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‘Quem matou 19?’: o Governo de São Paulo ainda não tem respostas

21 dias após os crimes em Osasco, secretário afirma que investigação segue ritmo próprio

O secretário Alexandre de Moraes.
O secretário Alexandre de Moraes.

Vinte e um dias se passaram desde que pistoleiros mascarados dispararam contra homens, mulheres e crianças em Osasco e Barueri, deixando 19 mortos. Mas o Governo do Estado de São Paulo ainda não tem uma resposta para a pergunta transformada em campanha nos moldes do Cadê o Amarildo?: Quem matou 19?. Nas redes sociais, internautas e militantes ligados à defesa dos Direitos Humanos, como o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Povo de Rua, posaram com cartazes com a cobrança. Suspeita-se de que os crimes foram cometidos por policiais militares e guardas civis em retaliação à morte de colegas em assaltos.

Na noite de quarta-feira o secretario de Segurança Pública paulista, Alexandre de Moraes, foi convidado a falar sobre a chacina na comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana da Assembleia Legislativa de São Paulo. Com a participação ativa da bancada da bala da Casa – os coronéis Telhada e Camilo e o delegado Olim, ambos historicamente ligados à polícia - ele respondeu à falta de novidades no caso afirmando que “o timing da política é um, o da imprensa, mais acelerado, é outro, e o da investigação é outro”. De acordo com ele, a investigação prossegue, com o “cruzamento de dados, a análise do material da perícia e os depoimentos de testemunhas”.

Até o momento um policial militar está detido por suspeita de envolvimento, após ser identificado por duas testemunhas no local do crime. “É difícil elucidar chacinas, a obtenção de provas nestes casos é mais complexa”, disse Moraes, referindo-se ao fato de que os suspeitos usavam máscaras, e em alguns casos recolheram os estojos de munição após os disparos. Mesmo assim, o secretario afirmou que a Polícia Civil esclarece “78% dos homicídios múltiplos ocorridos no Estado”. Ele disse ainda que nenhuma linha de investigação foi ainda descartada, mas deu a entender que é provável que PMs estejam envolvidos: “Policial que comete crime não é policial, é bandido de farda. Mas não se pode generalizar para a esmagadora maioria da corporação”. Ele descartou a existência de grupos de extermínio no Estado. A chacina de Osasco foi a mais violenta do ano, mas não o único episódio. Nos primeiros seis meses do ano, foram 10 chacinas no Estado de São Paulo, com 38 mortos, de acordo com levantamento da ONG Instituto Sou da Paz.

Indagado pelo presidente da comissão, o deputado Carlos Bezerra Jr. (PSDB) sobre reportagens da Folha de S.Paulo segundo as quais testemunhas do caso teriam sido expostas nos inquéritos, Moraes reagiu dizendo que as afirmações eram infundadas. “Não há fundamento algum nessas reportagens. Elas não têm relação com a realidade”, disse. De acordo com o secretário, foi oferecido para todas as testemunhas que elas permanecessem anônimas nos depoimentos, e elas também tiveram a oportunidade de ingressar no programa de proteção a testemunhas. “Nenhuma quis. Ao Estado cabe oferecer, mas não pode obrigar”, afirmou.

Cínico e frouxo é o Governo federal, que não fiscaliza as fronteiras e permite a entrada de armas e drogas

Representantes da ONG Rio de Paz seguravam faixas no plenário com a pergunta: Quem matou 19?. A presença incomodou o deputado Telhada, que ante uma reação dos militantes se voltou irritado para a galeria superior: “Vocês estão falando muito!”. O ex-comandante da Rota, a tropa de elite da PM frequentemente associada a violações dos direitos humanos, também se mostrou descontente com a exibição de um trecho da reportagem do programa Profissão Repórter, da TV Globo, sobre o caso. “Acho isso desnecessário”, disse ao presidente da comissão. Telhada também disparou contra as testemunhas. “Existe uma usina de falsas testemunhas que não provam nada”, disse, afirmando ainda ter a impressão de que muitas “são arregimentadas pelo crime organizado”.

No final da audiência, provocado por um deputado do PT que taxou o governador Geraldo Alckmin (PSDB) de incompetente, Moraes, filiado ao PMDB, respondeu atacando os oposicionistas petistas de Brasília: “Cínico e frouxo é o Governo federal, que não fiscaliza as fronteiras e permite a entrada de armas e drogas. Isso porque não tem dinheiro, que vai todo para a corrupção”. Quem foi para a audiência querendo saber quem matou os 19 saiu sem respostas.

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