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As obsessões de Osvaldinho da Cuíca, o embaixador do samba paulistano

Um dos maiores nomes da percussão brasileira, obcecado pela perfeição, diz que já não tem energia para o Carnaval

Osvaldinho da Cuíca em sua casa no Cambuci
Osvaldinho da Cuíca em sua casa no Cambuci

Por trás de toda a paulistice do Osvaldinho da Cuíca – conserva um típico sotaque antigo das ruas de São Paulo, caracterizado por erres bem marcados; habita um sobrado do Cambuci, bairro da gema da cidade; tem um cão bravo e diligente da raça rottweiller que atende pelo nome de Xereta e protege sua garagem –, há um espírito japonês. É que no modo como executa qualquer instrumento de percussão, existe uma obsessão pelo som perfeito, pelo ritmo perfeito, em suma, pela execução sublime, algo bem ao estilo nipônico. E não é exagero. Não à toa, quando esteve no Japão, no começo dos anos 2000, cativou a todos. É realmente algo meio joão-gilbertiano, para citar outro obsessivo que encanta os habitantes da terra do sol nascente. Osvaldinho, seja no pandeiro, no tamborim ou na cuíca, que lhe empresta o apelido, é reconhecido como um dos maiores sambistas do Brasil.

O André Domingues, pesquisador que assinou o livro Batuqueiros da paulicéia: enredo do samba de São Paulo ao lado do Osvaldinho da Cuíca, explica melhor. Ao contrário da maior parte dos artistas, que sempre buscam o estrelato, o disco solo, o reconhecimento pessoal, Osvaldinho procurou tão e somente ser o melhor percussionista. E, para isso, não desenvolveu apenas seu virtuosismo, mas, como um artesão, passou a moldar os próprios instrumentos às particularidades das sonoridades que imaginava e almejava. “O pandeiro dele, por exemplo, é todo transformado, com as platinelas [pratinhos de metal que ficam presos ao redor] rearranjadas. Ele estuda os jeitos que encosta no instrumento, a posição que o dedão fica e o som que causa, para depois fazer ajustes”, diz Domingues.

A poucos dias de completar 78 anos, Osvaldinho, que nasceu num 12 de fevereiro, em pleno Carnaval, diz já não tocar como antes. A energia necessária para manejar os instrumentos e o gingado, garante, já não são os mesmos. No sofá de sua sala, de estampa de tigre-de-bengala, com um indefectível amuleto de São Jorge pendurado no pescoço, conta que em 2016, durante um desfile da Vai-Vai, olhou a avenida do Anhembi de cima do carro alegórico e teve certeza de que vivia seu último carnaval. Depois daquilo, mudou tudo. Agora fica horas estudando medicina na internet e, obsessivo que é, preocupar-se com cada mínimo aspecto de sua alimentação. Qualquer condimento de sua cozinha é ele quem produz ou aprimora. É vegetariano e só bebe a água depois de um esquema meio complexo que envolve dupla filtragem e bicarbonato de sódio.

Em 2007, Osvaldinho tocou com Yoko Ono em São Paulo ampliar foto
Em 2007, Osvaldinho tocou com Yoko Ono em São Paulo

Quando envereda por uma vertente como essa, ele mesmo aconselha, é preciso pedir para que volte ao chão. Pois quarta-feira, 31, participou de um show no Theatro Municipal em homenagem a Adoniran Barbosa, um de seus parceiros mais ilustres. Como foi, Osvaldinho? “Ótimo, o Adoniran alcançou um respeito que só faz bem para a história do samba paulistano”. E samba paulistano é com ele mesmo. Além de exímio virtuose e artesão, ele tem ajudado uma série de pesquisadores e acadêmicos a desbravar as raízes do gênero, que tem origens rurais, em cidades como Pirapora do Bom Jesus, mas que também bebeu diretamente das ruas da capital. Osvaldinho próprio é o exemplo. Engraxate na adolescência, foi a batucada praticada nas caixas de botar brilho nos sapatos – algo fundamental na amálgama do samba paulistano – sua porta para a música.

Osvaldinho foi o primeiro paulista a ser eleito Cidadão Samba, em uma época em que era preciso saber tocar, dançar e cantar. Sua presença como percussionista é uma constante. Tocou com todos os grandes nomes do samba nacional. A lista é começar para não parar, mas lá vão alguns nomes: Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Geraldo Filme… Sua verve por pesquisa, porém, ganhou não de um sambista, mas de Solano Trindade, poeta, folclorista, teatrólogo, comunista e hoje símbolo do movimento negro no Brasil. Solano, natural do Recife, fundou em Embu das Artes, cidade vizinha de São Paulo, o grupo multiartístico Teatro Popular Solano Trindade, no qual Osvaldinho ganhou seu apelido.

