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Dilma Rousseff, em busca de uma redenção nas urnas em Minas Gerais

A ex-presidenta confirma candidatura ao Senado em sua terra natal, considerada uma batalha menos difícil do que tentar a sorte no Rio Grande Sul. Se Aécio conseguir concorrer, disputa 'dois caídos' pode reeditar 2014

Dilma em ato em Curitiba, em abril.
Dilma em ato em Curitiba, em abril.

Quase dois anos depois de ser destituída da presidência da República por meio de um impeachment, Dilma Rousseff volta à cena político-eleitoral. A petista anunciou sua pré-candidatura ao Senado pelo seu Estado natal, Minas Gerais. Após meses de especulação, a confirmação de que a ex-presidenta buscará uma redenção —e um novo rumo político— nas urnas, com o incentivo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba, se deve a uma série de fatores, entre eles o desejo de ter um palco para defender suas ideias e confrontar as agendas dos Governos petistas (2003-2016) e a de seus principais adversários, o PSDB e seus satélites (1995-2002).

Seu principal adversário ao Senado pode ser Aécio Neves, o mesmo que disputou com ela, e perdeu, a Presidência em 2014. Se a candidatura do tucano é incerta por causa dos escândalos de corrupção que o envolvem –nem mesmo seus aliados o querem no mesmo palanque—, a dela também pode sofrer alguns questionamentos jurídicos. É que Dilma só conseguiu manter seus direitos políticos após costurar uma manobra no Senado Federal que a cassou. A primeira batalha já foi anunciada. O PSDB de Minas Gerais tentará evitar que ela seja candidata por entender que, por ter sofrido impeachment, ela teria seus direitos políticos cassados. Quando a petista foi destituída, o Senado votou uma cláusula que mantinha o direito da ex-presidenta de concorrer, desde que não fosse para o cargo máximo da República. Ou seja, os senadores a liberaram para disputar vagas no Congresso Nacional. Os tucanos dizem que, se o Ministério Público Eleitoral não impugnar a candidatura dela, o próprio PSDB o fará.

Minas mais fácil do que o Rio Grande do Sul

Antes mesmo de ser indagada sobre a razão de estar concorrendo por Minas, onde nasceu, e não pelo Rio Grande do Sul, onde fez sua carreira política, a ex-presidenta afirmou, na semana passada: “Por que Minas Gerais? Primeiro porque eu nasci aqui (...) Não saí daqui porque quis. Saí porque eu fui perseguida pela ditadura militar”. Militante de movimentos de resistência ao regime militar, Rousseff se mudou para Porto Alegre e acabou presa e torturada.

Essa mudança de domicílio eleitoral será um dos pontos a serem explorados pelos seus adversários em um dos Estados mais bairristas do país. “Ela veio para cá para explorar o discurso nacional. Colocar em debate duas agendas para o país. Mostrar que, depois que ela saiu do Governo, estamos passando por um desmonte. Não se trata de ser uma eleição mais fácil do que em outros lugares”, afirmou o deputado federal Patrus Ananias (PT-MG), que será um dos articuladores da campanha dela ao Senado.

Apesar das falas oficiais seguirem neste caminho, uma das análises do PT é a de que no Rio Grande do Sul Rousseff poderia dividir votos com Paulo Paim, um histórico senador do partido que disputará a reeleição. Em Minas, não havia um candidato ao Senado pela legenda com tanta aceitação popular. Além disso, a máquina estatal está nas mãos do amigo da ex-presidenta, o governador Fernando Pimentel, que concorrerá à reeleição.

E como enfrentar a má avaliação de seu Governo que, na véspera do impeachment, tinha a aprovação de 8% da população? “Há um crescente sentimento da população de solidariedade a ela e de repulsa ao golpe que a afastou da presidência. Tanto que a aprovação ao presidente que a substituiu [Michel Temer] é de 4%. E a rejeição supera os 80%", diz Patrus.

Apesar de Rousseff querer se digladiar com Aécio, o fato é que ambos poderão ser eleitos. Neste ano, cada Estado elege dois senadores. As pesquisas mais recentes colocam tanto a petista quanto o tucano com chances de eleição. Conforme um levantamento do DataPoder360, Dilma teria 13% dos votos dos eleitores mineiros. Aécio, 12%. Em uma pesquisa que tem margem de erro de dois pontos percentuais, estão tecnicamente empatados com outros dois concorrentes: Bruno Siqueira (MDB, 13%) e Carlos Viana (PHS, 11%). O primeiro embate de Aécio, contudo, será contra seus aliados. Seu afilhado político e pré-candidato ao Governo, o senador Antonio Anastasia, já deixou claro que não quer dividir o palanque com ele. Uma possibilidade é que Aécio concorra a uma vaga na Câmara.

Histórico eleitoral

Em seu primeiro discurso como pré-candidata oficial, Dilma seguiu a linha que tem sustentado desde que deixou a cadeira presidencial. Repetiu que foi vítima de um golpe. Revelou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso em Curitiba (PR), foi um de seus incentivadores e que tentará transferir para Minas a disputa nacional. A mágoa com a imprensa também ficou registrada em sua fala para um pequeno grupo de jornalistas que a aguardava no hall de um hotel de Belo Horizonte. “A imprensa pactuou com o meu golpe. Hoje fingem dar moleza. Mas não pensem que eu me esqueci. Não esqueci, não. Sei perfeitamente o processo que fizeram contra mim. Sei perfeitamente da campanha misógina e machista que fizeram contra mim.”

Antes de se eleger presidenta em 2010, Rousseff nunca havia disputado uma eleição. Foi chamada de “o poste do Lula”, por ter sido a aposta dele para a sucessão presidencial tendo esse histórico. Acabou reeleita em 2014 na disputa mais apertada do país, na qual ganhou de Aécio Neves pela diferença 3,4 milhões de votos. Um dos Estados em que venceu o tucano foi exatamente Minas Gerais, onde ela teve 5,9 milhões de votos e ele, 5,4 milhões.

Considerada sem traquejo político, Rousseff enfrentou uma profunda recessão econômica e a eclosão da Operação Lava Jato com força total: sem ter onde se sustentar, acabou sofrendo o impeachment pelo Congresso Nacional em 2016 por um motivo tido como menor - as chamadas pedaladas fiscais. Desde então, passou a se dedicar a frequentar encontros internacionais nos quais fala de seu impeachment, assim como marca presença em eventos de apoio a Lula. Não consta que tenha poder decisório ou influência no PT. 

Se chegar ao Senado, Rousseff seguirá os passos de três dos outros cinco ex-presidentes após a redemocratização do país. José Sarney (MDB), Fernando Collor (PTC) e Itamar Franco (PPS) acabaram se elegendo senadores depois que passaram pela presidência. No caso de Collor, há uma semelhança a mais com Dilma, ele também sofreu um impeachment. Dos os outros dois presidentes restantes, um não disputou a eleição, caso de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), outro está preso por corrupção e tenta na Justiça se candidatar novamente à presidência, caso de Lula da Silva.

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