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O artista francês que insiste em virar o mundo pelo avesso

Quem é o fotógrafo de óculos e chapéu que levou Madonna a uma favela do Rio de Janeiro?

O artista francês JR na Casa Amarela, seu projeto social no morro da Providência, a primeira favela do Rio Ver galeria de fotos
O artista francês JR na Casa Amarela, seu projeto social no morro da Providência, a primeira favela do Rio

Ao se preparar para cruzar a fronteira que o levaria de volta do México aos Estados Unidos, o artista francês JR tinha dois destinos possíveis quando mostrasse o seu passaporte. O agente de imigração podia checar seu nome no sistema, encontrar uma longa ficha policial cheia de detenções mundo afora e proibir sua entrada. Ou, sem saber quem tinha diante de si, podia simplesmente perguntar o que fazia um simpático francês de 34 anos com óculos de sol e chapéu naquela calorenta fronteira do mundo.

— Vim ver uma exposição.

— Ah! Aquela do menino olhando por cima do muro? O artista é francês também, não é?

— Aham…

— Eu não vi porque não tive tempo, mas muita gente aqui já foi ver.

O policial deixou-o passar sem saber que se tratava do mesmo francês que havia instalado um andaime em plena fronteira. Dele pendia uma foto em preto e branco de um bebê de mais de 20 metros de altura olhando por cima do muro que separa os Estados Unidos do México. A instalação, como a maioria das obras de JR, era ilegal, mas sua imagem deu a volta ao mundo e, desta vez, não o detiveram.

O suor frio que percorre seu corpo nos postos fronteiriços é mais uma razão para que o artista nunca revele seu verdadeiro nome. Com seus óculos e chapéu de aba curta poderia ser qualquer jovem hipster de Paris, Berlim ou Madri. Sem esses acessórios, seria um dos artistas urbanos mais reconhecidos do momento, que começou pichando edifícios e trens de Paris e que chegou ao Louvre com suas fotografias em preto e branco. JR circula entre as celebridades de Hollywood da mesma forma que convive com os moradores das comunidades mais pobres do mundo.

O artista francês que insiste em virar o mundo pelo avesso

O francês voltou às manchetes duas semanas atrás ao levar a Madonna ao morro da Providência, a primeira favela do Rio de Janeiro. A cantora apareceu no bairro sem escolta, apenas dois dias depois de uma turista espanhola morrer atingida pelo disparo de um policial em outra favela carioca. Madonna, com roupa de camuflagem, posou para uma foto com policiais armados. A imagem foi amplamente criticada pelos fãs. “Acredito que todo movimento que ela faz dá o que falar. Cometeu um erro, mas ela não sabia o contexto. Disse a ela que foi um erro depois, mas depois de publicada a foto já era tarde”, diz JR. “Por outro lado, a comunidade do morro sentiu um enorme orgulho de ter sido escolhida. Ninguém quer vir aqui, não é uma favela famosa”.

Madonna escolheu a Providência para conhecer a Casa Amarela, projeto social que JR mantém no bairro desde 2009. Nessa casa de três andares, encravada na fronteira (mais uma) disputada por traficantes e policiais, crianças recebem aulas de reforço de inglês, artes, leitura, música e fotografia. A equipe de JR acaba de inaugurar uma estrutura em forma de lua crescente, hoje o ponto mais alto da favela, de onde se vê a cidade e onde poderão se hospedar artistas convidados para dar aulas aos pequenos.

A Casa, cujo amarelo é fruto aleatório de um desconto atraente na loja de tintas, é financiada por doações anônimas de particulares e com o dinheiro que JR ganha com suas intervenções privadas e legais. Esse 1% de seu trabalho movimenta dezenas de milhares de dólares: uma única foto dele, montada em alumínio, foi vendida por 25.000 dólares (cerca de 80.000 reais), segundo a casa de leilões de arte Sotheby’s, e as litografias de seus projetos não são avaliadas em menos de 800 euros. O cachê que cobra pelos trabalhos sob encomenda, como as fotos gigantes de atletas que instalou no Rio durante os Jogos Olímpicos, é um mistério talvez milionário.

Paradoxalmente, parte dos recursos vem de marcas que usam suas obras nas ruas para anunciar seus produtos. JR aciona seus advogados e os anunciantes – alguns deles marcas de carros de luxo – acabam pagando pelo uso não autorizado de sua arte. “É interessante, porque eu instalei essas obras ilegalmente, para as pessoas da rua. Mas quando uma marca usa isso para dizer ‘somos cool’ não estão autorizados, não têm direito. Meu trabalho não é pensado para vender nenhum produto”, contava JR na sala de aula da Casa Amarela, no último sábado. JR não assina suas obras, mas depois de mais de uma década de trabalho, conseguiu fazer os retratos em preto e branco colados nas paredes se tornarem sua marca, de Istambul ao Rio de Janeiro.