Osvaldinho, além de virtuose, é um dos maiores especialistas em samba paulistano ampliar foto
Osvaldinho, além de virtuose, é um dos maiores especialistas em samba paulistano

“O Solano tinha uma visão do ‘Brasil grande’, meio ao estilo do Mário de Andrade. Era uma ideia de formação do nacional, de união de vários folclores e aí o Osvaldinho começou a enveredar por esse rumo também”, diz Domingues. Ao falar do antigo mestre, contudo, Osvaldinho acaba entrando em outra de suas obsessões: uma teoria conspiratória sobre uma espécie de complô secreto global – que envolve grandes líderes mundiais e países supostamente comunistas, como Índia e Rússia – para controlar corações e mentes. A opção por tratamentos alopáticos, da qual ele se declara inimigo, seria uma forma obscura de controle populacional. Bem desperto, Osvaldinho percebe quando o interlocutor duvida com os olhos, e então pondera: “Não sou o dono da verdade, mas…”.

A verdade é que a conversa com o sambista fica meio estranha sempre que se abre alguma brecha para política. E o problema é que essa brecha está em tudo. No tema da saúde, na história do Carnaval, nos momentos marcantes de sua carreira – como é o caso de sua passagem pelo grupo do comunista Solano Trindade. Suas novas obsessões têm lhe tomado tempo, como ele próprio admite:“Há dias em que fico até 4 horas da manhã estudando geopolítica e saúde no computador”.

Mas o samba continua sendo, inegavelmente, o pano de fundo de sua vida. Caio Ramos, o biógrafo de Germano Mathias, que ao lado de Osvaldinho da Cuíca é uma das figuras mais simbólicas do samba paulistano, conta que no começo dos anos 2000, quando Osvaldinho teve um câncer, sua salvação foi a música. “Ele buscou força na criação, nos sambas que escutava, que lembrava”, diz.

O sambista ficou conhecido como Osvaldinho da Cuíca quando passou pelo Teatro Popular Solano Trindade ampliar foto
O sambista ficou conhecido como Osvaldinho da Cuíca quando passou pelo Teatro Popular Solano Trindade

Nos anos 1970, Osvaldinho teve grande influência nas escolas de samba paulistanas. Transformou, por exemplo, o batuque da Vai-Vai na bateria da Vai-Vai. Escreveu dezenas de sambas-enredos, cunhou a expressão “Vai, Corinthians” ao compor “Vai Vai, Corinthians”, que foi usada pela Gaviões da Fiel no desfile de Carnaval de 1976. E, um dia, ao ler uma crônica assinada pelo crítico musical José Ramos Tinhorão sobre seu primeiro disco solo, em que tocava apenas sambas cariocas, juntou o que tinha aprendido com o Solano Trindade à sua experiência pessoal e virou o embaixador que é hoje do samba paulistano. “Nem leio crítica que fala bem, só as que criticam de verdade e o Tinhorão dizia que meu disco não contribuía em nada com as origens da música na minha cidade, a partir daí mudei de pensamento”, conta Osvaldinho. Hoje não é possível pensar em falar sobre essa história sem, pelo menos, recorrer ao sambista.

Já nas despedidas da reportagem, Osvaldinho tira um chapéu da estante e começa a explicar que hoje ninguém mais faz chapéus como aquele. E é só bater o olho para concordar. O chapéu assenta na cabeça do sambista como uma luva. “Antigamente, o ofício de chapeleiro era como o de sapateiro, era tudo sob medida. O cara fazia os moldes no vapor, cortava a aba de acordo com o tamanho da pessoa. Eu, por exemplo, que sou baixo e magro, só posso usar aba curta”, explica. Hoje, ele lamenta, é tudo padronizado. E o que vale pro chapéu, vale também para a cuíca. A mistura do metal já não é a mesma, a pele usada no tambor também não, nem a fita que vai atravessada no peito e sustenta o instrumento é igual. “É tudo sintético, não tem aderência, não tem ressonância, não presta. Esse mundo acabou”, declara. E o que fazer com sua busca pelo som perfeito? E por que as coisas foram tão massificadas, perderam sua singularidade? Aí, talvez, para um espírito como o dele, só uma ou outra conspiração para explicar.

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