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Migrantes, refugiados: o relato de um êxodo

Várias novidades editoriais retratam as violências sofridas no México, América Central e EUA por migrantes em busca de uma vida melhor

A caravana de migrantes no México.
A caravana de migrantes no México.

Duas primas observam as águas do rio Bravo, que serve de fronteira entre México e Estados Unidos. Uma carrega um bebê nos braços. São parte de um grupo de migrantes que leva semanas viajando desde a América Central. A ponto de chegar à terra prometida, o rio as detém. As primas olham a corrente. Devem atravessar nadando, flutuando, agarradas a uma corda, resistindo à força da água e ao frio. “Acho que vou morrer”, diz uma delas, a do bebê. “Eu não lhe digo nada”, diz a outra, a narradora desta história. “Porque eu também acho que vou morrer”.

São testemunhos reunidos por Juan Pablo Villalobos em Yo Tuve un Sueño (“eu tive um sonho”), seu último livro, lançado este ano na Espanha pela editora Anagrama. É uma janela aberta para os caminhos percorridos por crianças e adolescentes que saíram da América Central em busca de refúgio, asilo, descanso: um futuro melhor nos Estados Unidos. É uma obra curta, 120 páginas, uma dezena de histórias, fragmentos de medo, valentia e resiliência.

Em outro capítulo, dois irmãos esperam durante dias no deserto mexicano, aguardando que os agentes de migração do país vizinho se retirem, que deixem o caminho livre. Passam dias e dias ao sol, quase sem água nem comida. A milhares de quilômetros de casa, sua única possibilidade de sobreviver é entregar-se à patrulha fronteiriça dos EUA. “Eles não tiravam os olhos de cima da gente”, conta um deles a Villalobos. “E ali também havia cobras, no olhar deles.” As mesmas cobras que espreitam seus tornozelos no deserto.

O livro do escritor mexicano é um de vários que foram publicados nos últimos meses, memórias das distintas violências que sofrem os migrantes a caminho dos Estados Unidos. A violência das gangues, que os expulsam de seus povoados, de seus bairros em Honduras, El Salvador e Guatemala; a violência que os acompanha durante o percurso na forma de abusos e extorsões; a pegajosa violência que arranca a pele do detido e, finalmente, do deportado, habitante de um país unipessoal: não sou daqui nem de lá.

Dada a urgência dos que migram, o castigo que aceitam pela possibilidade de viver melhor, é justo falar de migrantes? Não é mais correto dizer refugiados, banir um eufemismo que encolhe o horror, que o disfarça? Diz Villalobos: “Para mim, está claro que são refugiados. Tendemos a pensar em refugiados quando falamos de países em guerra. E o que está ocorrendo na América Central é uma guerra. Os níveis de violência de San Pedro Sula, por exemplo, são superiores aos de lugares em guerra. É uma crise humanitária e a palavra adequada é refugiados”.

Nascido em Tijuana, o escritor Luis Alberto Urrea se criou em um subúrbio de migrantes mexicanos do sul de San Diego. Branco de olhos claros, nunca foi aceito nem pelos chicanos nem pelos gringos. Urrea publicou há alguns anos The Devil’s Highway (“a rodovia do diabo”), que narra o drama de um grupo de migrantes que morreram enquanto atravessavam o deserto do Arizona. A editora Alianza de Novelas acaba de publicar em espanhol La Casa de los Ángeles Rotos (“a casa dos anjos quebrados”), uma saga familiar de raízes transfronteriças. “Não é migração, é um êxodo”, diz. “Um êxodo de proporções bíblicas. Lá em cima há uma obsessão em construir uma impossibilidade com o muro.”

Em No Vuelvas (“não volte”), Leonardo Tarifeño viaja repetidamente para um albergue em Tijuana, um ótimo lugar para comer, uma rede de salvação para os que voltam. Para os expulsos. Negado o paraíso desejado, o migrante se transforma em deportado: aquele que já não vai. Escreve Tarifeño: “Dei uma última olhada na cerca [fronteiriça]. (...) Pareceu-me, desta vez, ideologia em estado puro, materializada”.

O que quis dizer com isso? “Quis expressar que, para mim, um dos grandes muros que nos separam dos migrantes é a cegueira ideológica, já que muitas vezes se fala deles a partir de uma posição justificada por nossas ideias a respeito, e não pelo contato direto com essas pessoas.”

E a caravana? Se a cerca é uma ideologia, o que são as caravanas de migrantes que atravessaram o México nas últimas semanas? Diz Villalobos: “A caravana é um espelho que deforma, que devolve a você, de forma grotesca, seus preconceitos. Coloca-nos diante do que somos, das nossas contradições. No México, faz-nos ver estes surtos de xenofobia. Em um país que tem 12 milhões de migrantes por aí”.

Urrea questiona a posição de seus compatriotas, trumpistas ou não, quanto àquele que chega. “Temos a fantasia do outro: ‘Há um estrangeiro que quer entrar’. Espero que chegue o dia em que entendamos que todos somos nós, que somos família. Embora pareça de ficção científica.”

Consciente da fragilidade dos rejeitados, dos expulsos, Tarifeño questiona suas próprias sensações. “Sua simples presença impõe questionamentos que nem sei se quero responder. Até onde poderiam cair? Ainda lutam por algo? A que se aferram?”

Além da ilusão ou da esperança, talvez se aferrem ao medo. Ao medo de voltar. Ou o medo se aferra a eles. No último capítulo do livro de Villalobos, Abril conta que saiu de Honduras depois que três homens a violaram numa tarde em que saiu da escola. Anos depois, um juiz nos Estados Unidos lhe pergunta: tem medo de retornar? Ela recorda aqueles dias: “Eu nunca disse nada à polícia porque tinha medo de que, quando saíssem da prisão, eles me matassem, e matassem também meus irmãos, minha família, porque eles me disseram que sabiam onde eu vivia”.

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