JR pisou na Providência pela primeira vez em 2008 em busca de um lugar para expandir seu projeto Women are Heroes (as mulheres são heroínas), que já tinha intervenções na Libéria e no Quênia. Semanas antes, três meninos do bairro haviam sido sequestrados por militares e entregues como troféu a traficantes de uma favela rival. Foram torturados e assassinados. O clima não era propício para falar de fotos e instalações artísticas. JR recebeu vários nãos antes de a favela contar a ele sua história e abrir as portas de suas casas.

“Durante toda minha vida viajei o máximo possível para ouvir as pessoas me dizerem ‘não’. Quando estava na França, no Quênia, ou aqui no Brasil, diziam-me: ‘É impossível. Esta gente não está interessada em arte’. Mas era preconceito, sempre quis ir e provar isso. Se me dissessem: ‘Desculpe, aqui não é um lugar para a arte’, claro que não iria insistir. Mas em todos os lugares aonde fui, até na Somália, as pessoas me diziam: ‘Por favor, traga mais arte”, conta JR.

Uma primeira intervenção, interrompida temporariamente por um tiroteio, mudou tudo. JR e sua equipe cobriram a enorme escada que atravessa a parte alta da favela, território de disputa entre traficantes e policiais, com a imagem da avó de um dos meninos assassinados. Os moradores a reconheceram e entenderam o poder do papel e da cola. Eles, na verdade, queriam falar e ninguém parecia dar atenção. Até os traficantes permitiram que o francês passasse 25 dias cobrindo suas fachadas de tijolo com os rostos doloridos das mães, amigas e avós daqueles meninos, mulheres anônimas que só queriam um bairro melhor.

As fachadas das casas da Providência ganharam as faces das suas moradoras e a atenção da mídia.
As fachadas das casas da Providência ganharam as faces das suas moradoras e a atenção da mídia.

Desde que o resultado, um mosaico de olhares e barracos, pôde ser visto do asfalto rico da cidade, o morro da Providência ganhou manchetes que iam além da violência e da miséria. Quando os jornais quiseram saber o que era aquilo, JR já estava longe: havia deixado todo o protagonismo para as mulheres sem voz da comunidade. “A narrativa delas é muito mais interessante que a minha”, diz. “A cidade via este lugar como um local violento, viam seus moradores como monstros. O poder da arte é mudar a percepção das coisas. Não dá respostas, mas gera muitas perguntas”.

Em 2009, no ano cultural Brasil-França, foi lançado um livro sobre o projeto. “Aquilo permitiu que os papéis se invertessem. As pessoas ricas de Ipanema e Leblon fizeram fila para que as mulheres da Providência autografassem os exemplares”, relembra ao lado de uma das protagonistas. “Não era eu quem assinava, eram elas”.

Algumas coisas mudaram no Rio e na Providência desde então. Os meninos que JR fotografou naquela época cresceram. Alguns morreram, outros se tornaram traficantes, mas outros estão ali abraçando-o e colaborando com o projeto. “Há dez anos isto aqui era um inferno. Havia armas por todos os lados, drogas... Era muito tenso. Depois o Rio ganhou os Jogos Olímpicos e começaram a dar mais atenção. Trouxeram a TV a cabo, começaram a recolher o lixo, as mulheres começaram a abrir seus próprios negócios e chegou a pacificação... As ruas se encheram de gente e de crianças brincando. A comunidade ganhou protagonismo, conseguiu chamar a atenção da cidade”, conta. “Mas agora, depois dos Jogos, o tráfico de drogas voltou, a pacificação não funcionou e tudo voltou a desmoronar. Isso me deixa triste”.

Em 2011, JR ganhou o prêmio TED, uma organização norte-americana conhecida por suas conferências inovadoras e que tem como lema disseminar ideias que merecem ser divulgadas. O prêmio, no valor de um milhão de dólares e que já tinha sido concedido a figuras como Bill Clinton, o chef Jamie Olivier e Bono, exige que o homenageado formule um desejo para mudar o mundo. Com ele, o artista lançou o projeto Inside Out, uma iniciativa que permite a qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo enviar a JR sua foto para que o artista a devolva impressa e pronta para ser colada na parede. Aos seis anos de existência, é considerado o maior projeto artístico e participativo do mundo. Já foram recebidas e impressas cerca de 400.000 fotografias em 129 países. O sonho continua sendo o mesmo que JR mencionou em sua conferência após receber o prêmio: “Quero usar a arte para virar o mundo pelo avesso”.

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