Eleições 2018

As ‘outras’ Marielles que o Rio elegeu

Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro, assessoras da vereadora, se tornaram deputadas estaduais. Já Talíria Petrone foi uma das mais votadas para a Câmara Federal

Talíria Petrone, Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro.
Talíria Petrone, Renata Souza, Mônica Francisco e Dani Monteiro.

Mais informações

Além de amigas e de pertencerem ao mesmo partido, as quatro mulheres têm em comum o fato de quererem levar adiante as pautas defendidas pela vereadora, uma árdua defensora dos direitos humanos que travava uma luta contra o racismo, o machismo, a LGBTfobia e um modelo de segurança baseado na guerra contra as drogas. A identificação com Marielle é óbvia, mas cada uma possui trajetória e brilho próprios. "Por um lado, me sinto na responsabilidade de não deixar sua memória morrer, mas eu não sou a Marielle. Não só porque eu tenho a minha trajetória, a minha história, mas porque ela foi assassinada e não está mais aqui", argumenta Talíria Petrone, que ficou em nono lugar na disputa. "É natural que as pessoas façam essa transferência, é um orgulho que lembrem da Marielle quando me veem. Mas precisamos lembrar que ela foi executada: para pedir justiça por Marielle e Anderson [o motorista que a levava e que também acabou assassinado] e para entender a urgência do momento, de levar as pautas dela adiante", acrescenta.

Petrone, que tem 33 anos, é uma professora de História niteroiense do bairro de Fonseca, na zona norte da cidade, que é vizinha ao Rio. Dava aula num cursinho pré-vestibular e numa escola pública do Complexo de Favelas da Maré, onde Marielle nasceu e cresceu. Foram lá que se conheceram e passaram a militar juntas. Uma vez dentro do PSOL, a amizade se reforçou quando se lançaram candidatas a vereadora, em 2016. "Éramos as únicas mulheres do PSOL com perfis muito semelhantes com mandato. Decidimos nossa candidatura no mesmo momento", recorda Petrone. Munida com 107.317 votos, quer levar para a Câmara dos Deputados não apenas a temática da educação —o principal eixo de sua militância— e da segurança pública. Diante do avanço ultraconservador materializado no país pelo candidato a presidente Jair Bolsonaro, pretende formar uma "frente antifascista" com os demais partidos, sejam eles de esquerda, de centro ou de centro-direita, "para derrotar o ódio e a violência e garantir a democracia". "Nossa tarefa principal é fazer a maior articulação possível", explica.

Foi no Complexo da Maré, uma das maiores favelas do Rio e onde nasceu Marielle, que Renata Souza, de 36 anos, a conheceu. Também oriunda de lá, Souza estudou com a vereadora no cursinho pré-vestibular da ONG Redes da Maré há 18 anos. Depois, enquanto estudava jornalismo na PUC-Rio, uma universidade privada onde tinha bolsa de estudos, Marielle fazia Ciências Sociais na mesma instituição. Pouco depois, em 2006, ambas ajudaram a fazer a campanha na Maré do deputado estadual Marcelo Freixo —o segundo mais votado para a Câmara dos Deputados neste ano, também pelo PSOL. As duas acabaram então sendo escolhidas para trabalhar no gabinete do parlamentar e lá ficaram durante 10 anos.

"Eu fazia a assessoria de comunicação inteira, desde newsletter até os relatórios da Comissão de Direitos Humanos. Marielle coordenou a comissão, e eu acompanhava todos temas", explica. Durante a campanha da amiga para a Câmara de Vereadores, foi sua coordenadora de comunicação. Depois, foi nomeada chefe de gabinete. "O trabalho era feito de forma muito horizontal com toda a equipe" explica. Sua candidatura surgiu depois da brutal execução de Marielle e de Anderson Gomes no dia 14 de março deste ano. "Não passava pela minha cabeça [me candidatar], ainda que não tenham faltado oportunidades nesse período de construção do partido, desde 2006. Meu trabalho era de bastidor, era fazer Marielle brilhar", conta. Com a perspectiva de que Freixo deixaria a ALERJ, Souza foi então apontada como sua sucessora. Pretende dar continuidade ao seu trabalho, sobretudo na Comissão de Direitos Humanos. "Foi um trabalho que construímos juntos nesses 10 anos. É conhecer todos os trâmites, fazer com que a ALERJ seja menos burocrática no atendimento ao público. Foi um trabalho que eu ajudei a gestar", explica.

