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“Os políticos aparecem e depois somem. Para que vamos nos envolver com isso?”

Kadmiel Pereira, 19, é retrato de uma favela de Brasília onde boa parte dos jovens está desanimada com a política

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Kadmiel Pereira, estudante, morador de Brasília.

Considerada uma das maiores favelas da América Latina com mais de 100.000 habitantes, na comunidade Sol Nascente na região administrativa de Ceilândia, a cerca de 35 quilômetros do centro de Brasília, é difícil encontrar um jovem que se interesse pela política ou, que ao menos saiba dizer com exatidão em quem vai votar para presidente nas eleições de outubro. “Estou descrente. Minha primeira opção é votar nulo”, diz o estudante do segundo ano do ensino médio, Kadmiel Pereira. Nas últimas pesquisas eleitorais a opção de anular ou votar em branco foi citada por entre 17% a 28% dos entrevistados, conforme o cenário de candidatos apresentados.

Aos 19 anos, é a primeira vez que Kadmiel votará. E só o fará porque, quando se atinge a maioridade no Brasil, o voto passa a ser obrigatório. “Se eu não fosse obrigado, não votaria. Acho que a maioria das pessoas não votaria, né?”.

Filho de uma vendedora ambulante (“É camelô mesmo”, grita a mãe da sala enquanto o jovem fala com a reportagem na cozinha de sua casa) e de um porteiro, o estudante diz que nunca se interessou por política. Nem os seus amigos se interessam. A reportagem do EL PAÍS esteve na favela Sol Nascente em dois dias diferentes. Falou com 19 pessoas com idades entre 16 e 20 anos. Apenas Kadmiel tinha seu voto definido. Duas disseram que ainda estavam se decidindo e que, por enquanto, não se sentiam representadas. As outras, afirmaram que, como o voto é facultativo para quem tem de 16 a 18 anos incompletos, preferiram nem tirar o título de eleitor.

“As pessoas por aqui querem saber de outras coisas. Os políticos só aparecem a cada quatro anos, depois somem. Para que vamos nos envolver com isso?”, questiona Kadmiel, um rapaz que diz ser vidrado em séries da Netflix e em livros virtuais. Ele prefere ficar em casa do que estar na rua, onde diz já ter testemunhado um assassinato a tiros, consequência de uma dívida por drogas, e um atropelamento com morte em uma das vielas em que mal passam dois carros ao mesmo tempo.

Essa falta de interesse dos jovens pela política no Distrito Federal está patente também nas estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Proporcionalmente, há mais jovens ente 15 e 20 anos em Brasília (8,8% da população total) do que no restante do Brasil (7,8%). Por outro lado, há menos eleitores nessa faixa etária. No DF eles representam 6,8% do eleitorado total. No país, 7,05%.

“Quem tem a minha idade por aqui só quer saber de jogar bola ou ficar na internet. Ainda tem alguns que vivem a vida por aí”. O que ele entende por viver a vida? “Ficam usando drogas, bebidas e vão para festas. O resto não interessa para eles”, diz Kadmiel, evangélico assíduo da igreja Assembleia de Deus onde o pastor fala sobre política, mas não deixa candidatos fazerem campanhas eleitorais. “Ele é bem rígido. Só orienta a gente a cobrar os políticos, mesmo”.

Kadmiel Pereira, 19 anos.
Kadmiel Pereira, 19 anos.

A cada três ou quatro frases do estudante, um de seus pais intervém. A mãe diz que prefere vender o voto em troca de material de construção para reformar sua casa do que ter de escolher alguém por vontade própria. “Preciso pensar em mim, já que nenhum deles [os políticos] pensam”. O pai, por sua vez, diz que a indecisão é tamanha que também deverá anular. “Não confio em ninguém também. Mas ainda posso escolher alguém para votar”.

O bairro em que eles moram é um retrato de tantas outras favelas brasileiras. Surgiu por conta de invasões de terras – algumas delas pertenciam a imigrantes japoneses e, em homenagem à terra do sol nascente, acabaram batizando a comunidade. Parte de suas ruas estreitas foram urbanizadas recentemente. Antes, era terra pura misturada a uma grama rala e, em alguns trechos, detritos que vazaram de fossas. Agora, há paralelepípedos e rede de saneamento básico em um terço das moradias, mais ou menos.

Quando o sol se põe, as pessoas costumam apertar o passo e evitam ficar na rua à noite. “Não é nada seguro por aqui”, afirmou Kadmiel. Em duas vielas a reportagem identificou pontos de vendas de drogas. Nos arredores, há vários salões de beleza, vendedores de verduras nas calçadas, mercadinhos e oficinas mecânicas. As casas são quase todas de alvenaria, mas as construções são improvisadas. Em várias as paredes não foram pintadas ou estão desgastadas. E em vários dos imóveis foram improvisadas quitinetes para serem alugadas. A casa da família Pereira é uma delas. “Já temos uma quit e estamos fazendo outra para ajudar no orçamento”, explicou o jovem que admitiu que não contratam engenheiro, arquiteto ou mestre de obras, apenas um pedreiro. “A Internet nos ensina tudo!”, afirmou. No caso dele, menos a votar.

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