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“Anti-marxista” indicado por Olavo de Carvalho será ministro da Educação

Ricardo Vélez Rodríguez disse, em seu blog, ter sido indicado por filósofo ultraconservador. Acadêmico é professor emérito da escola de elite do Exército e foi anunciado por Bolsonaro via Twitter

MEC Ricardo Vélez Rodríguez
Ricardo Vélez-Rodriguez ao lado de Filipe Martins, secretário de assuntos internacionais do PSL, em foto postada pelo último.

Ricardo Vélez Rodríguez é o Ministro da Educação escolhido para compor o Governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. O anúncio de Vélez, um indicado pelo filósofo conservador Olavo de Carvalho que é crítico da "ideologia marxista" e tem livros publicados contra o PT, foi feito pelo Twitter na noite desta quinta-feira e encerrou dois dias de polêmicas e prospecções públicas em torno de outros nomes para a pasta. Vélez Rodríguez é professor da elite do Exército e da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Num termômetro da centralidade da posto na base de apoio da gestão Bolsonaro, primeiro foi descartado a indicação do moderado Mozart Neves Ramos, ex-reitor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), que acabou vetado pela bancada evangélica, que preferia, por sua vez, o procurador da República Guilherme Schelb. Depois, foi a vez do próprio Schelb, ruidoso combatente contra o ensino de gênero nas escolas, perder a vez. O procurador chegou a ser recebido por Bolsonaro nesta quinta em Brasília, mas seria vencido à noite pelo professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

Rodríguez disse ter sido recomendado para o cargo de ministro da Educação no dia 7 de novembro, conforme escreveu em seu blog. Nesse dia, publicou um texto intitulado Um roteiro para o MEC, no qual diz que a proliferação de leis e regulamentos tornou os brasileiros “reféns de um sistema de ensino alheio às suas vidas e afinado com a tentativa de impor, à sociedade, uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista”. Isso levaria, segundo ele, a “invenções deletérias em matéria pedagógica como a educação de gênero, a dialética do 'nós contra eles", tudo destinado a desmontar os valores da sociedade, "no que tange à preservação da vida, da família, da religião, da cidadania, em soma, do patriotismo".

O discurso é afinado com a pregação de Bolsonaro e do Escola Sem Partido, defendido pelo presidente eleito e aliados, que inclui, além da ideia de que é preciso combater o "esquerdismo" na educação, a demonização da discussão de gênero nas escolas. Esses temas, que já afetam a rotina nas instituições de ensino e provocam um temor de uma caça às bruxas, foram bandeiras de destaque do ultradireitista durante a campanha tornando o Ministério da Educação uma trincheira estratégica de seu futuro Governo.

O tema não sairá da agenda tão cedo. Um projeto do Escola sem Partido tramita na Câmara e um julgamento sobre o tema no Supremo Tribunal Federal, previsto para ainda este mês, deve colocar fogo de vez neste debate. O projeto tem entre seus críticos um apoiador de Bolsonaro. Olavo de Carvalho, fiador de Vélez segundo o próprio futuro ministro em seu blog, tem, ressalvas sobre a proposta. Guru da direita que vive nos EUA, Carvalho tem demonstrado força no bolsonarismo. Além do MEC, foi também importante na unção do futuro chefe do Itamaraty, Ernesto Araújo - outro cruzado "anti-marxista".

Um máquina enorme nas mãos

Segundo Bolsonaro, o futuro ministro da Educação tem “ampla experiência docente e gestora”. Alguns especialistas na área, consultados pelo EL PAÍS, preferiram, porém, não se manifestar por não terem referências sobre Vélez. Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais - CEIPE-FGV, fez sua leitura a partir do currículo do indicado. Costin avalia que falta experiência em gestão de políticas educacionais ao novo integrante da equipe do presidente eleito. “Bolsonaro prometeu um perfil técnico para o cargo, mas Vélez não entende de administração de políticas de educação. Pelo currículo dele, ele é um intelectual”, observa. “Lógico que ele pode aprender”, completa.

Costin lembra que o orçamento do MEC é um dos maiores do Governo e exige competência de gestão. “De orçamento público, de execução financeira, para transferir dinheiro para Estados e municípios”, diz. Ela lamentou o fato de Mozart ter sido preterido para o cargo, uma das raras unanimidades na comunidade acadêmica, segundo ela. Vélez, por sua vez, poderia trazer um olhar novo, pondera. “Mas o fato de não ser tão conhecido da comunidade educacional já mostra que é alguém pouco afeito a esse mundo.”

Vélez é autor de dezenas de títulos, entre eles A Grande Mentira. Lula e o Patrimonialismo Petista, lançado em 2015. "O professor explica como o PT conseguiu potencializar as raízes da violência, que já estavam presentes na formação do nosso Estado patrimonialista", diz a descrição disponível na página da Amazon. Em seu blog, o professor defende ainda uma política que retome “as sadias propostas dos educadores da geração de Anísio Teixeira, que enxergavam o sistema de ensino básico e fundamental como um serviço a ser oferecido pelos municípios, que iriam, aos poucos, formulando as leis que tornariam exequíveis as funções docentes.” Teixeira, advogado baiano nascido em 1900, que se especializou em educação, é considerado o idealizador das grandes mudanças para o ensino no Brasil no século 20. Para o educador, a escola deveria formar homens livres em vez de homens dóceis; preparar para um futuro incerto em vez de transmitir um passado claro; e ensinar a viver com mais inteligência e mais tolerância.

Para Costin, a ênfase na agenda do Escola sem Partido e a preocupação ideológica são "desperdício de energia". "Finalmente as crianças estão na escola, agora precisamos garantir melhoria da aprendizagem. Precisamos mudar a formação inicial dos professores, que é excessivamente teórica, dar uma ênfase mais profissionalizante de. O fundamental é não desperdiçar energia nessas questões paralelas, como o Escola sem Partido. Estamos formando a nova geração, que vai ser essencial para o nosso futuro”, conclui.

Golpe militar é “uma data para lembrar e comemorar”, defende novo ministro

“Amigos, esta é uma data para lembrar e comemorar. A esquerda pretende negá-la. Mas não pode. Porque ela foi incorporada à nossa memória como Nação”. É assim que Ricardo Vélez Rodríguez abre o artigo 31 de março de 1964: É patriótico e necessário recordar essa data.

Rodríguez defende que o golpe de 64 foi uma “revolução institucional”, com o objetivo de corrigir o “rumo enviesado pelo populismo janguista”. Para ele, a ditadura militar livrou o Brasil do comunismo. “Nos poupou os rios de sangue causados pelas guerrilhas totalitárias”, afirmou citando como exemplo as Farc, na Colômbia.

Também faz duras críticas ao que chama de “desgoverno lulopetista”, que tentou desmoralizar a memória dos militares com a “malfadada” Comissão Nacional da Verdade (CNV), que investigou as violações de diretos humanos cometidas entre 1964 e 1888 no país. Com base em depoimentos de vítimas, testemunhas e agentes da repressão, a CNV identificou que o Estado brasileiro foi responsável pela morte de 434 pessoas. “Constituiu mais numa encenação para a ‘omissão da verdade’, (...) a iniciativa mais absurda que os petralhas tentaram impor”, afirma o novo ministro da educação.

Também crítica o Programa Nacional de Direitos Humanos, instituído em 2009, pelo qual, acredita Rodríguez, “os coletivos sindicais iriam tomar posse de todas a instâncias de poder (...), chegando ‘a formulação de uma nova versão de ‘direitos humanos’ identificados unicamente com a defesa da república sindical lulopetista”.

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