) e El Salvador (115 milhões), segundo a USAID, agência norte-americana para o desenvolvimento. O tuíte de Trump coincide com uma progressiva redução da assistência à América Central, reduzida a 460 milhões de dólares, o que representa um corte de quase 15% em relação ao ano anterior.

“O impacto é, obviamente, mais político do que econômico, porque a ajuda não é significativa em termos de orçamento nacional. Afeta sim programas muito específicos nas regiões de maior pobreza, que é onde a USAID investe. O fim desse auxílio não teria um impacto nacional, mas localizado”, afirmou da Guatemala Manfredo Marroquín, representante da ONG Transparência Internacional no país centro-americano.

Segundo a WOLA, o escritório de Washington para a América Central, a ajuda dos Estados Unidos para esses países já desacelerou e espera-se que diminua ainda mais em 2019, o que provocará um aumento das caravanas de imigrantes que tentam chegar ao norte. “Encerrar a assistência minaria os esforços para abordar os fatores que estimulam a migração”, afirmou Adriana Beltrán, diretora de Segurança Populacional da WOLA, uma ONG que monitora a assistência norte-americana à América Central.

A decisão de Trump de reduzir ou suspender, se seu anúncio no Twitter for confirmado, a ajuda à América Central, chega em um momento de grandes disputas internas e depois da decisão de El Salvador de romper relações com Taiwan (um território que Pequim reclama como próprio) em troca de um intercâmbio melhor com a China, o que originou a raiva de Washington que vê nesse país um dos aliados-chave na região.

Ainda que não haja ainda resposta oficial dos países afetados, os Governos do Triângulo Norte exigem que os EUA correspondam suas exigências de luta contra as drogas com um orçamento estável que permita a luta contra a corrupção, a construção de infraestrutura e melhorias na segurança, mediante o combate a gangues e o reforço da segurança da fronteira.

Entre os pedidos que poderiam ser afetados está o do presidente da Guatemala, Jimmy Morales, que durante uma visita recente a Washington solicitou ao vice-presidente Mike Pence ajuda para obter um crédito de 15 bilhões de dólares para infraestrutura do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), instituições nas quais os EUA têm um peso importante.