Eleições 2018

Dilma Rousseff: “É preciso ir às urnas para desfazer o impeachment”

Dois anos depois de sua destituição, a ex-presidenta tenta voltar à política com uma cadeira no Senado e examina o que aconteceu desde que deixou o Governo

Dilma Rousseff saúda aos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores na terça-feira 28 de agosto de 2018, em Minas Gerais
Dilma Rousseff saúda aos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores na terça-feira 28 de agosto de 2018, em Minas GeraisPaulo Fonseca (EFE)

Poucos esperavam vê-los em campanha novamente tão juntos e tão próximos. Mas lá estavam, o senador Aécio Neves e a ex-presidenta Dilma Rousseff, por casualidade tentando se aferrar à vida política com diferentes membros do Governo do mesmo Estado. E assim transformaram uma cidade remota de Minas Gerais em quase uma máquina do tempo que retorna exatamente ao ponto onde, segundo muitos, tudo no Brasil começou a se perder irremediavelmente.

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“Na verdade, eu não deixei de fazer política”, afirma Dilma, de 70 anos, ao EL PAÍS. E volta ao que aconteceu depois daquela eleição. O Brasil ficou praticamente dividido ao meio. Dos 105 milhões de votos, 51 milhões foram para Aécio; ela, com 54 milhões, se manteve na presidência com muitos problemas, e a economia em uma recessão tão violenta, que logo se viu em um impeachment. A causa oficial —maquiar pequenos itens do orçamento— era tão frágil que no princípio ninguém pensou que pudesse ir adiante. Mas votação depois de votação, os antigos aliados de Dilma foram se afastando dela até que, às 13h30 do dia 31 de agosto de 2016, dois anos atrás, o impossível era fato consumado. Foi destituída, seu vice-presidente Michel Temer assumiu o Governo e o Brasil registrou outro dia histórico para o esquecimento. “Desde então o estado de exceção que começou a se instalar no Brasil a partir do golpe ameaça a democracia e persegue nossa principal liderança política, que é Luiz Inácio Lula da Silva [na prisão por corrupção e impugnado como candidato para as eleições presidenciais apesar de liderar as pesquisas de opinião]. Ele está preso e foi condenado num processo viciado por sem provas”, insiste Rousseff hoje. A economia ainda não se recuperou totalmente, o país está à beira de uma eleição caótica protagonizada precisamente por seu mentor, Lula, que desde abril é o primeiro ex-presidente do Brasil na prisão, e a divisão detectada em 2014 se aprofundou. “O Brasil tem um longo caminho a percorrer na reconstrução do estado de bem-estar social que aprofundamos nos 13 anos de governo do PT”, conclui.

Como ex-presidenta, Dilma encarna o discurso em que o Partido dos Trabalhadores (PT) se faz de vítima: suas muitas desgraças não são culpa do partido e do desgaste dos 13 anos no poder, que acabou no impeachment, mas são artimanhas de seus muitos inimigos. “A partir do golpe, o país passou a ser vítima de uma conspiração, cuidadosamente planejada e executada pelo PSDB e seus aliados do PMDB, além da mídia oligopolista e da elite financeira que não têm qualquer compromisso com o país e o povo brasileiro”. Na linguagem da política brasileira, mais personalista que as europeias, faz sentido. Do ponto de vista do eleitor do PT (ou seja, a maioria do eleitorado), muitos presidentes maquiaram as contas públicas, quase todos, mas apenas a sua sofreu o impeachment. E os pesos-pesados condenados pelos casos de corrupção na Petrobras são também quase todos, mas só os membros de seu partido, em especial Lula, estão na cadeia.

E isso também explica as grandes turbulências que tomaram conta do primeiro país latino-americano desde que ela se foi: “O golpe tem promovido o descaminho do Brasil, que tem sua soberania ameaçada. Estão vendendo o patrimônio público, decretaram o fim dos direitos dos trabalhadores, cortaram investimentos em saúde e educação pelos próximos 20 anos. Tudo isso de maneira descarada. Achávamos que não era possível um retrocesso social tão violento quanto o que assistimos nos últimos dois anos por conta das manobras do governo golpista e de seus aliados. Para barrar os efeitos nefastos do golpe, precisamos ir ao voto”.

Dilma Rousseff, militante desde jovem e política de carreira, justifica seu retorno aos assuntos públicos. Até estas eleições, levou uma vida tranquila. Ao contrário de Fernando Collor, outro ex-presidente que também passou por um impeachment, que se refugiou em Miami depois de perder a presidência em 1992, ela não sumiu. Dividiu sua vida entre o Rio de Janeiro, onde tem seu apartamento, e Porto Alegre, onde moram a filha e os dois netos. Passeava de bicicleta às margens do rio Guaíba diariamente e uma vez por mês ia ver a mãe, nonagenária, em Belo Horizonte: ela sofre de demência e Dilma não lhe disse nada sobre a destituição. Trabalhou como conselheira de uma fundação ligada ao PT (no Brasil os ex-presidentes não recebem aposentadoria, mas têm direito a oito assistentes e dois carros); deu poucas entrevistas, 40 em seu primeiro ano, nenhuma na televisão; e viajou várias vezes ao exterior para insistir nas irregularidades de sua destituição. Essa foi sua travessia do deserto pessoal até que as eleições de 2018 lhe permitissem voltar.

A oportunidade acabou sendo uma cadeira no Senado por sua terra natal, Minas Gerais. “Aqui, cresci e tomei consciência política e social, ainda na juventude. Foi em Minas que comecei a militância contra a ditadura militar, no final dos anos 60”, recorda. E aqui o destino mostrou seu senso de humor. Dilma não só tem de encarar novamente Aécio Neves, hoje candidato a deputado. Mas também Antonio Anastasia, relator do impeachment no Senado (agora disputado o governo do estado): os três em apenas um dos 26 estados, à procura de uma nova vida política. Uma nova vida que, pelo menos no caso dela, comece a apagar o trauma do que aconteceu desde 2014. “A minha candidatura ao Senado tem o objetivo de lutar contra o golpe, revogar o legado do retrocesso imposto pelo governo Temer, lutar pela libertação de Lula e de sua eleição para a Presidência da República”, promete. “Estou na política pelo direito do povo brasileiro de retomar o seu caminho”.