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Primeiro voto | “O PT errou muito, mas ainda é o melhor para votar”

Manuela Martins, 17 anos, destoa da maior parte da elite carioca e pretende votar na chapa petista. Na pesquisa Ibope, Lula tem melhor desempenho na faixa entre 16 e 24 anos, com 45%

Eleições 2018 Primeiro Voto
Manuela Martins, após a entrevista, no Rio.

Apesar de ter feito campanha para Marcelo Freixo na eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro, Manuela Martins só completou 16 anos um mês depois das eleições municipais de 2016. "Eu queria muito ter votado há dois anos atrás, mas não consegui por causa de um mês. Logo depois já fui tirar meu título de eleitor", conta ao EL PAÍS. Agora, em posse do documento, pretende aos 17 anos votar na chapa do Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições presidenciais de outubro deste ano, esteja ela encabeçada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — que deve ser impedido de concorrer, uma vez que foi preso e condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro — ou pelo ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

"Lula não é nenhuma divindade, mas acho que sempre podemos votar no menos pior. O PT errou muito, mas dentro do que estamos vivendo, é o melhor para votar", argumenta ela, com convicção. Até gosta de outros candidatos do campo da esquerda, como Guilherme Boulos (PSOL) ou Ciro Gomes (PDT), mas é pragmática. Sua prioridade é "combater a direita conservadora" representada pelos candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Geraldo Alckmin (PSDB), segundo afirma. "Todo mundo fala 'ah, no primeiro turno eu vou votar em quem eu quiser, no segundo a gente vê'. Mas não concordo muito com essa visão, no primeiro turno a gente já tem que pensar no jogo político. E eu gosto do PT, tanto é que vou votar nele".

A escolha de Manuela é a mesma da maior parte dos eleitores, segundo a pesquisa IBOPE divulgada nesta quinta-feira. Ela mostra o ex-presidente na frente, com 37% dos votos, e distante do ultradireitista Bolsonaro, em segundo lugar com 18% dos votos. Lula consegue seu melhor percentual justamente na faixa etária que vai dos 16 aos 24 anos, 45%, apesar de que esses jovens não necessariamente recordem tão nitidamente dos anos de bonança de sua gestão. É o caso de Manuela. "Eu era muito pequena, tinha nove anos em 2010, então não lembro de nada do Governo Lula. Mas estudei sobre ele", diz ela, que, sim, tem lembranças da gestão Dilma. "Ela começou ok, mas depois complicou. Uma coisa que me doeu muito é que ela não teve cuidado com a Amazônia e com os índios. Principalmente com a questão de Belo Monte".

Moradora da Gávea, bairro de classe alta da zona sul do Rio de Janeiro, a jovem destoa da maior parte das pessoas inseridas em sua classe social. Isso porque, ainda segundo a última pesquisa IBOPE, o ex-presidente só perde entre os eleitores que ganham mais de cinco salários mínimos — Bolsonaro ganha com 30% dos votos, enquanto que o petista vem logo atrás, com 17%. "Eu não me identifico com a zona sul do Rio. Nenhum parente meu, a não ser meu pai, vai votar em alguém de esquerda. Meus tios e tias devem ir de [João] Amoêdo [NOVO] ou Alckmin, acho que é mais essa pegada. Minha família é de direita, mas é consistente. Eles sabem que a ditadura foi ruim", explica a garota, que garante que ninguém de seu entorno votará em Bolsonaro. Ela brinca ao dizer que pertence ao que se chama "esquerda caviar", mas diz não ter orgulho disso. "Eu vivo numa bolha. A gente tenta sair, mas é muito difícil. Mas mesmo assim, se a gente exerce nosso papel de cidadão e sabe votar, é melhor que ser alienado. Eu tenho noção dos meus privilégios, mas quero que todos tenham boa educação e saúde, direito de ir e vir...", defende a garota. "É meio contraditório, mas é meu destino. O que vou fazer? Votar na direita e reforçar certos estereótipos? Quero sair e quebrar os paradigmas que foram impostos para mim".

Filha de uma atriz e de um psicanalista, Manuela frequenta desde a infância círculos artísticos e mais progressistas. Também estudou ao longo de sua vida em três escolas privadas construtivistas, a Sá Pereira, o Centro Educacional Anísio Teixeira e, mais recentemente, a Escola Parque, onde completa o último ano do Ensino Médio. No segundo colégio, conta, passou a ter aula de sociologia, foi apresentada ao feminismo e participava de ações que a escola proporcionava — como a visita a um assentamento do MST, por exemplo. Já no último colégio, que fica no bairro em que mora, conta ter apenas três professores de esquerda — "os outros são de centro", afirma — e conviver com colegas que simpatizam com o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Partido NOVO. "Ninguém nunca impôs uma opinião, eu sempre fui construindo a minha própria. Mas, sim, eu eu sempre fui influenciada pela escola e pela minha família".

Mesmo sendo politizada, evita os debates nas redes sociais. Diz-se preparada para falar de temas sociais como feminismo, cotas raciais ou legalização das drogas, mas prefere, por ser ainda muito jovem, "sentar, ver as pessoas discutirem e aprender". Até porque, explica, muitas vezes não é levada a sério em discussões com pessoas mais velhas. E também porque ainda é complicado "entender as coisas quando entra num âmbito econômico". Por isso diz ter tido dificuldade na hora de acompanhar o raciocínio de Ciro Gomes durante sua entrevista no Roda Viva. Ele seria sua segunda opção, caso o PT não apresentasse candidato ou não escolhesse Haddad para substituir Lula — até o momento, o ex-prefeito aparece com apenas 4% das intenções de voto num cenário sem o ex-presidente, segundo o IBOPE. Ainda não sabe em quem votará para deputado federal ou estadual, mas acredita que apostará em Tarcísio Motta e Chico Alencar, ambos do PSOL, para os cargos de Governador e Senador do Rio. "Acho que o PSOL funciona bem no Rio e alguns Estados. Mas para presidente acredito mais no PT, porque acho ele mais forte. Ele tem mais posição, mais projeto", explica.

O que acha sobre os escândalos de corrupção que atingiram o PT e o ex-presidente Lula? "Não acredito que aquele triplex seja dele, não há provas concretas", argumenta. "Na política prendem quem querem, e o Lula é uma delas", completa. Entende a indignação das pessoas, mas pondera que um Presidente da República não é capaz de mudar tudo. "Esse discurso de querer o novo faz com que as pessoas votem no Bolsonaro. Ele não é nenhum santo, mas tem uma pegada mais popular e é super carismático. Fala sobre família, kit gay, escola sem partido, porte de armas... É uma pegadinha, ninguém vai estar mais preparado para se defender porque tem uma arma. Mas ser novo hoje é querer radicalizar, é ser de direita".

Manuela, que vai prestar o ENEM neste ano, ainda não sabe que profissão seguir. Gosta de exatas e de matemática ao mesmo tempo que quer de seguir uma profissão com "um viés mais social e político". Economia é uma opção. Sua única certeza é a de que gostaria de estudar em uma universidade pública, para sair de sua bolha e frequentar um ambiente mais diverso e com outros tipos de pensamento. Que tipo de mudança gostaria de vivenciar no Brasil? "Eu quero que a gente saia do mapa da fome de novo. Quero que as pessoas não tenham seus direitos negados, quero que a economia se estabilize... Quero melhorar", defende. "Também quero que a corrupção acabe, óbvio, mas gostaria que me explicassem melhor como se acaba com ela. Não acho que seja nosso principal problema. Os direitos humanos, a desigualdade social, acabar com a fome... Tudo isso é mais importante".

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