Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

O dia seguinte dos ativistas do Rio: entre o medo e a indignação ativa

Ativistas e especialistas reagem aos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes e apontam que apenas uma resposta enérgica do Estado garante a segurança dos militantes

Marielle Franco
Homenagem à vereadora do PSOL Marielle Franco durante ato na Câmara dos Deputados em Brasília, nesta quinta-feira, 15 de março. EFE
São Paulo / Rio de Janeiro

Um misto de medo e esperança. Assim especialistas em segurança pública, direitos humanos e ativistas vislumbram o futuro da militância nas comunidades pobres do Rio de Janeiro após o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Ambos foram baleados na noite de quarta-feira em uma emboscada no centro da capital fluminense. A parlamentar tinha um histórico de militância contra abusos da polícia nas favelas. A questão que se coloca é: se uma autoridade eleita com mais de 46.000 votos pode ser executada em uma região nobre da cidade, o que o futuro reserva para ativistas nos becos e vielas?

A Marielle era a voz dos sem voz. Mulher, negra e favelada. Ceifar a voz dela de forma bárbara coloca em questão a possibilidade de que outras pessoas possam tomar essa voz e seguir adiante”, afirma o sociólogo Ignácio Cano, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Mas o professor também vislumbra uma “mobilização crescente” em defesa dos direitos básicos após a morte da vereadora. Ele cita como exemplo o crime da juíza Patricia Acioli, assassinada por policiais corruptos em 2011. “A morte da juíza mudou o panorama, fez com que um grupo de policiais fosse condenado e, no final, teve consequências positivas para a Justiça e a sociedade. Esperamos que o assassinato da Marielle também traga algo bom para futuro, por mais doloroso que possa ser agora”.

A diretora da ONG Human Rights Watch para o Brasil, Maria Laura Canineu, afirma que o momento é de apreensão. “Essa morte tem o efeito de provocar medo principalmente para os ativistas que trabalham nas comunidades, na linha de frente da defesa dos direitos humanos e que lidam com a militarização crescente das operações”, diz. De acordo com ela, o assassinato de uma militante histórica detentora de um mandato eletivo tem força para provocar “auto-censura” em alguns ativistas. “Essa questão do medo foi a primeira que me veio à cabeça quando fiquei sabendo do crime. Aí quando cheguei no Rio nesta quinta-feira eu me deparei com um clima impressionante, de que as pessoas não estão dispostas a deixar ficar assim”, afirma Canineu. A diretora vislumbra um clima de “indignação ativa” entre militantes e simpatizantes da causa dos direitos humanos. “Não uma indignação que paralisa, mas uma que faz agir”.

As pessoas que lotaram o centro do Rio de Janeiro nesta quinta-feira para homenagear a vereadora falavam justamente em dar continuidade a sua luta, em não deixar que seu assassinato calasse seus princípios. "Todos somos Marielle", repetiam. Mas esse ambiente de "indignação ativa" descrito pela diretora da HRW se misturava com certa tensão no ar. Se tiveram a audácia de assassinar uma popular vereadora no centro da cidade, isso significa que qualquer um poderia ser o próximo, dizia-se. "Nunca imaginei que estaria aqui hoje por causa da Mari. Tenho medo do que pode acontecer", relatou ao EL PAÍS um ativista da periferia.

A questão que se coloca é: se uma autoridade eleita com mais de 46.000 votos pode ser executada em uma região nobre da cidade, o que o futuro reserva para ativistas nos becos e vielas?

Para Canineu, o futuro dos ativistas e militantes nas favelas do Rio está nas mãos do Estado. “A resposta que o Governo e o Poder Judiciário vão dar irá determinar os rumos da situação. Agora é a hora deles demonstrarem comprometimento pela luta contra a impunidade: os assassinatos precisam ser esclarecidos e de forma rápida”, diz. O retrospecto brasileiro neste ponto é, “infelizmente”, um fracasso: “O Estado tem falhado sucessivamente na investigação de crimes, sejam cometidos por policiais ou ex-policiais ou contra policiais. Há um fracasso completo na investigação de homicídios como um todo no país”.

A apuração do crime ficará a cargo do Departamento de Homicídios da Polícia Civil - o chefe da corporação, Rivaldo Barbosa, disse que eles têm "todas as condições para elucidar o assassinato". O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, ofereceu a ajuda da Polícia Federal para auxiliar nas apurações.

Na página do Facebook do Maré Vive, que monitora violações dos direitos humanos no complexo de favelas da Maré, o último post dá uma ideia do clima. “Não pensem que vamos arregar o pé na LUTA pela garantia da VIDA de nossos DIREITOS. Por ELA [Mariella] por NÓS por TODOS e TODAS. #LUTOemLUTA #MARIELLEPRESENTE”.

MAIS INFORMAÇÕES