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Atentado devolve campanha de Bolsonaro à sua zona de conforto: as redes sociais

Nas 24 horas seguintes ao ataque, candidato monopolizou 98% das buscas no Google brasileiro e foi mencionado 1,7 milhão de vezes no Twitter

Usava uma camiseta amarela berrante para que depois, nas fotos, fosse distinguido entre centenas de seguidores que se amontoavam a seu redor. Jair Bolsonaro, o odiado representante da direitista e, ao mesmo tampo, o admirado homem comum que enfrenta a elite política brasileira, o candidato com mais intenções de voto e maior rejeição nas pesquisas para as eleições presidenciais de outubro, estava flutuando bem visivelmente sobre centenas de partidários. Era carregado nos ombros em Juiz de Fora, uma cidade de meio milhão de habitantes no interior de Minas Gerais. E, de forma igualmente visível, em um segundo tudo começou a dar errado.

Bolsonaro hospital
O candidato Jair Bolsonaro faz o famoso sinal de metralhadora para mostrar sua recuperação no hospital Albert Einstein de São Paulo. AP

Bolsonaro grita e coloca as mãos na lateral do corpo. Um doente mental de 40 anos acaba de feri-lo no abdômen com uma faca de cozinha. Cortou uma veia e parte do intestino grosso do candidato. Algumas testemunhas comentariam depois que viram as fezes de Bolsonaro se esparramar pelo local. Vários homens agarram o corpo para levá-lo ao hospital. São tantos e vão tão rápido que, de longe, só se vê a camiseta amarela. São três da tarde e o Brasil está a ponto de mergulhar uma vez mais no desconhecido. Pela primeira vez em sua jovem democracia, um candidato presidencial foi atacado.

Bolsonaro passou com sucesso por uma cirurgia de emergência. Quando acordou, tudo tinha mudado. Seus 12 rivais tinham interrompido suas campanhas. As instituições das quais tantas vezes zombou lhe desejavam o melhor. E ele, Jair Messias Bolsonaro, teria de ficar hospitalizado mais uma semana e, depois, descansando em casa no mês que falta para as eleições.

Todo isso é uma boa notícia para ele. Fará campanha exclusivamente através das redes, onde demonstrou estar mais à vontade do que nos comícios e nos debates − e onde tem mais de cinco milhões de seguidores. Sua equipe rastreia obsessivamente todos os dados: nas 24 horas seguintes ao ataque, monopolizou 98% das buscas no Google brasileiro e foi mencionado 1,7 milhão de vezes no Twitter. No mundo real, a campanha fica delegada a seus filhos, o candidato ao Senado Flávio e o deputado Eduardo. Também está seu número dois, o candidato a vice-presidente e militar da reserva Antônio Hamilton Mourão, que se empenha em manter viva a conhecida marca Bolsonaro. Na sexta-feira, plantou-se diante de uma jornalista que tinha sido torturada pelos militares e defendeu a ditadura. “Os heróis matam”, argumentou.

Saídas de tom desse tipo é que levaram Jair Messias Bolsonaro, filho de um dentista ambulante, a entrar na política. Alistou-se no Exército como paraquedista no final da ditadura militar (1964-1985), onde não se destacou muito. Mas em 1986 escreveu uma carta à revista Veja reclamando dos soldos dos escalões militares mais baixos. Aquilo lhe rendeu 15 dias da prisão militar e o começo de sua carreira política. Em pouco tempo, foi eleito vereador no Rio de Janeiro e chegou ao Congresso em 1991.

Deputado mais votado em 2014

Em seu histórico há diatribes a favor da ditadura e contra qualquer minoria imaginável (“eu seria incapaz de amar um filho homossexual, prefiro que morra em um acidente”). Há pedidos de que alguém atire no então presidente Fernando Henrique Cardoso e de que o Congresso seja fechado. Há frases como “não te estupraria porque você não merece”, dita a uma deputada na televisão, ou “um policial que não mata não é policial”. Todas serviram para a mesma coisa: atrair um exército de seguidores que, como ele, rejeitavam a ordem estabelecida depois da ditadura.

Ao longo das décadas, o número de ressentidos com o establishment foi crescendo tanto que Bolsonaro foi o deputado mais votado das eleições de 2014. E ainda poderia continuar crescendo se, com sorte, chegasse uma tempestade política que enfraquecesse os outros. Chegaram três: uma enorme recessão, o caso Petrobras e o impeachment de Dilma Rousseff.

Sua campanha presidencial tem como pilares atacar Brasília em geral e a esquerda em particular, desprezar o politicamente correto e defender a ditadura. Também promete armas para frear a violência no país. Essa é a quarta tormenta, a mais ignorada pelos políticos: só em 2017 os homicídios dispararam para 63.880. Um recorde. E no Brasil profundo, onde nem com a chegada da democracia um tiro deixa de resolver o que uma ação judicial só complica, o mesmo ocorre com a violência política.

Em 2018, com a tensão em níveis insustentáveis, o sangue de políticos começou a ser derramado também nas cidades. Em março, Marielle Franco, uma vereadora de esquerda do Rio de Janeiro, foi assassinada com quatro tiros na cabeça e a polícia ainda não encontrou o culpado. Semanas depois, alguém deu dois tiros em ônibus cheios de seguidores de Luiz Inácio Lula da Silva. E na quinta-feira um garçom de 40 anos, Adélio Bispo de Oliveira, um doente mental obcecado com a “direita maçônica”, levou essa corrente para Juiz de Fora.

Desde essa quinta-feira, só é possível ver Bolsonaro através de suas queridas redes sociais. Mas se vê muito. Ele, inconsciente depois da primeira cirurgia, balbuciando: “Como os humanos podem ser tão maus? Nunca fiz mal a ninguém”. Ele, imóvel na mesma cama, enquanto sua filha enxuga o suor de seu rosto. O avião privado que o leva para São Paulo. Ele, no sábado, em uma poltrona de um hospital paulistano, com cinco tubos pendurados no corpo, fazendo seu característico gesto triunfal de disparar com as mãos. É um retorno ao terreno que o viu crescer, longe do ritmo mais rígido das campanhas eleitorais tradicionais, ao qual não estava conseguindo se adaptar, onde muitos políticos imaginavam que morreria seu delírio presidencial.

Violência eleitoral

Não há nenhum precedente de ataques de tal calibre a candidatos presidenciais na jovem democracia brasileira, mas sim ao longo de sua história. Em 1930, João Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas, foi assassinado em plena campanha. Um de seus principais adversários políticos foi até onde ele estava com alguns amigos e lhe deu dois tiros: “Sou João Dantas, a quem você tanto injuriou e ofendeu”, declarou o autor dos disparos antes de ser detido. Muitos analistas políticos lembram nestes dias que naquela época, assim como agora, o Brasil mergulhava na instabilidade política. E que aquela morte teve repercussões históricas praticamente imediatas. Acabou convencendo muitos dos partidários de Getúlio Vargas a iniciar uma revolução à qual se uniria parte das Forças Armadas, desembocando em um golpe de Estado que pôs a Vargas na presidência do Brasil durante 15 anos.

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