Ao longo da campanha, Souza foi apresentada como a candidata do Freixo. Mas a referência com Marielle, reconhece, é muito forte. "Não tem como apagar da minha história. De trabalho, de construção juntas. Fizemos o primeiro congresso do PSOL na Maré. Ir para a linha de frente agora é muita responsabilidade, mas é o amadurecimento de um trabalho que começou há 12 anos", explica ela, que conquistou 63.937 votos. "Mas costumo dizer que o legado da Marielle não é o legado de uma pessoa, seria injusto com a história dela. É universal, é para a humanidade".

Se a candidatura de Souza surgiu depois da execução de Marielle, a de Mônica Francisco já estava sendo gestada pela própria vereadora, a quem conheceu durante seu trabalho com Freixo na Comissão de Direitos Humanos. "Ela entendia que minha candidatura era uma necessidade neste momento de construção do partido. E eu meio que dava uns perdidos, desconversava, porque estávamos empenhadas em fortalecer e construir a Marielle. A decisão mesmo veio depois de sua morte", explica.

Nascida no morro do Borel, na zona norte do Rio, Francisco, 48 anos, é também pastora evangélica e cientista social. Há 30 anos é ativista dos direitos humanos e, uma vez que se juntou ao gabinete da vereadora, fez parte da equipe de favelas e liderava os trabalhos da frente parlamentar da economia solidária, uma de suas especialidades. Agora, após ter conquistado 40.631 votos, pretende levar suas pautas adiante e continuar aproximando o campo progressista do eleitorado evangélico. "Existe uma frente de evangélicas pela legalização do aborto, assim como uma frente cristã antifascista. A cristandade católica e evangélica não é homogênea. Precisamos ampliar o olhar e fazer a disputa dentro desse campo", argumenta. "A Bíblia não é antagônica com a justiça social. É organizar o povo, é fraternidade, solidariedade, justiça... A deturpação de sua mensagem é tendenciosa e deliberada".

Diante de uma maioria ultraconservadora que também estará presente na ALERJ a partir do ano que vem, promete levar "a defesa incondicional dos processos democráticos" e fazer uma oposição responsável, tentando até o último momento dialogar e "fazer pontes", ao mesmo tempo entendendo "as diferenças ideológicas muito grandes", explica. "Isso eu levo da minha experiência da vida, do papo reto. O papo reto na favela é sobreviver. É a capacidade de diálogo firme e muito coerente".

A caçula da turma se chama Daniela —ou só Dani— Monteiro. Com apenas 27 anos, está muito vinculada ao movimento estudantil da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde começou a estudar Ciências Sociais em 2010. "Foi quando comecei a militar, por causa da dificuldade de permanecer na universidade, que não contempla o jovem negro que entra por cotas. Elas são importantes, mas a falta de assistência dificulta a permanência", explica ela, nascida e criada no Morro São Carlos, no centro do Rio. Foi por causa dessa dificuldade que trancou o curso, a partir de 2011, para poder trabalhar. Voltou em 2015 quando passou a ser permitido acumular a bolsa permanência com a bolsa de iniciação científica, que somadas dão quase um salário mínimo. Nesse período fora, contudo, sua vida como ativista continuou. Coincidiu com as manifestações de junho de 2013, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 —e as desapropriações que ocorreram por causa dela. "Em 2012, com a campanha do Freixo para a prefeitura, me aproximei das lutas do PSOL, me filiei e participei da construção dos núcleos de base, de território", conta.

Com a eleição de Marielle em 2016, passou a construir com ela políticas públicas para a juventude, principalmente a negra e sem perspectiva, que visavam sobretudo a geração de renda e emprego. Foi também quando começou a pensar em voo próprio e se candidatar. Com seus 27.982 votos, a partir do ano que vem levará essas mesmas temáticas da juventude para o debate estadual. "Marielle sempre lidou com mães de vítimas de violência do Estado, que perderam seus filhos ou viram serem encarcerados. E isso também cai nessa questão da juventude". Conciliará esta nova etapa com o término de seus estudos, previsto para o final de 2019. Por fazer parte, junto com seus irmãos, da primeira geração de sua família que teve acesso ao ensino superior, sua formatura é também de enorme importância.