Seleccione Edição
Login

Dilma: senadores relutantes com impeachment mantiveram direitos

O apoio do partido a um projeto de novas eleições agora que ela saiu do poder é natural, diz a ex-presidenta

A ex-presidenta Dilma em entrevista a jornalistas estrangeiros
A ex-presidenta Dilma em entrevista a jornalistas estrangeiros AFFP

O conjunto de mastros na portaria do Palácio da Alvorada não deixa dúvidas: o local construído para ser a residência do Presidente do Brasil está sem presidente. Estão ali as bandeiras do Brasil, ao centro, e a do Mercosul, à sua direita. Mas o poste da esquerda está vazio. Ele era ocupado pela bandeira presidencial verde com o símbolo da República ao centro. Até o começo da semana, a rotina era simples: se o presidente, qualquer que fosse, estivesse em casa, a bandeira estava hasteada no topo. Caso contrário, um grupo de soldados do Exército marchava até seus pés e a deixava a meio-mastro. Mas dois dias depois de a ex-presidenta Dilma Rousseff ser cassada, um único homem a retirou. A flâmula seguia para o Palácio do Jaburu, onde Michel Temer, agora presidente, vive com sua família.

Na próxima semana, o palácio inteiro ficará, ao menos momentaneamente, sem inquilino. Apesar dos 30 dias que tem para sair, Rousseff já deverá se mudar de vez. Seguirá, primeiro, para Porto Alegre, onde vive sua filha e fica seu apartamento. Também poderá passar um período no Rio, onde vive sua mãe. Antes de deixar Brasília, ex-presidenta decidiu reunir os jornalistas estrangeiros nesta sexta-feira para dar sua primeira entrevista depois de ser deposta. Ela voltou a se defender das acusações de que pedalou ao atrasar os repasses do Banco Safra e de que cometeu crime, ao assinar os decretos de abertura de crédito suplementar. Tratou, também, da polêmica que tomou o país esta semana sobre o fatiamento da votação do seu impeachment que lhe garantiu manter os direitos políticos, mesmo afastada do poder. Nesta quinta, o PMDB, PSDB, DEM e PPS entraram com um recurso no Supremo para suspender a decisão.

O advogado José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça de Rousseff, que participou da coletiva, afirmou que recorrerá contra o processo dos partidos. “É correto, pela não gravidade do comportamento. E porque há um grande jurista chamado Michel Temer que diz que isso é correto”, ironizou, ao citar o livro Elementos do Direito Constitucional, do atual presidente da República. Ele leu ainda um trecho do livro, em que se afirma que existem “duas penas” no processo de impeachment: a perda do mandato e a inabilidade política. Por isso, argumentou, é justo que se julguem as duas coisas separadamente.

Rousseff afirmou achar “estranhíssimo” o resultado da votação. “Vota de uma vez um jeito e outra vez de outro jeito. Em Minas Gerais a gente ficaria desconfiado. Nem sempre a estrada dos votos é uma estrada de ferro. Ela, às vezes, é muito tortuosa”, afirmou. Muitos senadores, observa, estavam indecisos e desconfiados com esse processo de cassação. “O segundo voto [que a livrou de perder os direitos políticos] é o daqueles que não consideram que, de fato, cabia uma punição. São senadores que estavam indecisos e que sofreram pressões [do Governo Temer]”, disse. A ex-presidenta lembrou, ainda, que seus eleitores não endossam o nome de seu antigo vice. “Acho gravíssimo o fato de que um programa que não é o eleito pelas urnas seja executado nos próximos anos. A consciência de que a democracia foi julgada comigo eu tenho e parte da sociedade progressivamente terá. Infelizmente perdemos e espero que nós juntos saibamos reconstruí-la.”

Ela avalia que o argumento de que a manutenção dos direitos políticos caberá para Eduardo Cunha é uma forma de “introduzir na mídia e no meio político” a ideia de que Eduardo Cunha poderá se beneficiar. “Eduardo Cunha tem contas no exterior, recebia propina. Eu sou julgada, Eduardo Cunha, não. Até as emas do Alvorada sabem que a lei pra mim é uma [do impeachment] e para os senadores e deputados é outra [a Lei da Ficha Limpa].” Está convencida que a razão maior para que tivesse seu mandato abreviado seriam as investigações da Lava Jato. E citou as ligações gravadas entre o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, e o senador Romero Jucá, que insinuavam a necessidade da sua saída para “estancar a sangria”, em referência à operação conduzida pelo juiz Sérgio Moro.

Numa das últimas cartadas, enquanto tentava manter seu mandato, a ex-presidenta acenou aos senadores que faria um plebiscito por novas eleições caso impeachment não fosse aprovado. Seu partido, porém, não apoiou a ideia. Agora que está fora, o PT decidiu abraçar o discurso das “Diretas Já”. Rousseff garante que não “guarda nenhuma mágoa do PT” por isso. “Mudar de posição é da vida. Eu recebia aqui muito mais pressão [por novas eleições]. Lula esteve presente comigo em todo esse processo, me encheu de apoio e carinho e sugiro que vocês desistam dessa história de tentar me indispor com Lula. Quem está querendo eleições diretas é o povo nas ruas”, afirmou.

Enquanto o país digere as mudanças de poder, ela avisa que tentará reverter seu processo de impeachment. Além de um mandado de segurança que foi impetrado nesta quinta-feira contra a decisão do Senado, que pede para que o julgamento seja refeito, Eduardo Cardozo entrará com um segundo recurso junto ao Supremo Tribunal Federal. Este novo mandado será para discutir duas questões distintas do anterior. A primeira, o que ele chama de "vícios do processo legal", que afirma que os senadores feriram o direito de defesa, pois muitos senadores haviam dito que não mudariam de opinião independentemente das provas da defesa. "O mínimo que se espera do direito de defesa é que se ouça essa defesa", ressaltou ele. O segundo motivo do recurso, diz ele, é que houve falta de justa causa para o impeachment. “Se não tem pressuposto jurídico, não pode ter o processo político. É uma questão de estabilidade democrática”, ressaltou.

Nos últimos dois dias, Rousseff andou de bicicleta nos arredores do Palácio, como costuma fazer sempre. Mas, sem compromissos oficiais agendados, saiu um pouco mais tarde do que o habitual, perto de 8h. Talvez tenha se curado da insônia dos últimos dias e dormido até mais tarde. Perto da hora do almoço, nesta sexta-feira, algumas caixas de papelão se movimentaram pela entrada do prédio, mas chamaram a atenção dos poucos cinegrafistas que faziam plantão e foram guardadas rapidamente.

MAIS INFORMAÇÕES