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Intervenção no Rio faz um mês sem plano nem dinheiro e pressionada apurar caso Marielle Franco

Polícia Civil descobre que munição pertencia ao mesmo lote usado na chacina de Osasco.

Manifestantes voltam a se reunir no centro do Rio para homenagear a vereadora

Manifestantes voltam às ruas no Rio, em menor quantidade, para protestar contra morte de vereadora.
Manifestantes voltam às ruas no Rio, em menor quantidade, para protestar contra morte de vereadora. AP

Dois dias depois do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Pedro Gomes, a investigação da Polícia Civil concluiu que a munição utilizada para pelos atiradores, de calibre 9mm, pertencia ao lote UZZ-18 vendido pela empresa CBC para a Polícia Federal de Brasília, em 29 de dezembro de 2006, que acabou roubado na Paraíba, segundo o Governo. Foi desse mesmo lote que saiu parte da munição utilizada por policiais na maior chacina de São Paulo, em 2015.

Foi a informação mais importante do dia sobre o crime político de repercussão internacional que joga toda a pressão sobre o Governo de Michel Temer (MDB), que apostou em uma inédita intervenção federal no Rio. No papel, o número 1 da segurança no Rio é o general e interventor federal Walter Souza Braga Netto, mas ele se mantém fora dos holofotes, assim como o governador Luiz Fernando Pezão (MDB) — ambos se limitaram a emitir uma nota nesta quinta lamentando a execução. Quem tomou a dianteira como porta-voz do Governo e balizador das investigações foi o ministro da Segurança, Raul Jungmann, que disse que a Policia Federal destacou "o melhor especialista em impressões digitais e DNA" para avaliar o material das cápsulas encontradas no local onde a vereadora e seu motorista foram mortos. A declaração implica um envolvimento da Polícia Federal no caso, ainda que seja a Polícia Civil do Rio que lidere a investigação formalmente.

O arranjo aparentemente heterodoxo nas apurações e a mobilização pelos assassinatos são só mais um dos desafios da intervenção, que completou um mês nesta sexta-feira sem ter um plano de ação apresentado à população e sem recursos para às Polícias Militar e Civil colapsadas. "Se os recursos prometidos forem entregues a nós, os resultados irão aparecer", disse o novo secretário de Segurança, o general Richard Nunes, segundo o G1. Até agora não se sabe quando as polícias serão reequipadas nem o que será feito com as 38 Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), programa do Governo Sérgio Cabral — hoje preso e condenado — que consistia em ocupar favelas do Rio com a polícia. O novo comandante da PM prometeu um freio de arrumação, mas não ofereceu mais detalhes. Na prática, a intervenção até o momento se limitou a repetir operações das Forças Armadas em comunidades como a Vila Kennedy, a partir de um decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) do ano passado.

É nesse clima de incertezas que o noticiário se povoa de poucos detalhes sobre o duplo homicídio que reativou as ruas no país. Um deles é o depoimento que a assessora de Marielle, sobrevivente do atentado, deu na Delegacia de Homicídios da capital. Segundo informou o jornal O Globo, ela contou que uma funcionária da vereadora foi abordada por um homem de forma ameaçadora em um ponto de ônibus há cerca de 10 dias. Ele questionou, em tom ameaçador, se a funcionária trabalhava com a vereadora. Ainda de acordo de acordo com o jornal, a mulher disse em seu depoimento ter estranhado o tom e o fato de ter ligado seu nome a Marielle. No entanto, a assessora garantiu que a vereadora não estava sendo ameaçada, apesar de receber muitas denúncias de moradores, especialmente os que vivam na área do 41º Batalhão da PM. Quatro dias antes de sua morte, Marielle vinha denunciando a truculência dos policiais deste batalhão contra os moradores da favela do Acari, na Zona Norte.

A Polícia Civil acredita na hipótese e execução e investiga se milicianos da Zona Oeste do Rio estão envolvidos. Antes de ser vereadora, Marielle assessorou o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) na Comissão de Direitos Humanos da ALERJ e trabalhou com ele na CPI das milícias, que indiciou 200 pessoas. A partir de câmeras, a polícia já sabe que Marielle foi seguida desde o local onde estava, na Lapa. E suspeita que ao menos três pessoas, divididas em dois carros, tenham participado do crime.

Para muitos dos que estão se manifestando em homenagem a Marielle, há um consenso: acusar  policiais militares pelo duplo assassinato. A manifestação desta sexta-feira foi convocada nas redes sociais para às 17h em frente à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), na rua Primeiro de Março. Como no dia anterior, a intenção era marchar, a partir das 18h, pela avenida Rio Branco em direção a Cinelândia, onde fica a Câmara dos Vereadores. O ato começou com algumas dezenas de pessoas sentadas na escadaria da ALERJ segurando velas e cartazes. O ato foi ganhando corpo e conseguiu reunir algumas centenas de pessoas, muito longe das milhares que lotaram o centro na quinta-feira. O perfil de manifestantes também era diferente: no dia anterior havia um maior mistura geracional e uma forte presença dos movimentos negro e das periferias; nesta sexta, o ato foi guiado sobretudo por uma juventude, grande parte universitária, ansiosa em manter as ruas ocupadas — como ocorreu em junho de 2013.

Mulher e criança morrem no Alemão

A noite seguiu, longe dali, com mais uma nota de horror para encerrar o primeiro mês da intervenção: uma criança de dois anos e uma mulher de 58 foram mortos e outras três pessoas acabaram feridas durante uma troca de tiros no Complexo de favelas do Alemão, na Zona Norte do Rio. A criança, identificada como Benjamin, tinha síndrome de Down e estava no carrinho quando foi atingida na cabeça. Sua mãe foi baleada de raspão na barriga e no braço. Segundo a Polícia Militar, quatro homens armados com fuzil passaram pela polícia de carro e foram interceptados. Durante a troca de tiros, as vítimas teriam sido atingidas por "balas perdidas", assegura a corporação. A instituição ainda acrescenta que a UPA do Complexo do Alemão foi depredada por moradores, mas uma postagem no Facebook do Coletivo Papo reto mostra uma foto de sua estrutura intacta e nega afirmação da PM. Nas redes sociais, moradores se mostram indignados com a situação e questionam até quando terão que conviver com essa insegurança.

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