Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Há exatos 60 anos a seleção brasileira levantava a taça pela primeira vez

Improvisando dentro e fora de campo, Brasil contou com grandes atuações de Didi, Garrincha e Pelé para vencer Copa do Mundo da Suécia, em junho 1958

Vicente Feola (treinador), Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar. Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e Zagallo.
Vicente Feola (treinador), Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar. Garrincha, Didi, Pelé, Vavá e Zagallo. Getty Images

Há exatas seis décadas, no dia 29 de junho de 1958, um domingo de verão em Estocolmo, Pelé iniciou um gol eternizado na história das Copas do Mundo: matou a bola no peito dentro da área da Suécia. Ela pingou uma vez no chão antes do craque chapelar o zagueiro Gustavsson e concluir no canto do goleiro Svensson. Àquela altura, aos 10 minutos do segundo tempo, o Brasil abria 3 a 1 na final da Copa, de virada, contra os donos da casa. A partida ainda teria mais três gols (acabou 5 a 2), mas o momento em que o chute do camisa 10 entrou já provava que a taça Jules Rimet, que premiava o melhor selecionado do planeta, merecia outro país como dono depois de uruguaios, italianos e alemães a erguerem. Pela primeira das cinco vezes, o futebol brasileiro conquistava o mundo. “Foi ali que nos tornamos o país do futebol”, afirma Roberto Benevides, jornalista, curador da exposição “A Primeira Estrela: o Brasil na Copa de 1958”, abrigada pelo Museu do Futebol, em São Paulo, e uma das crianças brasileiras que acompanharam a trajetória da seleção em 58 pelo rádio.

Pelé ainda faria outro gol na final, o quinto do Brasil, antes de ser coroado com apenas 17 anos. O camisa 10 que, por acaso, ficou com a 10, já que a numeração dos jogadores brasileiros naquela Copa não foi definida de acordo com posições ou titularidade. “Dizem que foi símbolo da bagunça brasileira”, conta Benevides. “Esqueceram de mandar a lista na época e alguém preencheu usando um critério qualquer”. Gilmar, goleiro, ficou com a 3; Zózimo, zagueiro, com a 9; De Sordi, lateral-direito, com a 14. Mas Pelé ficou com a 10. “E, pela posição, seria ele mesmo o 10. Ele chegou ao Mundial contundido, por isso começou no banco, mas fazia parte dos planos de Vicente Feola [o treinador]. Já falavam bem dele há um ano”, comenta Roberto Benevides. Assim como o craque, Garrincha, que “tinha fama de lento e irresponsável”, e Zito, volante que “foi fundamental”, iniciaram a competição como reservas de Dida, Mazzola e Dino Sani, respectivamente.

Pôster oficial da Copa do Mundo de 1958, na Suécia.
Pôster oficial da Copa do Mundo de 1958, na Suécia.

O Brasil estreou vencendo a Áustria por 3 a 0, dois gols de Mazzola e um de Nilton Santos, mas na partida seguinte empatou com a Inglaterra por 0 a 0. “Foi a primeira vez que a seleção tinha planejado algo organizado, com amistosos na Europa antes do torneio e uma equipe da área médica, mas não havia clima de favoritismo”, diz Roberto. O resultado sem gols lembrava as participações anteriores do país, que tinha feito campanhas modestas em 1930, 1934, 1938 e 1954, além da traumatizante derrota para o Uruguai no 'Maracanazo', em 1950. Após o empate, conta a história que Paulo Machado de Carvalho, que era o chefe da delegação brasileira, reuniu Didi, meia que viria a ser o melhor jogador da Copa, Nilton Santos e o treinador Vicente Feola para analisar o que estava dando errado. “O time está bem armado na defesa, mas mal no ataque”, teria dito Didi, segundo conta Benevides. “Põe o Pelé e o Garrincha’, ele sugeriu. Era o dono do time”.

