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Morte de oposicionista em delegacia da Venezuela causa indignação mundial

ONU investigará o falecimento de Fernando Albán, que estava sob custódia do serviço de inteligência

Fernando Alban
Deputados, familiares e amigos homenageiam Albán EFE

A comunidade internacional expressou sua indignação depois da morte do vereador Fernando Albán enquanto estava sob custódia do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) da Venezuela. O opositor havia sido detido na sexta-feira passada, 5, por suposta vinculação ao frustrado atentado de agosto contra o presidente Nicolás Maduro. O Alto Comissariado de Direitos Humanos das Nações Unidos afirmou que este caso será investigado e fará parte de um novo relatório sobre as violações de direitos humanos na Venezuela.

“Fernando Albán se achava detido pelo Estado. O Estado tinha a obrigação de garantir sua segurança, sua integridade pessoal. Pedimos uma investigação transparente para esclarecer as circunstâncias da sua morte, já que existem relatos contraditórios sobre o ocorrido”, declarou Ravina Sahmadasani, porta-voz do órgão da ONU, em uma entrevista coletiva em Genebra. Sahmadasani acrescentou que o Alto Comissariado voltou a pedir ao Governo que autorize a entrada de uma comissão de inquérito no país, mas ainda não recebeu resposta.

Na mesma linha expressou-se a União Europeia sobre esse caso. Federica Mogherini, vice-presidenta e alta representante de Política Externa da UE, exigiu em nota a libertação de todos os presos políticos na Venezuela, que superam os 200, e que se respeitem os direitos humanos. Os Governos dos Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, França, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Paraguai e Peru também exigiram uma investigação independente sobre o ocorrido.

Albán foi detido sem ordem judicial na sexta-feira quando chegava ao aeroporto de Caracas, procedente de Nova York, e até o começo da tarde de segunda-feira não tinha sido apresentado a um tribunal. Foi então que o ministro do Interior, Néstor Reverol, informou que, enquanto estava na sala de espera da sede do Sebin, “atirou-se por uma das janelas das instalações, e a queda ocasionou sua morte”. Em outra versão do suicídio, o promotor designado pelo Parlamento chavista paralelo, Tarek Wililam Saab, disse que o detido pediu para ir ao banheiro e se lançou do décimo andar do prédio.

Os líderes opositores também exigiram investigações imparciais sobre a morte de Albán e insistiram na tese do homicídio. Alguns ex-detentos políticos relataram que nunca eram autorizados a ir sozinhos ao banheiro em situações como essa. “Temos fontes dentro do Sebin que nos revelaram que Fernando Albán chegou com vida, e depois erraram a mão nas torturas e o atiraram pela janela do edifício”, disse o vereador Jesús Armas, colega de Albán na Câmara Municipal de Caracas, durante uma sessão especial da Assembleia Nacional em homenagem ao dirigente do partido Primeiro Justiça, antes de seu velório na Paróquia da Universidade Central da Venezuela.

O corpo de Albán foi entregue a seus familiares na noite de segunda, mas até o começo da tarde de terça se desconheciam os resultados da autópsia e os detalhes do atestado de óbito. O advogado Joel García, que também defende o deputado Juan Requesens, supostamente comprometido no mesmo caso do atentado, disse que pôde ver Albán no domingo, dois dias depois da sua detenção. “Não estava abatido, estava bem, mas tinha sido submetido a fortes interrogatórios e pressões”. No inquérito sobre o ataque a Maduro, acrescentou García, não constava previamente o nome de Albán, e a ordem de prisão do vereador foi emitida apenas um dia antes de sua detenção.

O político participava da comissão que denunciou a crise venezuelana na recente Assembleia Geral da ONU. Foi detido quando retornava dessa viagem, em que aproveitou para visitar sua esposa e seus filhos, que vivem nos Estados Unidos. No último ano, havia participado do lobby que tentava promover sanções internacionais ao regime de Maduro, um movimento impulsionado pelo opositor exilado Julio Borges, a quem o Governo aponta como principal responsável pelo atentado com drones contra o presidente.

Em nota, a Igreja venezuelana exigiu justiça sobre o caso que consternou grande parte do país e uniu novamente a fragmentada oposição. “Não são segredo para ninguém as opções de vida do senhor vereador Albán, suas profundas convicções religiosas, sua coerência com os valores da fé que ratificam a opção pela vida e não pela morte, seu compromisso com os mais pobres nas paróquias às quais servia. Como venezuelanos, estamos no direito de reivindicar justiça e de que se sejam esclarecidos os fatos desta morte que enluta uma nobre família e a Venezuela inteira. Fatos tão lamentáveis como este e como outros tantos, onde se derrama o sangue de venezuelanos, terminam por minar a confiança do povo em seu desejo de esperança, já que é uma nova expressão de vulnerabilidade perante um regime excludente”, disse a conferência episcopal venezuelana em seu comunicado.

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