Jean Wyllys: “As fake news promovem atos de violência que podem me atingir”

Em depoimento ao EL PAÍS, deputado federal do PSOL relata rotina de difamação e ameaças que recebe há anos. "Afeta muito minha saúde física e emocional", afirma ele

O deputado federal Jean Wyllys.
O deputado federal Jean Wyllys. (Facebook)

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Em depoimento ao EL PAÍS, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL) relata uma rotina de difamação e ameaças que vem alterando sua rotina. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, vinculada a OEA, demandou proteção ao parlamentar e que essas ameaças sejam apuradas. Leia abaixo os principais trechos de seu relato.

"Semanas atrás, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos solicitou ao Governo brasileiro que tome medidas para proteger minha vida e integridade pessoal. Também pediu que sejam investigadas as ameaças e a difamação de que sou vítima através de fake news, que aumentaram minha vulnerabilidade, ao me tornar alvo do ódio de setores da sociedade. A decisão da CIDH é uma reação da comunidade internacional à inação do Estado brasileiro diante de uma situação que tem se prolongado no tempo e que, no último ano, agravou-se muito.

Desde o início do primeiro mandato, sou alvo de fake news e campanhas difamatórias que tentam me associar à pedofilia e me colocar como ameaça para as famílias e inimigo de parte da população, particularmente dos cristãos. Para isso, atribuem a mim projetos de lei inexistentes e declarações que nunca fiz, usando vídeos editados, montagens de fotos, notícias falsas e deturpação de informações.

As fake news têm por objetivo não apenas a destruição da minha imagem e o ataque a uma agenda de direitos humanos e liberdades individuais, como também a invenção de falsas justificativas para espalhar ódio contra mim e contra minha família e promover atos de violência que possam me atingir.

A gente precisa lembrar, por exemplo, do massacre do Realengo e do mais recente em Campinas, para entender que não é só através de grupos organizados, como as milícias, que um defensor dos direitos humanos pode ser morto. Quando há uma sistemática campanha de destruição da reputação de uma pessoa através do uso de fake news para demonizá-la e transformá-la em inimiga pública, qualquer louco envenenado por esse ódio pode agir de forma individual. Houve anos atrás pessoas com esse perfil, presas pela Polícia Federal, que tinham um plano para me assassinar, mas o caso foi subestimado por todos.

As constantes ameaças de morte que recebo há anos, e que passaram a incluir referências explícitas à minha família, se intensificaram especialmente durante o processo de impeachment da presidenta Dilma e depois do assassinato da Marielle, minha colega e amiga, me obrigando a pedir escolta oficial e circular em carro blindado, restringindo meus movimentos inclusive durante a última campanha. Não posso ir a lugar nenhum sem a escolta, porque essas são as condições para me proteger, de modo que é como se eu estivesse em cárcere privado sem ter praticado crime nenhum, sendo eu a vítima. Isso tem afetado muito minha saúde física e emocional.

A decisão da CIDH põe em evidência a falta de reposta eficaz por parte do Estado brasileiro, que tem sido negligente, para dizer o mínimo, não só em identificar essas redes criminosas que me atacam, difamam e ameaçam, a mim e à minha família, mas também em elucidar a execução de minha amiga e companheira Marielle. O Estado também não levou em conta a vulnerabilidade que vem de minha orientação sexual, alvo de estigma e preconceito, e da minha identificação e compromisso públicos com as lutas em favor da cidadania LGBT, num país onde mais se mata gays, lésbicas e travestis em crimes motivados por ódio".

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