Os dois, mais Zito, entraram no último jogo da primeira fase, contra a União Soviética. Em três minutos de jogo, Pelé acertou a trave, Garrincha também carimbou o poste e Vavá abriu o placar. “Os três minutos mais impressionantes da história do futebol”, escreveu Gabriel Hanot, jornalista francês editor do jornal L’Equipe na época. Vavá ainda marcou outro na vitória por 2 a 0. “Foi o jogo mais simbólico, que consolidou a confiança da equipe”, diz Benevides. Depois da URSS, o Brasil venceu o País de Gales por 1 a 0, com golaço de Pelé, e a França por 5 a 2, com três gols do Rei, antes de enfrentar a Suécia na final.

Anfitriões, os suecos jogariam de amarelo, mesma cor do escrete canarinho. O Brasil, então, precisaria arrumar um uniforme com uma cor diferente, de última hora, para entrar em campo. “Já se usavam camisas azuis nos treinos, mas não as mesmas que foram utilizadas na final”, conta Roberto. “Paulo Machado de Carvalho ficou com medo da superstição dos jogadores, porque eles não iriam jogar com o uniforme com qual chegaram até ali. Por isso, inventou o recurso psicológico de arrumar camisas azuis e falar que era a cor do manto da padroeira do Brasil”, afirma Benevides, se referindo ao azul usado pela Nossa Senhora Aparecida. “Parece que funcionou”.

A Suécia, de amarelo, saiu na frente logo aos quatro minutos, gol de Liedholm. Didi, o "dono do time", foi quem buscou a bola no fundo do gol e levou até o meio-campo para que os brasileiros, vestindo azul, reagissem. Vavá empatou e virou, Pelé fez o seu, Zagallo aumentou, Simonsson diminuiu e Pelé, de novo, completou. "A seleção brasileira era tão boa que eu temia começar a torcer por ela", afirmou o treinador sueco, George Raynor, após o apito final. O 5 a 2 também não abalou o público presente no estádio Rasunda, que invadiu o campo para comemorar com os brasileiros e viu os jogadores darem uma volta olímpica com a bandeira sueca pelo gramado. Garrincha resumiu sua irreverência ao comparar o Mundial com campeonatos nacionais, em frase que também ficou famosa logo após o título: "Campeonatinho mixuruco, nem tem segundo turno!".

Bellini, por ser o capitão, foi o encarregado de receber o troféu de campeão. Incomodada por não conseguir as melhores fotos no meio da comemoração, a imprensa pediu para que o zagueiro levantasse a Jules Rimet acima da cabeça, em um gesto nunca antes feito pelos vencedores. E foi assim que, com numeração confusa, uniforme improvisado e um craque de 17 anos, o Brasil ergueu, literalmente, sua primeira taça da Copa do Mundo.

"A primeira estrela"

Alojada no Museu do Futebol, no estádio Pacaembu, em São Paulo, do começo de junho até setembro, está a exposição “A Primeira Estrela: o Brasil na Copa de 1958”, que conta a história da seleção brasileira no Mundial da Suécia. “É bastante interativa, com imagens inéditas; recriamos a final em um espaço aqui de um jeito que ninguém viu na época”, conta Eric Klug, diretor do museu. Afinal, ver o Mundial na época não era possível, uma vez que as transmissões eram feitas via rádio para o Brasil. “Não era nascido ainda mas, como a comunicação era precária, a Copa trazia isso da união de várias pessoas em torno de um radinho. Os jogos eram dramas jornalisticamente conduzidos”, afirma o diretor. Para ele, a conquista da primeira Copa do Mundo traduziu muito do que era o Brasil, simbolizado pela superstição, improviso e desorganização demonstrados nos episódios da numeração e dos uniformes azuis, além, é claro, dos dribles encantadores frutos das pernas tortas de Garrincha e da ousadia de Pelé. Relembrando o contexto da época, Klug fala da conquista mundial como algo que fez parte de um cenário otimista que tomava conta do país na época. “O sucesso da bossa-nova, a construção de Brasília, o título no futebol… difícil dizer o que é causa e consequência, mas tudo fez com que o brasileiro ganhasse autoestima e projeção internacional naquele período”.

MAIS INFORMAÇÕES