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“Votar não me dá a sensação de participação política. Quero que minha opinião seja levada a sério”

A geração de jovens nascidos entre o final do século passado e este vai às urnas pela primeira vez

Alguns, como Victor Conceição, ainda não conseguiram decidir em quem votarão

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Victor Conceição, 18 anos

Em 1989, depois de um hiato de quase três décadas, os brasileiros comemoravam a volta das eleições diretas após os anos da ditadura militar. Uma geração inteira que nunca tinha exercido o poder do voto foi às urnas tomada de euforia e animação para lutar pelo direito de escolher seus representantes. Agora, após um novo período de quase três décadas de democracia, o clima é diverso. Muitos jovens nascidos entre o final do século passado e o início deste século, distantes das turbulências prévias ao Plano Real, votam em outubro pela primeira vez. E chegam às urnas com pouco a comemorar e com a sensação de que o voto como instrumento de mudança social tem suas limitações.

O EL PAÍS começa hoje a seção "Primeiro Voto", um mergulho na vida dos eleitores que chegam pela primeira vez às urnas num contexto marcado pela descrença nos candidatos e nos partidos políticos. Jovens como o estudante de direito Victor Conceição, de 18 anos, que mora na Vila Patrimonial, bairro da zona sul de São Paulo, e que, assim como 5% dos jovens de 16 a 24 anos entrevistados pela última pesquisa Datalfolha, ainda não sabe em quem vai votar.

Desde que nasceu, Victor assistiu a quatro eleições para presidente, um impeachment (o de Dilma Rousseff), mais escândalos de corrupção do que consegue se lembrar e à recente prisão de um ex-presidente. Cresceu em um país que chegou ao pleno emprego, mas hoje alimenta as estatísticas que mostram que 25% dos jovens estão desempregados. Não à toa, garante não esperar muito de suas primeiras eleições. “Votar não me dá a sensação de participação política”, afirma.

Victor aprendeu em casa, onde desde cedo palpitava sobre os candidatos em que sua mãe iria votar, que esperar pelas eleições é muito pouco para construir um cenário diferente. Para ele, os caminhos são outros. Por isso, exercita sua vocação política no voluntariado, atuando na Aliança Beneficente Universitária (Abeuni) –que oferece programas de saúde para a população–, e também na Educafro –um cursinho pré-vestibular que promove a inclusão da população negra e de baixa renda na universidade– de que foi beneficiado como aluno.

“Votar é escolher um representante, mas será que isso significa que minha opinião vai ser levada a sério? Participo mais quando converso com outros jovens, seja no voluntariado ou na igreja, e tento instigar que eles não desistam”, afirma.

O interesse de Victor pelo trabalho voluntário tem como base uma consciência política muito crítica: ele sabe que é, dentro da realidade de seu entorno, um privilegiado. Como parte da terceira geração de sua família a fazer faculdade, sempre achou que o “normal” era seguir o caminho da educação. “Meu tio-avô fez faculdade, minha mãe e meu pai também. A diferença é que era para eu ser o primeiro a estudar em universidade pública”, cobra-se, mesmo tendo conseguido bolsa de 100% do Programa Universidade para Todos (Prouni) na Universidade Paulista (Unip), a qual se dedica integralmente.

A família de classe média baixa é o suporte que permitiu que seus planos dessem certo até aqui, garante ele. Nunca precisou buscar trabalho para se sustentar e pôde se dedicar aos estudos e a fazer cursos profissionalizantes. Foi bolsista do Formare, um programa de capacitação de jovens desenvolvido pela Fundação Iochpe, no Grupo Ultra, onde fez estágio na área de contabilidade. “Meu pai faleceu quando eu tinha três anos, mas minha mãe sempre investiu em mim. Pude estudar em escola particular até o 9º ano”.

Da primeira experiência de trabalho, leva o aprendizado de entender exatamente o que gosta e o que não quer fazer. Ensinamento que agora usa para as eleições. “Tenho muitas dúvidas em quem vou votar, mas sei exatamente em quem não vou votar”, garante. Nesta última categoria está o candidato à presidência Jair Bolsonaro. “Às vezes, acho que ele é um acerto de relações públicas, com suas frases de efeitos montadas para conquistar um público que está com raiva, mas sem real noção do que se passa no Brasil”, afirma o jovem, que defende os direitos humanos, as cotas raciais e as sociais nas universidades —temas que o militar reformado costuma criticar.

Victor admite que Bolsonaro agrada muito à população cristã, com seu discurso “de se armar em prol da família”, mas isso porque este público está aterrorizado. “Fala-se muito da intolerância religiosa, e a mídia costuma mostrar o que acontece com as religiões de matriz africana, mas nada sobre os evangélicos, que sofrem calados”, afirma.

O próprio Victor já ouviu frases preconceituosas do tipo: “Como você é evangélico se é tão inteligente?”. “Bolsonaro, por ser cristão, é visto por muitos como uma saída para a aceitação. As pessoas, com medo, decidem na base da emoção”, lembra.

Outro presidenciável que deve perder o voto de Victor é Geraldo Alckmin, mas dessa vez, pela ligação do jovem com a escola pública. Paulistano, Victor morou seis meses em Pindamonhangaba, cidade do interior paulista onde nasceu o candidato do PSDB. “A escola era impecável. Tinha café da manhã e almoço. Os alunos participavam de reuniões com o prefeito. Mas quando voltei para São Paulo foi um choque ver o abandono”. O baque ganha um significado ainda maior porque Victor estudou na escola estadual Brasílio Machado, no bairro Vila Mariana, que é considerada uma das melhores instituições de ensino médio da capital paulista.

O ex-prefeito da capital João Doria também não está nas graças do estudante. “Fiquei surpreso com a vitória dele no primeiro turno, mas mais ainda quando ele abandonou a prefeitura depois de ter se comprometido a ficar”, diz.

Apesar das críticas, Victor garante que não é um desiludido com a política e jura ainda ter esperança que um candidato vá conquistar seu apoio até o final da campanha. "Votarei em alguém que não está na política simplesmente pela busca do poder. Alguém que entenda que os problema do país são estruturais. E que saiba ser paciente".

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