Uma família despedaçada pela “tolerância zero” dos EUA

Migrante guatemalteca recupera sua filha mais nova, separada do pai ao cruzar a fronteira

Janne mostra na quarta-feira a foto do pai, preso no Texas; atrás dela sua mãe, Buenaventura, carrega seu irmão em Homestead.
Janne mostra na quarta-feira a foto do pai, preso no Texas; atrás dela sua mãe, Buenaventura, carrega seu irmão em Homestead.GIORGIO VERA

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“A escola ficava longe. O senhor John me levava de carro. Eram bons. Compraram roupa e sorvete para mim. Me levaram na piscina e na igreja. A casa era bonita. Eu cruzava um rio sujo e [um dia] vi uma cobra.” Janne tem sete anos e sua língua materna é o mam, um dialeto da Guatemala. De repente, ela deixa de falar de Michigan e se esconde no colo da mãe. “Está muito sensível”, diz Buenaventura, de 29 anos. “Chora, não desgruda de mim.”

Buenaventura, Janne e Pedrito vivem desde julho em Homestead, localidade cerca de 60 quilômetros ao sul de Miami, com um irmão da mãe e outros imigrantes. Ela e o bebê emigraram da Guatemala em maio, foram detidos após cruzar a fronteira sem documentos e, após alguns dias, soltos com intimação judicial para ela. Janne e seu pai, Pedro Godínez, saíram de seu país uma semana mais tarde – “A menina ainda tinha que ir à escola”, diz Buenaventura – e acabaram detidos na fronteira com o México, mas foram separados, vítimas da política de tolerância zero de Trump. Mais de 2.500 menores foram afastados de seus pais indocumentados em maio e junho, até que uma onde de críticas fez com que o presidente freasse a medida e um juiz ordenasse a reunificação das famílias, ainda incompleta. No início de agosto, mais de 500 menores continuavam sob custódia federal e, no caso de mais de 400, os pais já tinham sido deportados aos países de origem.

“Quando eu e meu pai estávamos no deserto, apareceram dois carros da migração [a Guarda Fronteiriça] e apalparam os bolsos do meu pai para ver se tinha algo, e eu chorei muito. Quando chegamos à prisão, de noite, eu sentia muito frio e nos deram uma sopa. Às seis da manhã, tiraram meu pai de mim e chorei muito. Fomos de carro ao aeroporto e chegamos a Michigan, e uma trabalhadora que se chama Ana me levou até a casa dos senhores”, recorda Janne, que esteve seis semanas com o casal que a acolheu se comunicando por sinais para avisar quando tinha fome e quando não queria mais. A menina não para de ver videoclipes no telefone da mãe. Passa vários minutos debruçada sobre a tela. Veste uma camiseta que diz em inglês: “Olá, raios de sol.”

Buenaventura passou cerca de uma semana com seu bebê de 11 meses num centro de detenção do Arizona. “Os funcionários da migração nos trataram mal. Diziam que estávamos em seu país e que somos criminosos”, afirma. “Mas alguns eram bons e me deram até duas ou três fraldas quando pedi.” Segundo seu relato, ela dormia com o bebê no chão. Não podiam tomar banho, recebiam uma “sopa instantânea de manhã e outra de tarde” e tinham que beber a água do banheiro. Ela diz que o menino teve febre e diarreia, e que os agentes a ignoraram quando pediu remédio. “Me disseram que o Governo não tinha por que pagar os medicamentos do meu filho.” Várias organizações sociais denunciaram, em junho, os supostos maus-tratos aos imigrantes nos centros de detenção. Também apresentaram uma ação num tribunal da Califórnia, com base em 200 entrevistas com os afetados.

Esperança de conseguir asilo

Buenaventura Martín com seus filhos, na quarta-feira, em Homestead.
Buenaventura Martín com seus filhos, na quarta-feira, em Homestead.G. VIERA

La Pasadita é um lugar pequeno e mal iluminado. A chefa, cubana, faz contas num canto com uma calculadora. Bayly volta a insultar Maduro. “Tenho mais respeito por uma barata ou uma tarântula.”

Pedro Godínez continua encerrado num centro de indocumentados no Texas, com uma ordem de deportação detida por um advogado de ofício. A família recebe ajuda de Nora Sándigo, defensora dos direitos das crianças imigrantes. Foi ela que intercedeu junto ao Governo para que a menina fosse enviada de Michigan ao aeroporto de Miami para se reunir com a mãe. Agora, Nora tenta conseguir a libertação de Pedro. “Dissemos a ele, pelo telefone, que não assine nenhum documento para não ser deportado. Já lhe fizeram testes de DNA para confirmar que é o pai da menina. Tenho esperança de que lhes deem asilo e que todos possam ficar aqui”, diz ela, pelo telefone.

“Todos os dias, peço a Deus que nos dê a oportunidade de viver nos EUA”, diz Buenaventura Martín. “Também pedi perdão muitas vezes por ter feito meus filhos sofrer. Na Guatemala, me diziam que este era um país de lei que ajudava as famílias, mas o que passamos foi um inferno. Quando soube que meu esposo e minha filha estavam separados, pensei que iam dá-la em adoção e me senti muito triste e arrependida.”

Pedro e Buenaventura moravam em Huehuetenango. Ela era enfermeira, ele tinha uma LAN house. “Infelizmente, tivemos que vender o negócio para vir para cá, pois nos extorquiam todos os meses e nos ameaçaram de morte”, conta a mãe. Buenaventura é filha de camponeses, mas diz que nunca trabalhou no campo porque seus país lhe deram estudo. Em Homestead, encontraram emprego plantando flores num viveiro por 250 dólares (950 reais) semanais. Se ficar nos EUA, deseja obter o título de enfermeira.

– ¡Twitz jaj! – exclama Janne, mostrando-lhe o celular.

– Uma colcha, em mam – traduz a mãe.

Buenaventura também pedirá asilo, embora não saiba o que fazer se deportarem seu marido. “Eu preciso dele, e ele precisa de nós”, diz. O casal conversa pelo telefone algumas vezes por semana. Através do advogado, Pedro mandou uma foto de uma folha de caderno em que desenhou duas borboletas se olhando no ar. E escreveu: “Logo estaremos juntos.”

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